“Privadas de suas Vidas”, terror levado ao horário nobre do Festival de Brasília, não se reduz à sanguinolência ‘gore’
Foto © Itallo Santos
Por Maria do Rosário Caetano, de Brasília (DF)
Quem esperava ver, na principal competição do outrora politizadíssimo Festival de Brasília, um ortodoxo exemplar do terror ‘gore’, aquele feito de violência gráfica e sangue jorrado de corpos mutilados, surpreendeu-se. O filme “Privadas de suas Vidas”, de Gustavo Vinagre e Gurcius Gewdner, produzido por Rodrigo Teixeira, é muito mais que um “splatter”.
Há, sim, muito sangue, violência e corpos mutilados. E muita escatologia. Mas há, também, personagens construídos com complexidade e sentimento. E capazes de mobilizar (até) espectadores avessos às múltiplas variantes do terror explícito.
Quatro personagens, os mais importantes da trama de quase 120 minutos de duração, hão de tocar a sensibilidade do espectador. Primeiro, Malu, uma mãe desesperada e à beira de um ataque de nervos, interpretada com paixão e fúria por Martha Nowill, forte candidata ao Troféu Candango. Depois, Villaça, o zelador do condomínio que sedia a trama, magistral e pateticamente representado por Otávio Müller. Em determinado momento da trama, ele se assemelhará a personagem de filme neo-realista.
Sem esquecer o ‘filhe’ Gênesis, de Malu, que a mãe insiste em chamar pelo nome de batismo, Luara (Benjamin Damini, em seu primeiro papel num longa-metragem) e Norberto (Fábio Marx), braço direito da estressada promotora de festas, inclusive de “Chás Revelação” (do sexo de bebês).
Em torno do quarteto de protagonistas, gravitarão diversos moradores do prédio, principal cenário do filme. Aliás, homenagem dos dois diretores e roteiristas a um dos mais impressionantes e politizados filmes do canadense David Cronemberg — “Calafrios” (Eles Vieram de Dentro, 1975). Lembram?
Se, em “Privadas de suas Vidas”, os vasos sanitários transformam-se em objeto-assassino, em “Calafrios” essa função cabe a parasitas mutantes, que somam ingredientes afrodisíacos a doenças venéreas. Causando, assim, a bancarrota de condomínio vendido pelo glamour publicitário como irresistível maravilha imobiliária.
Para construir “Privadas de suas Vidas” — nome que numa primeira leitura pode evocar um melodrama de Douglas Sirk — Vinagre e Gurcius reuniram formidável elenco. Regina Braga, dama do teatro e da TV, encarna Hermengarda, figura solitária, que tem em seu gato Felicidade e no zelador, seus raros amigos.
A pernambucana Chandelly Braz interpreta Suellen, uma ambiciosa influencer, casada com Renato, parceiro igualmente ambicioso (Marco Pigossi). Ele é pai de Helinho, menino que utiliza-se de uma perna mecânica e ressente-se do desamor paterno e da insensibilidade da madrasta fútil.
Olívia Torres interpreta uma magérrima mística estadunidense-brasileira, que analisa os destinos de seus clientes por meio de suas fezes (e outras secreções). Num dos momentos mais divertidos do filme, ela justificará sua opção geográfico-habitacional pelo centro de São Paulo. Ali fora detectada “a pior energia” do planeta. Seu guru, interpretado pelo multiartista canadense Bruce LaBruce, também causará frisson (entre iniciados), ao aparecer em diálogo digital com a discípula.
A trama de “Privadas de suas Vidas”, engendrada por Vinagre e Gurcius — os dois sonhavam por uma década realizar um filme sobre “privadas assassinas” —, pode ser resumida (sem spoiler) como a história de Malu, uma mulher que perde um de seus pequenos filhos gêmeos num acidente no banheiro. O que lhe resta resolverá, na adolescência, assumir-se, já adolescente, como pessoa binária. Renegará o nome de Luara e adotará versão (cósmica e bela) de Gênesis.
Malu não entende a opção do filho (filha) e insiste no uso de um dos nomes que escolhera para os gêmeos, Luan e Luara (“isso é nome de dupla sertaneja” protestará Gênesis). Ocupada em organizar o “Chá Revelação” de Suellen, a influencer obcecada por fama e novos seguidores, Malu segue em frente, escorada na amizade e eficiência do ajudante Norberto.
Há, porém, um agravante na saúde de Malu: sua saúde só faz piorar. Abalada desde a morte do filho, ela enfrenta graves problemas intestinais, uma terrível constipação fecal. E não tem tempo para dedicar-se ao devido tratamento, pois o Chá Revelação está por acontecer. No condomínio onde Malu reside, privadas começam a provocar o desaparecimento de alguns moradores. E de um gato roliço chamado Felicidade.
