“Se Eu Fosse Vivo… Vivia” impregna o cinema intimista de André Novais com ingredientes da ficção científica
Foto: Renato, Norberto e André Novais Oliveira, no debate do filme © Bernardo Fernandes
Por Maria do Rosário Caetano, de Brasília (DF)
“Se Eu Fosse Vivo…Vivia”, quarto longa-metragem do mineiro André Novais Oliveira, da Filmes de Plástico, teve a sessão mais concorrida da quinquagésima-nona edição do Festival de Brasília do Cinema Brasileiro.
Não houve ingresso para atender a tantos interessados. Sobrou gente (frustrada) no foyer do Cine Brasília. O filme mobilizou, também, a maior plateia de todos os debates de curtas e longas concorrentes ao Troféu Candango.
O público que lotou a Sala Vladimir Carvalho (600 lugares) do Cine Brasília recebeu “Se Eu Fosse Vivo…” com palmas moderadas. E por razão que o cineasta, em certa medida, já esperava. Afinal, exibiu o filme na Berlinale e em outros festivais internacionais, e constatou que “há, sim, um certo estranhamento” na recepção a seu trabalho mais recente.
E por que isso acontece?
Porque o diretor, roteirista e comontador (com Gabriel Martins) de “Se Eu Fosse Vivo… Vivia”, realizou filme que, em sua terceira parte, assemelha-se a um “ovni”. Ou seja, mergulha no cinema fantástico, até desaguar na mais pura ficção científica (aquela povoada por ETs). Não que tais ingredientes inexistissem em alguns de seus curtas. Mas eram usados com parcimônia. Dessa vez, o ‘filme-de-plástico maker’ entrou com gosto no mundo da fantasia. E derivou para a sci-fic.
André Novais, que arrebatara a plateia brasiliense com “Ela Volta na Quinta” e “Temporada” (este, o grande vencedor da edição de 2018), povoou a terceira parte de seu quarto longa com extraterrestres e ovnis.
Sua curiosa trama começa com saborosa história de amor black, protagonizada pelos adolescentes Gilberto e Jacira, interpretados com frescor e graça por Jean Paulo Campos e Tainá Evaristo. O rapazinho se esmera no ensaio de sedutora canção setentista, que será apresentada em nostálgica serenata. Com o canto seresteiro, Gilberto espera reconquistar sua amada. Os dois se querem muito, mas estão rompidos.
O casal fará as pazes num baile black, que uniu 250 figurantes. Um baile estilizado, capaz de transformar a mineira e periférica Contagem numa sucursal do Harlem nova-iorquino, temperada com o balanço da ‘soul music’ brasileira. O público adorou. E continuou plugado no que viria a seguir, passados 50 anos.
Depois do sacudido prólogo, veremos Gilberto e Jacira, já septuagenários e inseridos no Brasil contemporâneo. Norberto Novais Oliveira (pai do cineasta) e Conceição Evaristo assumem os papéis do Sr. Gilberto e de Dona Jacira. A escritora (praticante da “escrevivência” literária) faz sua estreia como atriz de longa-metragem.
Essa parte do filme, a que sucede o sacudido e coloridíssimo prólogo, dialoga em parte com a vida em família, tão marcante e recorrente na obra de André Novais. Mas logo perceberemos que nem tudo é autobiográfico. Ao invés de ser pai de um ator (Renato Novaes) e de um cineasta (André), o casal tem apenas uma filha. E mais: seus nomes (Norberto e Maria José) deram lugar aos fictícios Gilberto e Jacira. Do real, ficam a doença e partida da figura materna. Que deixa um buraco na vida afetiva da família Novais Oliveira.
O humor, tão presente nas histórias “doméstico-familiares” de André, assegurará os melhores momentos dessa segunda parte do filme. O casal idoso divide seus singelos dias entre os cômodos de modesta residência, muito arrumadinha e aprazível. Não há cerca alta que os separe da rua. Vivem um cotidiano feito de pequenos afetos e pequenas turras. Vão ao hospital, garantem seguir os preceitos médicos de alimentação e uso de medicamentos. Mas um desmentirá o outro em diálogos impagáveis.
Dona Jacira, porém, apresenta graves problemas de saúde. Desmaia na rua. E teima em fugir da internação hospitalar. Nem os apelos do marido e da filha (Meire Rodrigues) a convencem. Uma elipse mostrará que ela foi vencida pela doença.
A partida da esposa deixará o Sr. Gilberto, que já vinha mostrando enorme interesse por assuntos ufológicos, desestruturado. Ele vai parar na rua, desorientado, sem conseguir lembrar do endereço de sua residência.
A terceira parte do filme — a que vem causando estranhamento — se passará no universo dos ETs, naves e temas agregados, que motivavam Gilberto em suas incursões por leitura de revistas especializadas.
No debate do filme, houve quem (como a crítica e pesquisadora Lorena Montenegro) questionasse os caminhos trilhados pelo diretor-roteirista, mostrando preferência pelas propostas apresentadas, anteriormente, em “Ela Volta na Quinta”, “Temporada” e na love story black “O Dia que te Conheci”.
Com sua calma costumeira (e capacidade de síntese), André reafirmou o “estranhamento” causado pelo filme nas plateias festivaleiras que o assistiram. E recorreu a frase do colega e sócio na Filmes de Plástico, Gabriel Martins, o Gabito, para assegurar que ele e seus sócios (Maurilio Martins e Gabito) seguem fiéis ao projeto que norteou a criação da Filmes de Plástico.
Deixou explícito que não (per)seguira fórmula pré-concebida, daquelas pensadas para agradar a curadorias de festivais internacionais (ou nacionais). Realizada, isto sim, ‘um filme sincero’.
