”E seus Filhos Depois Deles”, dos gêmeos Boukherma, retrata jovens entediados e sem rumo, imersos em decadente vale industrial francês
Por Maria do Rosário Caetano
O filme francês “E seus Filhos Depois Deles”, que participou do Festival Imovision de Cinema Europeu e trouxe seus realizadores, os gêmeos Ludovic e Zoran Boukherma, para debatê-lo com o público brasileiro, chega ao circuito exibidor nessa quinta-feira, 28 de maio.
O quarto longa-metragem da dupla, de apenas 33 anos, realiza sua estreia nos cinemas brasileiros escorado em alguns trunfos. O maior deles é sua fonte originária, o romance “Leurs Enfants Après Eux”, de Nicolas Mathieu, laureado com o prestigiado Prix Goncourt de Literatura (2018).
Os outros trunfos são a produção financeiramente generosa, garantida pelo Canal Plus e Warner Bros, e o ótimo elenco. A começar pelos dois adolescentes que o protagonizam – Paul Kircher, um típico gaulês coberto de espinhas, e seu antagonista, de origem árabe, Sayyid El Alami, uma espécie de Sal Mineo (“Juventude Transviada”) marroquino.
A eles se somam a talentosa Ludivine Sagnier, de 46 anos (“Oito Mulheres”), o veterano e festejado Gilles Lellouche, 53 (ator em “Moulin” e diretor do controverso “L’Amour Ouf”), a bela Angelina Woreth e, não se pode esquecer, a participação especialíssima de Raphaël Quenard, de “Cão Danado”, o maluco de plantão do cinema contemporâneo francês.
Os gêmeos Ludovic e Zoran bem cedo se destacaram nos meios cinematográficos da França. Afinal, usam sua juventude para abordar temas que costumam sensibilizar a galera, dialogam com o cinema de gênero e mostram interesse por temas sociais. Por isso, foram escolhidos para recriar o romance de Nicolas Mathieu nessa custosa produção, com imensa variedade de locações, que se desdobra ao longo de seis anos, durante quatro verões. E dura 2h21’.
Mathieu, de 47 anos, fez jus ao Goncourt por sua escritura, realista e sem concessões, de registro da vida de moradores de dinheiro curto, radicados em cidade operária, plantada em vale no noroeste francês (a fictícia Heillange), cujas indústrias, a siderúrgica em especial, estão em crise profunda. Da decadência fabril advém o desemprego.
O sucesso do livro motivou o filme, visto por 325 mil espectadores no território francês e vendido para dezenas de países. O texto literário foi valorizado pelos críticos por destacar “a pulsão juvenil num mundo em desintegração”.
No verão de 1992, os adolescentes Anthony (Paul Kircher), de 14 anos, e seu primo (Louis Memmi) vão passear num lago. Pegam, escondido, um barco alheio, para chegar até duas garotas de biquini, que se espreguiçam ao sol. Uma delas, Stéphane (Angelina Woreth), vai enfeitiçar todos os sentidos de Anthony.
A conversa se estabelecerá entre os quatro adolescentes e eles serão convidados, por elas, a comparecer a uma festa de arromba naquela mesma noite. Só que em local muito distante, inacessível para jovens sem grana. Como chegar lá?
A solução – concluirá Anthony com seu vistoso casaco de motoqueiro – será pegar, escondido (com discreta conivência da mãe, Hélène – Ludivine Sagnier), a moto de estimação do pai, Patrick Casati (Gilles Lellouche, ótimo, no difícil papel de um homem tóxico e alcóolatra). Ele é siderado por sua motocicleta, pois dela guarda as melhores recordações de sua juventude.
Na festa, Anthony se desentenderá com jovens “penetras” (de origem árabe, registre-se), que serão expulsos do local. As consequências se farão sentir, em velocidade inesperada. A moto desaparecerá. E a brutalidade paterna se apresentará em estado de fúria, em meio às chamas.
O filme prosseguirá no verão de 1994 (quando se agrava o fechamento das fábricas). Depois, na Festa do 14 de Julho de 1996, que comemora a Tomada da Bastilha, e na derradeira estação de calor e suor, 1998. Nesse ano, Zidane reinava soberano e a França sagrar-se-ia vencedora da Copa do Mundo (não se evocará o trauma dos brasileiros, cuja seleção foi derrotada em pleno Stade de France, por 3 x 0).
Na imagem que ilustra o cartaz do filme, veremos Anthony, com o rosto pintado nas cores bleu-blanc-rouge, com a amada Stéphane na garupa de uma moto. Sinal de desfecho feliz? Nem tanto.
A trama dos gêmeos Ludovic e Zoran começa em alta voltagem. O tédio dos adolescentes, seus primeiros namoros e desentendimentos com filhos de imigrantes vindos do Magreb prometem alta combustão. Mas à medida que o tempo vai passando, a trama vai perdendo substância. O personagem Hacine Bouali, criado pelo avô marroquino, comete atos de deliquência.
Honesto e ligado a métodos duros de contenção, o avô-pai punirá o neto de forma brutal. E devolverá o garoto ao Marrocos de origem. Mas o jovem regressará à França, disposto a se firmar como traficante de drogas. Só que, na versão fílmica de “Leurs Enfants Après Eux”, o personagem não ganha o desenvolvimento dramático esperado (e merecido).
A imprensa francesa comparou o longa dos gêmeos a dois filmes ambientados em cidades esquecidas, marcadas pelo desemprego e pela falta de oportunidades. Ao sólido “A Vida de Jesus” (Bruno Dumont, 1997) e ao destrambelhado “L’Amour Ouf” (“Corações Partidos”, de Gilles Lellouche, 2024, disponível na Netflix), que participou do Festival de Cannes, dois anos atrás, e deixou os críticos abismados. Não entenderam sua escolha para a disputa da Palma de Ouro.
“E seus Filhos Depois Deles” não tem, mesmo, as qualidades de “A Vida de Jesus”. Mas seu resultado cresce se comparado ao “Amour Fou-Ouf”. As semelhanças temáticas (incluindo a escolha de Lellouche para o elenco) não pesam contra “E seus Filhos Depois Deles”. O roteiro, sim, deixa muito a desejar.
Por sorte, na duração, os gêmeos levam vantagem. Sua adaptação é menos longa e digressiva que o “Amor Louco”, de Lelouche, com seus 166 intermináveis minutos.
E seus Filhos Depois Deles | Leurs Enfants Après Eux
França, 2024, 141 minutos
Direção: Ludovic e Zoran Boukherma
Roteiro: Ludovic e Zoran Boukherma (a partir do romance homônimo de Nicolas Mathieu)
Elenco: Paul Kircher (Anthony), Sayyid El Ammi (Hacine), Angelina Woreth (Stéphane), Ludivine Sagnier (Hélène), Gilles Lellouche (Patrick Casati), Louis Memmi (o primo), Anais Tellene (Cyrille), Raphael Quenard (Manu), Anaïs Demoustier
Fotografia: Augustin Barbaroux
Distribuição: Imovision
FILMOGRAFIA
Ludovic e Zoran Boukherma nasceram em Marmande, na França, em 5 de junho de 1992. Realizaram, em processo coletivo, dois curtas-metragens, em parceria com Marielle Guatier e Hugo Thomas. E, depois, quatro longas-metragens:
2024 – “E seus Filhos Depois Deles”
2022 – “L’Anné du Requin”
2020 – “Teddy”
2016 – “Willy 1er” (Seleção ACID- Cannes)
