O cinema sensível de Kleber Mendonça Filho

Roteiro de “O Agente Secreto” revela o processo criativo do filme que promete ser um dos mais importantes do cinema mundial

Por Hermes Leal

O roteiro do filme “O Agente Secreto”, publicado na forma original pela editora Amarcord, é perfeito para entendermos o que torna os filmes de Kleber Mendonça Filho universais e premiados como um dos melhores do mundo com uma estética sofisticada e própria.

Ler o roteiro é bem diferente de ver o filme. Uma outra experiência. Tudo o que está no roteiro está no filme. O roteiro é uma peça importante na estética do cinema de Kleber, que começa com uma escrita, pois nada muda no set de filmagem. O filme é o que está escrito no roteiro. Ou seja, tudo já está ali, o “visível” e o “invisível”.

No roteiro não está escrito se os personagens serão brancos ou pretos, gordos ou magros, feios ou bonitos. Até o próprio Marcelo, o personagem principal, é apresentado no roteiro apenas como tendo uma barba, sem indícios de sua idade.

Porque aquele texto é virtual, vai virar outro texto. Vai virar filme. Mas lendo o roteiro dá para sentir o suspense da narrativa e se emocionar com a história, que já tem uma estrutura narrativa pensada como uma ordem de montagem do filme.

Roteiro como parte de uma estética

Lendo o roteiro, o leitor sente o clima de suspense e a tensão em torno de Marcelo (Wagner Moura) até chegar no clímax da perseguição final, como está no filme, que tem como gênero o “suspense”. Os enigmas vão se esclarecendo aos poucos, como um bom Hitchcock.

O plot principal gira em torno das ações de Marcelo para fugir do Brasil com o filho. Isso ocorre em um jogo de “mostra e esconde” o incidente, o que causa a desgraça de Marcelo e motiva a sua jornada, que normalmente ocorre no começo dos filmes, mas aqui é mostrado apenas na metade do filme, quando a história caminha para uma resolução.

Marcelo e seu filho Fernando © Victor Jucá

O roteiro – escrito também como uma montagem para o filme, pois, na filmagem, a ordem das cenas não foi alterada – narra, de forma proustiana, a jornada do professor Marcelo envolto em várias camadas narrativas referentes a cada personagem a sua volta. Esse universo de personagens e situações tensas, ao se complementarem, dá sentido ao personagem e ao fechamento da história de forma surpreendente.

O final não é esperado pelo espectador, mas é aceito por ele em razão dos efeitos cognitivos vindos desse emaranhado de personagens tensos em torno de Marcelo. Entre vários deles, como “quatro duplas de pais e filhos” e um delegado, incialmente aparentando ser o anti-herói, temos o verdadeiro vilão, um empresário que lhe encomenda a morte.

Kleber gosta e consegue surpreender o espectador com seus truques bem feitos. O papel do delegado, por exemplo, serve como preparação para o espectador se surpreender mais a frente, quando o vilão verdadeiro aparecer.

Isso é possível, e é uma parte do roteiro, porque Kleber, mesmo sem adotar métodos de escrita, segue as normas estéticas da narrativa, com uma história linear de começo, meio e fim, e com a estratégia de demorar para surpreender o espectador com uma verdade até então desconhecida.

Quando fiz uma biografia de Kleber para a série de TV “Cineastas”, que irá estrear no canal Curta! em abril, ele afirmou que, em “O Agente Secreto”, iria demorar para revelar essa verdade, que acontece por volta dos 45 minutos do filme. E realmente dá para perceber esse ponto de atualização claramente no roteiro, um tempo maior do que usou para revelar a verdade escondida no primeiro ato do filme “Bacurau”.

Mas, em seu primeiro filme, “O Som ao Redor”, Kleber levou essa verdade escondida dos personagens até o final do filme, até a última cena, quando os seguranças pegam os espectadores de surpresa, ao revelarem que eram na verdade vingadores.

