“Notas sobre um Desterro” propõe-se como “tema de reflexão sobre apartheid, colonização e genocídio”
Por Maria do Rosário Caetano
Depois de passar por 16 festivais internacionais e nacionais, o longa documental “Notas sobre um Desterro”, filmado na Palestina por Gustavo Castro, prepara-se para novas exibições em múltiplas telas.
Em breve, o filme participará (em competição ou hors concours) do Festival de Cinema Libanês na América Latina (México), do What The Doc! Festival Internacional de Cinema Documentário (Tailândia), do Cinemaissí Finlândia (Festival de Cinema Latino-Americano de Helsinque) e do Festival Internacional de Cinema por Direitos Humanos, na Colômbia.
No Brasil, o documentário participará da competição de longas-metragens do Festival de Cinema de Santos (18 a 26 de agosto), no litoral paulista, e do Filmambiente (Festival Internacional de Cinema Ambiental e Direitos Humanos), no Rio e em Niterói (23 de setembro a 3 de outubro).
Entre o Olhar de Cinema – Festival Internacional de Curitiba, de 2025, onde fez sua estreia, e o Festival Goitacá, recém-finalizado no município fluminense de Campos, “Notas sobre um Desterro” encontrou vitrines em Portugal (no DOC.Coimbra); em Houston, nos EUA; no Karama Human Rights, na Jordânia; no Sanfici (Santander International Festival), na Colômbia; no Iran International Documentary, na nação persa, que lhe rendeu Prêmio Especial do Júri; no Festival Internacional del Nuevo Cine Latinoamericano de La Habana, em Cuba; e no DocsMX (Festival Internacional de Cine Documental, no México.
Em solo brasileiro, o filme foi exibido na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, na Mostra CineOP-MG, no Festival de Brasília do Cinema Brasileiro, na Mostra Joinville (Santa Catarina), no Santa Maria Vídeo e Cinema, no Rio Grande do Sul, e no Festival Internacional de Cinema Ambiental de Garopaba.
O interesse de tantos festivais por “Notas sobre um Desterro” se deve, num primeiro momento, ao tema escolhido por Gustavo Castro – a tragédia que se abate sobre o povo palestino. Mas, visto o filme, os curadores se apegam, também, às qualidades da narração construída pelo documentarista e sua pequena, mas abnegada, equipe.
Durante 80 minutos, Gustavo Castro, paranaense de 42 anos, registra encontro com uma família palestino-brasileira radicada na Cisjordânia, ocorrido em 2018. O documentarista regressaria ao local depois do sete de outubro de 2023, quando o Hamas liderou ataque-surpresa aos ocupantes israelenses da Faixa de Gaza. O ataque resultou em centenas de mortos e na captura de 250 reféns. O Exército de Israel retaliou e a guerra, que durou mais de dois anos, matou 73 mil palestinos (incluindo mulheres e crianças).
“O filme que fora concebido como uma narrativa sobre as possibilidades de coexistência em uma terra ocupada” – relembra Gustavo Castro – “transformou-se em motivo de reflexão sobre colonização, apartheid e genocídio”. Afinal, a situação tornou-se muito grave na pequena nação do Oriente Médio, povoada por menos de 6 milhões de habitantes.
A equipe de “Notas sobre um Desterro” deparou-se com atordoante “proliferação de imagens de guerra, produzidas pelas vítimas de genocídio que vem se processando no curso do tempo”. E o próprio uso da imagem em tempos de redes sociais onipresentes encontrou espaço na narrativa.
O filme aborda, ainda, o tema das religiões, tão caro ao nosso tempo. E tão decisivo na região conflagrada.

A Revista de CINEMA assistiu ao documentário e conversou com Gustavo Castro, que além de cineasta, exerce os ofícios de diretor de fotografia, roteirista e montador. Ele já participou de 30 documentários (de curta e média duração) e diversas webséries. Sempre preocupado com “temas sociais ambientados na Amazônia, América do Sul e Oriente Médio”. Entre seus trabalhos destacam-se “A Fortaleza” (2022), “Negritude Branquitude” (2028) e “Cidade ao Redor: Retratos da Luta por Moradia em Curitiba”.
Revista de CINEMA – Como você conseguiu, e qual foi sua motivação, unir religião e política de forma tão serena e instigante?
Gustavo – Nosso projeto nasceu do desejo de compreender, conversando com pessoas das mais diversas religiões, como elas conviviam – na Palestina ocupada, especificamente na Cisjordânia – umas com as outras, no decorrer do tempo. Inclusive, trabalhamos as primeiras versões do filme com o nome de “Coexistências”, já que o objetivo era desfazer o mito de que o “conflito” na região tem origem religiosa. Nessas versões, já abordávamos o surgimento do sionismo, a Nakba e trazíamos outras histórias de cristãos, muçulmanos e israelitas, mas não falávamos sobre Gaza. Depois de 7 de outubro de 2023, percebemos que não era possível fazer um filme sobre a Palestina sem falar de forma contundente sobre o genocídio em curso. A questão religiosa está muito presente na fundação do Estado de Israel e é uma das justificativas para as atrocidades cometidas. Partindo da tese de que o Estado israelense escamoteia objetivos políticos e territoriais com a religião e os crimes cometidos contra judeus no holocausto, o filme busca questionar a política de ocupação israelense e revelar alguns dos mecanismos de apartheid, colonização e desumanização do povo palestino.
Revista de CINEMA – Você é uma pessoa religiosa?
Gustavo – Sim. Sou daimista há 21 anos. O Santo Daime, que é uma religião brasileira cristã com influências de religiões de matriz africana e a cosmovisão de povos indígenas amazônicos, sem dúvida foi o que me impulsionou a conhecer a Terra Santa. Inclusive, cheguei até lá com um grupo de turistas cristãos para produzir um vídeo encomendado por uma agência de viagens. Aproveitei para estender a minha própria permanência. E para realizar o documentário. Na época, 2018, fui junto com o fotógrafo Rafael Oliveira, que também é daimista e que já havia estado na Palestina em 2013. Outras pessoas da equipe também são daimistas, incluindo a produtora e roteirista Juliana Sanson e o roteirista e montador Ticiano Monteiro.
Revista de CINEMA – Como o filme vem sendo recebido nos festivais? Pergunto, porque obras de temáticas políticas já não mobilizam tanto quanto mobilizavam em décadas passadas.
Gustavo – Com imenso interesse. Tanto no exterior, quanto no Brasil. Já fomos selecionados para dezenas de festivais. Já estivemos em muitos deles e fomos selecionados para diversos outros. O público tem muito interesse pela Palestina, pelo que está acontecendo lá. Já ganhamos alguns prêmios internacionais. E, no Brasil, acabamos de ganhar nosso primeiro reconhecimento no Festival Internacional Goitacá de Cinema. Este primeiro prêmio em nosso próprio país nos deixou especialmente felizes. Muitos espectadores nos procuram para conversar depois dos debates. Querem saber mais. Agora estamos nos preparando para participar do Festival de Santos.
Revista de CINEMA – “Notas sobre um Desterro” já tem lançamento garantido no circuito exibidor? Ou o tema (a Palestina conflagrada) impõe dificuldades?
Gustavo – Estamos conversando com distribuidores e exibidores, pois queremos lançar o filme, se possível, ainda esse ano. Ou no primeiro semestre de 2027. Nossa participação em festivais internacionais e nacionais nos mostrou que há grande interesse pela causa palestina.
