Baby do Brasil mostra seu “Apopcalipse” na CineOP e garante que longa documental de Rafael Saar a representa

Foto: Baby do Brasil e equipe de “Apopcalipse Segundo Baby” © Jackson Romanelli /Universo Produção

Por Maria do Rosário Caetano, de Ouro Preto (MG)  

Baby do Brasil, que nasceu sete décadas atrás em Niterói e tornou-se uma “Nova Baiana” — ou “Falsa Baiana”, pondera com seu sorriso largo —, foi descoberta simultaneamente pela música e pelo cinema. 

Aos 17 anos a niteroiense “fugiu para a Bahia”, onde, como uma autêntica hippie, viveria experiências singulares. Em Salvador, depois de dormir debaixo da ponte, passou a integrar o grupo musical Novos Baianos e “atuou” no mais louco dos filmes do “udigrúdi soteropolitano” — “Caveira my Friend”, de Alvinho Guimarães. Do qual ela não lembra “nada, nada mesmo!”.

Em Ouro Preto para apresentar, na vigésima-primeira edição do festival CineOP, o longa documental “Apopcalipse Segundo Baby”, concebido por Rafael Saar, a cantora causou sensação. Distribuiu simpatia e sorrisos, tanto no palco do Cine Petrobras, onde o filme foi exibido para imensa plateia, quanto nas ruas e nos debates. 

A Mostra de Cinema de Ouro Preto tem a memória e a preservação do cinema como razão de ser. Mas, vale registrar, a memória não é o ponto forte de Baby do Brasil. Ela não costuma lembrar-se com precisão do que viveu. Num ponto, porém, ela é rigorosa. No zelo por sua imagem e direitos autorais.

Em concorrido encontro com a imprensa e o público, Baby, ex-Consuelo, que fará 74 anos no próximo dia 18 de julho, não fugiu de nenhuma pergunta. Nem dos contratempos que marcaram sua trajetória cinematográfica.   

A cantora abordou, inclusive, a retirada — exigida por ela — de suas aparições no filme “Os Filhos de João – Admirável Mundo Novo Baiano” (Henrique Dantas, 2009), lançado no Festival de Brasília e transformado em cult movie.

Há que se lembrar que por trás dos cabelos azuis, figurinos extravagantes e persona maluquete existe “uma produtora” que cuida com rigor e precisão de sua carreira. “Criei meus seis filhos” (do casamento com o guitarrista Pepeu Gomes) — pondera a artista —, “o que prova que sou uma ótima produtora”. Para, em seguida, apresentar o seu lado no imbróglio com o criador de “Os Filhos de João – Admirável Novo Mundo Baiano”, o talentoso Henrique Dantas:

— “Não quero dar o troco, nada disso. Só lembrar que não acho que uma entrevista feita como se fosse para um trabalho de faculdade, possa, depois, ser usada, sem autorização, num filme que vai ganhar festival, faturar. Um dia, Galvão (um dos Novos Baianos) me procurou pedindo para eu autorizar a exibição de minha imagem no filme. Não assinei nada, retruquei. Como é isso? Não autorizei. Retiraram as minhas falas, mas seguiu o erro. Não achei aquilo correto. Poderia ter colocado um advogado para exigir e defender meus direitos. Não coloquei. Mas lembrei ao Galvão: ‘A gente não fuma maconha, nem cheira cocaína, por que vamos abrir mão de nossos direitos?’”.

Para acrescentar: “Quem tem seis filhos só pode ser uma excelente produtora. Afinal, administra tudo, as fraldas, as mamadeiras. Eu sou realmente uma ótima produtora. Se vi o filme? Não vi! E convenhamos: não ter participado (daquele filme) valoriza o ‘Apopcalipse Segundo Baby’. Tudo ficou guardado para esse nosso documentário, do qual gosto muito e que me representa”.

Para realizar este “Apopcalipse”, Rafael Saar consumiu 18 anos de pesquisas e trabalho e teve que conviver com o gênio forte de sua protagonista. Ao lado dela, na CineOP, o diretor expôs, com imensa calma, a base da convivência com a exuberante Baby do Brasil:

— “Eu, desde o começo entendi que tinha que trabalhar de acordo com as ideias dela e com as minhas. Muito do que planejei não consegui fazer. O improviso traria o inesperado. Fui percebendo, a cada momento da filmagem, e foram muitos e por longos anos, que Baby tem sua autenticidade e sua singularidade. E que nos encontraríamos nesses improvisos inesperados”.