Essa surpresa causou um imenso impacto no final da história de “O Som ao Redor”, que vinha também sob o efeito cognitivo de mais duas narrativas paralelas, a de uma mulher se vingando contra a irmã e a de João, um jovem melancólico sem potência para a vida.

Essa estrutura de esconder e mostrar dá certo, porque Kleber trabalha a estética dos três atos com muita precisão. Os atos são definidos por pontos de “não retorno” da história, com uma pausa no final de cada ato. No roteiro não existe essa previsão de atos nem das imensas pausas entre um ato e outro. Mas no filme isso está bem claro.

No filme, Kleber acentuou os três atos com títulos para cada um. O primeiro ato chama-se “O Pesadelo do Menino”, o segundo, “Instituto de Identificação”, e o terceiro, “Transfusão de Sangue”. Existe inclusive pausas e escurecimentos entre um ato e outro.

O empresário Salvatore e seu filho

 

 

 

 

 

 

 

A cognição estética da arte cinematográfica

Toda essa estrutura “intuitiva” de Kleber serve para dar sentido e significado aos personagens. O tratamento dado ao personagem Marcelo é o mesmo que grandes mestres da ficção utilizam, de Camus a Fellini. O personagem é “possuído” por um sofrimento eterno, sua alma não revelada, com um tipo de sentimento que não sofre mutações ou se transforma ao longo da narrativa.

No roteiro já estão claros o caráter e a moral dos personagens, mas não está descrita a parte emocional, que é a que vai gerar no filme a parte “sensível” e subjetiva da narrativa. A estética do roteiro não permite essa visão literária que Kleber dá ao filme.

A mágica acontece quando Kleber escolhe seu elenco, seus atores absorvem o caráter e a moral dos personagens que estavam no papel, sem necessidade de qualquer alteração no roteiro. E aí entra a parte subjetiva da obra de arte. A parte intuitiva.

A estética do cinema de Kleber nasce dessa relação do que está escrito, do que é “visível” com o “inteligível”, com aquilo que não está escrito, o que é “sensível”. Nasce dessa junção, que o filósofo Gilles Deleuze nominou como Síntese Assimétrica do Sentido. O cinema de Kleber chega nesse nível.

Em uma conversa com Kleber, quando escrevia o roteiro de “O Som ao Redor”, época em que ambos éramos críticos, ele conseguia falar um pouco da história, das ações, mas não sobre a parte sensível, que ele chamava apenas de “cinema”. Esta parte é conhecida como a parte “intuitiva” do artista.

Kleber me falava do roteiro de um jeito e depois falava no filme de outro. Não conseguia descrever sua intuição, a forma como chegaria ao que chamava de “cinema”. Essa proposta está em todos seus filmes, esses dois planos, estrutura e personagem, que compõem a estética da arte.

No plano do visível e inteligível, Marcelo, um professor universitário acusado de suborno e alvo de uma vingança em curso, tem um objetivo, que é obter um passaporte falso e fugir do Brasil com seu filho pequeno.

No plano “sensível”, Marcelo é um personagem afetado por uma paixão permanente, a “melancolia”, de sentir a morte em vida, que nunca sai do personagem, nem quando dorme. Marcelo tem uma densidade de potência de morte gigantesca que impregna todo o filme.

Kleber usa esse excesso que é muito comum na grande literatura como um processo cognitivo, uma engenharia criativa a nível de Faulkner e Proust, em que cenas e personagens servem para dar “tensividade” e sentido ao personagem principal, tanto no nível do suspense narrativo quanto no da jornada interna do personagem afetado pelo luto e pela melancolia, os dois ao mesmo tempo.

O sensível regendo o inteligível na cena final

O que faz sentido a cena final do filme, um close do personagem Fernando, filho de Marcelo, que no roteiro indica apenas “close”? Não é um enigma.