“O Gabito sempre diz que, no dia em que fizermos, um de nós três, um filme que não seja sincero, o público perceberá na hora”, rememorou.
Abaixo, trechos do debate, o mais longo dos seis já realizados com equipe participante da principal mostra competitiva do Festival de Brasília, nessa edição:
DO “QUINTAL” PARA O ESPAÇO SIDERAL — André Novais: “Meus primeiros filmes, entre eles, o curta “Quintal” e o longa “Ela Volta na Quinta”, tinham um registro naturalista. Eram um híbrido de documentário e ficção. Ou melhor: eram ficções com um pé no documentário. Mas eu já flertava com o realismo fantástico, principalmente no ‘Quintal’, leitor que sou de Murilo Rubião. Naquela época, nos nossos começos, parece que o Cinema Negro não tinha direito de fabular. Passada década e meia, quis brincar com o cinema fantástico, somar estranhamento e humor. Daí a opção pela ficção científica”.
ESCOLHA DE CONCEIÇÃO EVARISTO – André Novais: “O nome dela surgiu numa reunião da Filmes de Plástico. O Maurílio (Martins) fez a sugestão. Que agradou a todos. Mas como chegar a ela? Teria agenda, em meio a tantos compromissos literários, para trabalhar conosco? A Yasmine Evaristo (crítica e pesquisadora mineira) nos ajudou a acessá-la. Percebi, no primeiro encontro com Dona Conceição, que ia dar certo. Ela se mostrou muito disposta a abraçar um novo desafio. E eu percebi que tínhamos o mesmo tipo de humor. Perguntei a ela: ‘a senhora toma cachaça?’ E ela rebateu: ‘ô menino! Vê se eu tenho cara de quem toma cachaça!!!’ Captei a ironia e pedi: “Então, traz duas (doses)!’ As filmagens correram tranquilas, ela sempre interessada, querendo entender a escritura de um roteiro. Não me espantarei se ela aparecer com um roteiro próprio”.
TRILHA SONORA ORIGINAL – Jussara Marçal: “Compusemos, nós do Metá Metá (Kiko Dinucci, Thiago França e eu), a trilha original. As canções setentistas cantadas no filme foram escolhidas pelo André. Aceitamos o desafio com muita alegria, pois somos fãs dos filmes dele. Tivemos total liberdade para criar em cima das indicações recebidas. Que dali em diante fizéssemos o que nos desse na telha. Minha voz, por um lado, se deu em registro diferenciado. Por outro, se gravada naturalmente, acabaria processada de forma que virasse ruído. Algumas de nossas composições se transformaram em momentos explosivos, elaborados com guitarras e sintetizadores. Digamos que houve o ‘lado ET’ da trilha. Estou muito feliz por estar no Festival de Brasília, junto com o Metá Metá, assinando a trilha de dois longas mineiros — esse do André e a animação “Ana, en Passant”, da Fernanda Salgado. E estou sabendo que tem música minha na trilha de um curta, do qual ainda não decorei o nome. Por que Minas Gerais está tão interessada no meu trabalho? Não sei dizer (risos). O que sei é que fizemos trilha para o Grupo Corpo (balé), para um documentário sobre Conceição Evaristo e que, quando nos apresentamos em BH, a receptividade é das mais acolhedoras e calorosas”.
ENGENHARIA DE PRODUÇÃO – Thiago Macêdo Correia (produtor executivo): “André (Novais) não gosta de sets grandes. Prefere sets intimistas, pequenos. Foi assim em seus três primeiros longas. Mas dessa vez, tínhamos um projeto maior, ainda que de baixo orçamento. Tínhamos que trabalhar, no prólogo, com 250 figurantes, vestidos com figurinos setentistas (baile black). Tínhamos que adquirir direitos de canções famosas para a trilha sonora, que investir em muitos efeitos especiais etc., etc. Sugeri que filmássemos na residência do Norberto (Novais), onde fizéramos “Quintal”. André não quis de jeito nenhum. Saímos em busca de uma casa que lembrasse os anos 1970, com murinho baixo e quintal. Elas praticamente desapareceram atrás de muros altos. Rodamos o prólogo em 16 milímetros e em noturnas. Economizamos tanto, inclusive no uso de negativos, que (até) sobrou parte do dinheiro reservado para o baile. Queríamos ter uma música de James Brown, usada como música-guia na filmagem, em nossa trilha. Primeiro, nos coube convencer os herdeiros do artista. Mas o preço era impeditivo. Desistimos. Em compensação, usamos músicas maravilhosas, incluindo aquela da qual jamais abriríamos mão: ‘As Dores do Mundo’ (Hyldon, 1975)”.
FIGURINOS PARA 250 FIGURANTES – Diana Moreira (figurinista): “Quando me disseram que eu tinha que vestir 250 pessoas com roupas da década de 1970 e me apresentaram o orçamento, avisei logo: não dá, é muito pouco. Mas tive que me virar e contar com a ajuda de minhas maravilhosas costureiras. De cara, percebemos que ia ser difícil arrumar rapazes e moças magrinhos, sem tatuagens, sem sobrancelhas também tatuadas, tão comuns hoje em dia. Sou de Salvador (Bahia) e me virei. Contei, também, com a valiosa colaboração da equipe de caracterização. Apelei para uma fábrica de jeans soteropolitana e conseguimos vestir todo mundo a caráter. Preocupei-me, claro, também com as roupas usadas por Dona Jacira, a personagem de Conceição Evaristo. Queria que ela usasse figurinos que a mostrassem como uma senhorinha bem arrumada”.