Em seminário que debateu, na CineOP, “O Uso de Acervos na Criação de Novos Filmes”, Rafael Saar lembrou duas experiências cinematográficas vividas por ele e que se revestiram de características bem diversas, antagônicas:

— Quando Joel Pizzini realizou “Olho Nu”, longa documental sobre Ney Matogrosso, ele me contratou para localizar todos os arquivos possíveis do artista. Há muito material audiovisual sobre Ney e ele é muito organizado. Guarda tudo. Se vai a um programa de TV, ele pede uma cópia da gravação. E arquiva com zelo. Já a Baby é o oposto. Ela não arquivou nada e nem se lembrava do nome deste ou daquele filme, deste ou daquele cineasta que a dirigiu. Nos nossos primeiros contatos, anos atrás, ela me repassou uma única foto dela. E era uma cópia xerox. E foi só! Então, tive que mergulhar em arquivos os mais diversos para localizar imagens de Baby, em especial, as de décadas passadas.

Solano Trindade assina as imagens mais conhecidas dos Novos Baianos, de Baby, Pepeu, Galvão, Moraes Moreira, Paulinho Boca de Cantor e agregados. Imagens feitas num sítio, onde o coletivo baiano e a cantora niteroiense criavam canções e filhos, viviam como hippies de alma comunitária e jogavam futebol. 

Baby do Brasil contou a Rafael Saar que participara de um Super-8, mas não se lembrava do nome nem do filme, nem do diretor. Este material ainda não foi localizado. Mas o cineasta localizou (e destacou), em “Apopcalipse”, imagens de “Caveira my Friend”, de Alvinho Guimarães, “O Cangaceiro (ou A Rebelião dos Brutos)”, do italiano Giovanni Fago, e outras imagens de Baby feitas nos primeiros momentos de sua trajetória. Inclusive registros de sua ação como “primeira intérprete a cantar num trio elétrico”.

A cantora pediu, com convicção, a Rafael Saar que filmasse a integra de suas novas aparições no carnaval da Bahia, no alto de um trio elétrico. Decerto para que lembrem que ela “foi pioneira” nessa arte que tem em Daniela Mercury e Ivete Sangalo suas estrelas mais festejadas (e lembradas).

Baby sabe que nem sempre é lembrada como merece. Na conversa com os jornalistas, fez questão de citar momentos em que foi esquecida: “Se procurarem por mim nos ‘Shows de Mulheres’, na TV Globo, verão que não estou lá, não fui convidada. Mesmo que o ‘Acabou Chorare’ seja considerado, em ótima colocação, à frente de Lady Gaga, um dos 400 melhores discos do planeta”.

— “Sou mãe de três filhas e de três filhos. Desde os 17 anos faço música como fiz filhos. Vivi em comunidade com os Novos Baianos, sem grana. Tínhamos somente para o básico, o essencial. Num canto havia um saco de dinheiro. Precisava dele para comprar fralda, uma roupa, comida? ‘Pegue lá, mas pegue pouco, senão vai faltar’. Hoje tenho dinheiro. E tenho esse ‘Apopcalipse Segundo Baby’ que me traduz perfeitamente”.

O que Baby do Brasil, naquela época Consuelo, guardou das filmagens de “Caveira my Friend”, obra disruptiva para os padrões da hoje cantora-mãe convertida ao evangelismo e transformada em pregadora?

— “Não me lembro de nada. Quando vi estava no meio de uma filmagem muito louca. Não sei se o diretor pediu para que fizéssemos isso ou aquilo. Ou se foi filmando o que aparecesse à sua frente”.

CRISTAIS DE SANGUE

Outro nome feminino, bem mais discreto que Baby do Brasil, a destacar-se na CineOP foi o da cineasta Luna Alkalay, que fará 80 anos em 2027. Ela é uma das realizadoras homenageadas nessa edição que a CineOP dedica ao cinema das mulheres.