Vinagre e Gurcius sintetizam a essência e o propósito do filme: mostrar “uma mãe sugada para um pesadelo, que a fará descobrir que maternidade, luto e terror existencial não desaparecem com uma descarga”.
O final — podem acreditar — tem sangue e vísceras expostas, mas traz redenção materna e filial. Além de poético final para o generoso e impotente zelador Villaça, descartado como traste velho.
O filme custou R$5 milhões. Uma fortuna para os padrões adotados por Vinagre e Gurcius em seus primeiros longas. Mas apenas um trezeavo do custo do malfadado “Dark Horse” (sim, com R$65 milhões, Rodrigo Teixeira e sua dupla de diretores fariam 13 longas como “Privadas de suas Vidas”).
Os espectadores verão, ao assistir ao filme, que cada centavo gasto aparecerá na tela. Nos cenários, nas locações, em estúdio ou num cemitério, nos figurinos, adereços e mudanças visuais da protagonista (seus cabelos pretos se tornam loiros e volumosamente cacheados em saborosa citação de “Carne Trêmula”, de Almodóvar).
Martha Nowill contou, durante o debate, que já atuou em 30 filmes. Nenhum deles exigiu tanto dela quanto “Privadas de suas Vidas”. Ela que, em sua existência real, é mãe de gêmeos, morre de medo de filmes de terror. Se assisti-los à noite, perde o sono.
Vinagre e Gurcius recomendaram à atriz e a todo o elenco que assistissem a dezenas de filmes de terror, das mais variadas vertentes. “Perguntei a eles” — brincou a atriz — “se queriam que eu não dormisse para melhor viver o pesadelo proposto para minha personagem”.
Marta Nowill, alma (junto com Maria Manoela) do encantador “Vermelho Russo” (Charly Brown, 2015), contou que, infinitas vezes, cobrou do amigo Rodrigo Teixeira escalação para papel (de protagonista ou coadjuvante) de uma de suas produções. Finalmente o recebeu. Ela é onipresente na trama e brilha com trabalho físico (e psicológico) impressionantes. E arrasa em versão morena e loiríssima, nas cenas maternais, laborais e escatológicas. Sim, há muita escatologia no filme. Mas vale reforçar: há também cenas revestidas de afeto e ternura. Mesmo que acabem em mortes brutais-sanguinolentas causadas por privadas assassinas.
Sobre a presença da atriz Regina Braga, de 80 anos, companheira do médico e humanista Drauzio Varella, num filme ‘gore’, vale registrar o testemunho de Gustavo Vinagre, atrevido a ponto de convidá-la a ser um dos alvos das privadas assassinas.
“Quando convidamos Regina para interpretar Hermegarda, ela, de cara, mostrou-se interessada. Nos disse que já tinha feito tantas coisas na vida, que entendera ter chegado a hora de se divertir. E por que não divertir-se num filme de terror ‘gore’? Passei uma lista de filmes do gênero para ela ver, se quisesse. Viu todos, junto com o Drauzio. E estudou olhares de atrizes famosas do gênero, Joan Crawford, que no final da carreira fez muitos filmes de terror, Susan Tyrell, com seu olhar de psicopata, adotado num dos filmes assistidos por ela. Regina nos alertou sobre duas alergias — a gato e a certos tecidos. No primeiro caso, não havia solução, pois ela teria que contracenar com um imenso gato preto. Quanto aos tecidos, cuidamos para evitar os que causavam mal a ela. Outro complicador, a atriz teria que ficar de joelhos por longo tempo frente a um vaso sanitário, pois seus cabelos seriam sugados. Ela topou o desafio com entusiasmo. Tomou antialérgico para as cenas com o bichano. E enfrentou a cena que faria de joelhos, filmagem complexa, com empenho. Eu a convidei para a sequência inicial de meu novo filme. E estou escrevendo novo roteiro, que pretendo filmar em breve e do qual ela será a protagonista”.
Fernanda Froteé, que representou Rodrigo Teixeira na mesa de debate de “Privadas de suas Vidas”, lembrou que o filme fez sua estreia no Festival de Roterdã (Holanda), e que participará, nos próximos meses, do circuito de festivais brasileiros. Afinal, guardou-se 100% inédito (em território brasileiro) para a competição do Festival de Brasília. O lançamento comercial do filme das privadas assassinas (e da mater dolorosa Malu) está previsto para os primeiros meses de 2027.
