Michel Gondry transforma fantasias da filha Maya em deliciosa narrativa feita de desenhos e citações de gêneros cinematográficos
Por Maria do Rosário Caetano
“Maya, me Dê um Título”, novo filme do multiartista francês Michel Gondry, chega, nessa quinta-feira, 19 de março, aos cinemas brasileiros. Trata-se de obra singular, criada com o propósito de estabelecer relação amorosa e cinematográfica entre pai geograficamente distante (o cineasta) e filha, a menina Maya (Maya Gondry).
A garotinha, dona de fértil imaginação, sugere a Gondry temas que ele transformará em pequenas narrativas. Todas protagonizadas pela filha, ladeada por parceiros reais ou inventados. Pode ser a mãe de Maya. Ou os avós verdadeiros. Entre os seres saídos da imaginação da garotinha estão figuras retiradas do mundo do cinema. E muitos animais. Pássaros, gatos, cachorros.
Além de dar o mote que servirá de impulso criativo ao pai, Maya acabará sugerindo o gênero cinematográfico no qual Michel Gondry investirá seu tempo artístico-afetivo. Seja um filme-catástrofe, um curta ecológico, uma ficção científica (banheira transformada em avião, que levanta vôo com ajuda de pássaros) ou um filme policial.
O público – juvenil e adulto – poderá ver o filme em versão original, com voz do ator Pierre Niney, de Maya Gondry e de mamãe Miriam Matejovsky. Ou dublado em português (com vozes calorosas e distantes das dublagens muitas vezes genéricas da TV ou do streaming).
O filme tem muito das recorrentes maluquices de Michel Gondry, hoje um homem de 62 anos. Mas acabará nos seduzindo pela rica (e infinita) imaginação de Maya. E, também, pelo afeto que perpassa cada aparição da menina (vista em imagens live action).
Ao receber um novo “tema” de Maya, Gondry o transforma em um curta de animação stop motion. Ele vive nos EUA, distante da filha. Ela será vista na Normandia francesa, em Estocolmo e, até, graças à magia dos desenhos animados, visitando o Rei da Bélgica, para negociar com ele o combate à “onda vermelha” de ketchup, que a tudo invade.
Para solucionar o preocupante problema ecológico, em vias de causar catástrofe ambiental, Maya recorrerá à ajuda dos avós, habitantes da Bélgica, o “país da batata frita”. Aquele que cultiva os fritkots (barraquinhas de venda de fritas).
Com a produção industrial de toneladas de pommes de terre fritadas à moda belga (duas vezes, para chegar à textura e sabor únicos), a menina pretende debelar a onda vermelha. E por que não conseguiria executar sua missão? Afinal, o ketchup e a batata frita são — raciocina a menina — altamente compatíveis, feitos um para o outro.
Em “Maya, me Dê um Título”, tudo começa com imagens de celular, portanto, com ocupação vertical da tela. Mas logo o cinema – trata-se, afinal, de filme metalinguístico – se imporá (para nosso alívio) com ocupação plena e horizontalizada do espaço de projeção.
Letreiros serão inseridos no quadro, como parte constitutiva das imagens feitas de figuras recortadas (e articuladas). Tudo em francês. Mas ninguém precisa dominar o idioma de Gondry e da filha (aliás, trilíngue, pois ela fala também sueco e inglês), para entender a narrativa. A voz de Pierre Niney (ou de seu dublador) resolverá a questão.
Maya será a heroína de todas as pequenas narrativas. Enfrentará terremotos, viajará pelo centro da terra, passará por caminhos subterrâneos, viverá entreveros com forças policiais. O resultado é fascinante, divertido e doidinho como convém a filmes construídos com técnicas de animação, que tudo podem. Tudo permitem. Se existe um gênero cinematográfico que não conhece limites, esse gênero é a animação.
Na origem do filme — segundo testemunhos de Michel Gondry à imprensa — está a pequenina Maya, quando tinha apenas três anos. A mãe a filmou, com telefone celular, e ouviu da menina: “na próxima filmagem teremos ‘Maya e o Terremoto’”. Os pais, encantados com a desenvoltura e imaginação da criança, decidiram continuar filmando suas novas aventuras. Por isso, a veremos, ao longo da narrativa, pequenina e, depois, já mais crescida. E sempre dona de fértil poder de fabulação. Disposta a oferecer ao pai novos motes para que ele os transformasse em (animadas) narrativas.
“Maya, me Dê um Título” estreou na mostra Generation Kplus, no Festival de Berlim de 2024, e fez jus ao Urso de Cristal, o principal prêmio desse segmento dedicado ao público infanto-juvenil e à valorização de temas como “a amizade, o luto, a identidade e o pertencimento”.
Maya, me Dê um Título | Maya, Donne-moi un Titre
França, 2024, 62 minutos, livre
Direção e roteiro: Michel Gondry
Vozes: Pierre Niney, Maya Gondry e Miriam Matejovsky (versão original)
Vozes (versão dublada): Camilo Schaden, Lara Alves e Milú Müller
Fotografia: Laurent Brunet
Montagem: J. Logan Alexander, Elise Fievet e Jake Schwartz
Produtor: Georges Bermann
Distribuição: Filmes da Mostra
FILMOGRAFIA
Michel Gondry (Versalhes, França, 9 de maio de 1963)
Multiartista, diretor, roteirista e músico. Frequentou a Escola de Artes de Paris e integrou a banda Oui Oui. Dirigiu videoclipes de Björk, Chemical Brothers, Massive Attack, Daft Punk e The White Stripes
2024 – “Maya, me Dê um Título”
2023 – “O Livro das Soluções”
2015 – “Microbe et Gasoil”
2013 – “A Espuma dos Dias”
2012 – “O Homem que é Alto é Feliz?” (doc.)
2011 – “Besouro Verde”
2009 – “L’Épine dans le Coeur” (doc)
2008 – “Tokyo!” (episódio)
2008 – “Rebobine, Por Favor”
2006 – “Sonhando Acordado”
2005 – “Dave Chappelle’s Block Party” (doc)
2004 – “Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças”
2001 – “A Natureza (Quase) Humana”