Com a pergunta “Como elas começaram?” seguida pela busca das “Memórias do Primeiro Filme”, os curadores do núcleo histórico do festival (Cleber Eduardo e Juliana Gusman) selecionaram nomes e filmes, entre eles, os de Helena Solberg (“Vida de Menina”), Ana Carolina (“Mar de Rosas”), Lúcia Murat (“Que Bom te Ver Viva”), Adélia Sampaio (“Amor Maldito”), Tata Amaral (“Um Céu de Estrelas”), Vera Figueiredo (“Feminino Plural”) e Joyce Prado (“Chico Rei Entre Nós”), estas duas in memoriam, Renata Pinheiro (“Amor, Plástico e Barulho”), Clarissa Campolina (“Girimunho”), Viviane Ferreira (“Um Dia com Jerusa”), Juliana Antunes (“Baronesa”) e Luna (“Cristais de Sangue”).

Antes da exibição de “Cristais de Sangue”, Juliana Gusman entregou placa de reconhecimento a Luna Alkalay, “por seu pioneirismo na produção cinematográfica feminina brasileira”, destacando-a “como integrante da geração que teve em Ana Carolina, Tizuka Yamasaki e Vera de Figueiredo nomes de grande importância”.

“Cristais de Sangue”

“Cristais de Sangue” e sua diretora passaram por uma espécie de “apagamento” ao longo de quase 50 anos. Com o restauro do filme, comandado pelo pesquisador Felipe Abramovictz, o primeiro longa-metragem da diretora nascida na Itália (filha de mãe austríaca e pai bósnio, ambos judeus), renasceu. Entusiasmada, ela até realizou um novo longa-metragem, “Trópico de Leão” (2025), com Helena Ignez, Nuno Leal Maia e Jairo Mattos.

A cineasta, que chegou criança ao Brasil, estudou Filosofia na USP, envolveu-se com o cinema num curta de Djalma Limongi, ajudou Aloysio Raulino (1947-2013) a produzir “Lacrimosa” e decidiu realizar, “com apenas 14 pessoas”, seu primeiro (e ambicioso) longa-metragem — “Cristais de Sangue”. Escolheu a Chapada Diamantina como cenário.

“Nenhuma companhia aérea” — contou ela no Cine Anexo do Museu da Inconfidência, em Ouro Preto — “quis nos transportar, pois nossa grana era muito curta”. A jovem cineasta recorreu, então, a uma companhia de transporte marítimo, que a socorreu. Depois de três dias de viagem, a trupe desembarcou em Salvador. E tomou o rumo da Chapada Diamantina.

A realizadora estreante levou para Mucugê e arredores os atores Ruy Pollanah, nascido em Moçambique; Fernando Peixoto, ex-integrante do Teatro Oficina, e Emmanuel Cavalcanti, o Dr. Baraúna de “O Amuleto de Ogum”. A esse trio, ela agregou a bela Salma Buzzar e dezenas moradores do município baiano.

Paira sobre o filme o espírito da Caravana Farkas, que tentava registrar a força (e resistência) da cultura popular em rincões perdidos do interior do Brasil. Aloysio Raulino, marido de Luna naqueles meados da década de 1970, assinaria a fotografia.

O que levou uma jovem cineasta, tão cosmopolita, em meados da década de 1970, a realizar seu primeiro longa-metragem em pequenos municípios da Chapada Diamantina?

Entre os motivos, que eram múltiplos, um chama atenção e serve de cenário aos momentos western de “Cristais de Sangue”: a beleza exótica de cemitério da região de Mucugê, com seus túmulos bizantinos, cravados aos pés da montanha.

A fotografia de Aloysio Raulino é o ponto forte do filme. Os túmulos parecem cenário de um épico indianose imponentes, impressionantes e desconhecidos dos brasileiros. Uma iconografia que Alkalay e Raulino imprimiram em película 35 milímetros.

A futura cineasta fora passar férias na Chapada Diamantina e, ao deparar-se com o inusitado Cemitério Bizantino de Santa Isabel, decidiu que ele faria parte do cenário de seu longa de estreia. Custasse o que custasse. O que foi feito. E emocionaria a população de Mucugê, em dia recente, quando ela promoveu sessão da cópia restaurada de “Cristais de Sangue” no município de pouco mais de 12 mil habitantes. Famoso, hoje, por sua dedicação ao turismo ecológico.

O espetacular conjunto de túmulos bizantinos foi tombado pelo IPHAN (Instituto do Patrimônio Artístico e Histórico). Por isso, esse cemitério, tão raro, escapou da incúria do tempo. Sua construção foi iniciada em 1854, pela Câmara Municipal, e concluída em 1886, quando uma epidemia assolou a vila. Graças ao cinema, pôde ser visto pelo público da CineOP. Muitos se perguntavam, surpresos: como apareceu, no Brasil, conjunto arquitetônico tão singular? Quem o construiu? Por que o desconhecemos por completo?