Na última cena do roteiro, quando o filho de Marcelo, agora um médico, recebe um pen drive com a história de seu pai, está escrito apenas que há um close no personagem. Mas, no filme, essa descrição sem a parte emocional do personagem ganha um impacto gigantesco quando Kleber insere o que chama de “cinema” e “intuição”.

Close de Fernando, filho de Marcelo, na cena final do filme

No filme, Fernando aparece na pele de um ator angustiado, engolindo o amargor a seco, revelando a mesma angústia e o mesmo desespero de alma de seu pai. O filho herdando a “melancolia” devastadora do pai. E isso foi uma surpresa para o espectador. Mas uma surpresa preparada. Tudo já vinha sendo conduzido para essa cena final.

Esse final em que o filho “vira” o pai, faz parte de uma estratégia que mal passa percebida pelo espectador, ela é mais sentida do que percebida, que é a existência de “quatro pais e filhos” no filme. Isso mesmo. Em “O Agente Secreto” existe um jogo entre duplas de pais e filhos, nos quatro personagens masculinos, que irá gerar sentido à cena final do filme. Pais e filhos estão sempre juntos.

O delegado Euclides, de “alma sebosa”, age com dois policiais na investigação de uma perna que surge na barriga de um tubarão, os quais, no roteiro, estão descritos, logo de início, como seus dois filhos, Sérgio e Arlindo, um deles, adotado. Mas, no filme, isso não é percebido. Eles não são anunciados como pai e filhos. Somente no final do filme o delegado chama os dois policiais de filhos, mas o espectador não percebe, não dá importância.

Já a dupla “Bob pai, Bob filho” fica por conta de dois matadores, os tipos rudes e inseparáveis Augusto e seu filho adotivo Bobbi. Essa dupla fica clara no roteiro e no filme. Assim como também fica clara a relação “Bob pai, Bob filho” do empresário Salvatore, que manda matar Marcelo e age sempre ao lado do filho, um tipo igual ao pai, que lhe faz sombra em todas as suas ações.

Euclides e seus filhos Sérgio e Arlindo
Augusto e seu filho adotivo Bobbi

 

 

 

 

 

 

 

E, por último, fechando o filme, temos a dupla Marcelo e Fernando, cujo contrato transcendente entre pai e filho é mostrado nas primeiras cenas, através de uma fotografia dos dois juntos, no interior do Fusca, quando Marcelo está chegando em Recife.

Essas metáforas entre pais e filhos, de um ser espelho do outro, em toda narrativa, sem que o espectador dê tanta atenção, já que tenta decifrar o que está por trás dos acontecimentos cheios de enigmas, são o que alimentarão, subjetivamente, o espectador para a cena final.

Esse processo de reconhecimento subjetivo pode ser descrito como “cognição semiótica”, em que o close do filho como extensão do pai ocorre pela “melancolia” incorporada na alma do personagem. A melancolia é uma paixão menos conhecida da humanidade, afeta o personagem com uma dor infinita, muitas vezes causada por um eterno “gosto de morte”, tomando toda sua vida.

Esse lado sensível e invisível da narrativa de um filme é possível de se detectar através de uma nova ciência, a Semiótica das Paixões, descoberta na França por A. J. Greimas, que me permitiu chegar, em minhas pesquisas, nessas camadas mais profundas da alma de um personagem, que sentimos mesmo sem sabermos por que.

Em breve, irei ministrar uma masterclass sobre os roteiros de “O Agente Secreto” e “Ainda Estou Aqui”, mostrando como esses dois grandes cineastas constroem bons roteiros e através deles conseguem fazer bons filmes.

 

Hermes Leal é jornalista, escritor, com oito livros publicados, e documentarista, com uma extensa obra. É Mestre em Cinema pela ECA/USP e Doutor em Linguística pela FFLCH/USP.

 

O Agente Secreto
Um roteiro de Kleber Mendonça Filho
Editora: Amarcord
Páginas: 320
Preço: R$ 69,90

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