Em memória de Aloysio Raulino, companheiro e principal parceiro naquela aventura — agora redescoberta —, Luna Alkalay assegurou ao público que foi assistir ao filme, poucas horas depois da vitória da Seleção Brasileira sobre o Japão:

— “Aloysio é um dos maiores, para mim, o maior fotógrafo do cinema brasileiro. Ele foi fundamental na realização de ‘Cristais de Sangue’”.

A trama do filme pode parecer hermética demais para os espectadores de nossos dias, mas ninguém há de negar a beleza das imagens captadas por Aloysio Raulino. Desde o plano inicial, que mostra uma grande navio (o que transportou a trupe de Luna) até as sequências finais, aquelas que se sucedem a curioso (e nada realista) tiroteio durante o qual moradores de Mucugê enfrentam os personagens de Fernando Peixoto e Tuna Espinheira. Estes, os “vilões” da trama, representam as forças retrógradas, opressoras (e armadas), que enfrentam as forças populares, formadas por afro-brasileiros, incluindo o protagonista, Ruy, vindo da África.

Com muito bom humor, Luna gosta de lembrar que foi pioneira no uso do merchandising no cinema brasileiro. Afinal, ao mostrar o navio da companhia de navegação Rosa Fonseca, na abertura de sua narrativa, ela retribuiu a gentileza da empresa que cedera gratuitamente 14 passagens a seus atores e técnicos. E mostrava que seu protagonista, Ruy, filho de Sunzé, interpretado por Pollanah (conterrâneo e amigo de outro Ruy, o Guerra), vinha de longe para buscar o pai, garimpeiro sumido nas entranhas do que restara do ciclo dos diamantes. Eram, pois, findos os tempos de abundância.

GUARDIÕES DA MEMÓRIA

No campo dos resgates de “filmes esquecidos”, a CineOP mostrou um programa de cinco curtas-metragens dos mais interessantes. Uma hora depois do jogo Brasil x Japão, mais de 200 pessoas compareceram ao Cine Petrobras (de 520 lugares) para assistir a dois títulos do Acervo da Minas Filmes, a dois “musicais black” e ao primeiro filme de Guilherme de Almeida Prado, diretor consagrado de “Flor do Desejo”, “Dama do Cine Shanghai” e “Perfume de Gardênia”.

Tudo começou com Alexandre Pimenta, que apresentou “Belô Antiga”, coletânea de imagens da capital mineira, e “Paracatu”, com registros realizados, na década de 1950, no município do Alto Paranaíba. Pimenta lembrou que o público assistiria às imagens do velório e enterro do pintor Guignard (1896-1962). O artista foi velado em Belo Hotizonte e, depois, em Ouro Preto, cidade que amou e adotou como sua. Seu corpo recebeu as exéquias fúnebres na Igreja de São Francisco, obra-prima de Antônio Francisco Lisboa, o Aleijadinho. Tanto “Belô”, quanto “Paracatu” são obras de autoria desconhecida.

Já “Pérola Negra” (sobre Luiz Melodia) e “Ataulfo Alves”, sobre o criador de “Na Cadência do Samba”, têm autores reconhecidos. O primeiro, Reinaldo Cozer, o segundo, Afrânio Vital. Em sintéticos 11 minutos (cada um), assistimos a registros de parte da trajetória de dois artistas negros de imenso talento, o mineiro, de Miraí, Ataulfo Alves (1909-1969) e o carioca, do Estácio, Luiz Melodia. O Instituto Itaú Cultural ajudou no restauro dos dois documentários.

O primeiro curta de Guilherme de Almeida Prado, uma ficção realizada para mostras de Super-8 idealizadas por Abrão Berman, dura 15 minutos e ganhou nome instigante — “Exercício de Espera”. Fábio Vellozo, pesquisador do CTAv (Centro Técnico Audiovisual-MinC), apresentou o filme e falou da importância de seu resgate. Afinal — pontuou — assistiríamos a uma obra do início da trajetória de cineasta que viria a assinar muitos filmes, desde 1981, data de “A Tara de Todos Nós”, sua iniciação no longa-metragem 35 milímetros, realizada na Boca do Lixo paulistana, até “Odradek”, de 2025. E que continua, aos 71 anos, com muitos, novos e ousados projetos.

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