“Leite em Pó” e “Empeleitada” Xukuru se somam aos curtas “Um Passeio”, “Fúrias” e “Doce de Leite” nas principais competições do Festival de Gramado

Foto: Equipe de “Leite em Pó”, de Carlos Segundo © Cleiton Thiele/Ag.Pressphoto

Por Maria do Rosário Caetano, de Gramado (RS)

A quinta noite da 54ª edição do Festival de Gramado foi dedicada ao cinema autoral, de risco.

É por essa trilha que caminha a ficção potiguar-paulistano-francesa “Leite em Pó”, segundo longa-metragem de Carlos Segundo. Poucos conhecem “Fendas”, o longa de estreia desse realizador-cidadão do mundo e de muitos Brasis. Mas são muitos os que conhecem “Sideral” e “Big Bang”, dois de seus principais curtas exibidos em centenas de festivais nacionais e internacionais.

A quinta noite gramadense foi longa e encerrou-se com a exibição de outro filme autoral, o documentário “Empeleitada” (assim o povo Xukuru, do município pernambucano de Pesqueira pronuncia a palavra “empreitada”). Para nós, assumir uma empreitada é assinar “contrato de realização de obra ou serviço para um terceiro, sob valor previamente acertado. O profissional (ou empreiteiro) cuidará de tudo sem estar sob as ordens de um chefe ou patrão.

“Para os Xukuru” — lembrou Sérgio Borges, que divide a direção do documentário com Micaele Xukuru e Chico Laudemir —, “a ‘empeleitada’ é, muito mais que um contrato”. É “um projeto coletivo e espiritual”. Ao construir uma casa de taipa em seu território, a comunidade indígena trabalhará elementos da natureza (o barro, troncos de árvores, cipós, pedras) para mostrar, coletivamente, sua luta pela terra, pelo chão originário. E o fará entoando múltiplos cantos e com a ajuda dos ‘encantados’, seres essenciais em suas vidas espirituais.

Além dos dois longas-metragens, a noite contou com os curtas “Um Passeio”, dos paulistanos Thalles Cabral e Fernanda Rocha, “Fúrias”, da gaúcha Nica Maleoa, e “Pão Doce”, de Wesley Gabriel, o WG, integrante do Coletivo Kinoférico-Olhares do Território, de Guarulhos, a segunda maior das cidades paulistas (1,3 milhão de habitantes).

Tudo começou, numa terça-feira de temperaturas altas, com o ator Caco Ciocler colocando suas mãos e assinatura na Calçada da Fama de Gramado. Ele, que integra o júri de longas documentais, cumpriu o ritual passando pelo imenso tapete vermelho e provocando: “por que não chamarmos de Calçada do Trabalho, ao invés de Calçada da Fama?”.

Afinal, atrizes e atores trabalham muito, decoram textos, ensaiam exaustivamente, sobem nos palcos teatrais, atuam em sets de cinema ou estúdios de TV. A ideia ecoou nos telões que registram o que acontece no Tapete Vermelho e dentro do Palácio dos Festivais. Neste cenário, a produtora e presidenta da Academia Brasileira de Cinema, Renata Almeida Magalhães, recebeu o Troféu Eduardo Abelin, tributo a um pioneiro do cinema gaúcho. Ele foi figura atuante nos tempos do cinema silencioso.

No telão do Palácio dos Festivais, foram projetadas imagens de Laura Cardoso (1927-2026) e de Glória Menezes (1934-2026), atrizes de dezenas de filmes e telenovelas, que partiram, legando ao país rico acervo audiovisual.

Laura atuou em filmes como “Terra Estrangeira”, de Walter Salles, “Através da Janela”, de Tata Amaral, e “Copacabana”, de Carla Camurati. Glória Menezes foi Rosa, a mulher de Zé do Burro (Leonardo Villar), em “O Pagador de Promessa” (Anselmo Duarte, 1962), único título brasileiro laureado com a Palma de Ouro (melhor filme) em Cannes.

Vinícius de Oliveira em cena de “Leite em Pó”

A equipe de “Leite em Pó” subiu ao palco do Palácio dos Festivais carregando a bandeira do Rio Grande do Norte, complementada com cartaz em defesa do cinema potiguar. O diretor Carlos Segundo, nascido em São Paulo há 46 anos, é professor de Cinema da Universidade Federal do Rio Grande do Norte. Lá realizou o curta “Sideral”. Depois, ligou-se à mineira Uberlândia, onde realizou “Big Bang”. Sempre em parceria com os franceses da produtora Les Valseurs.

Para sua estreia na ficção de longa duração, Carlos Segundo escreveu (com Rafael Copel) um roteiro nada convencional. No debate do filme, ele mesmo afirmou que “Leite em Pó”, com seus personagens à deriva, distancia dos filmes de construção clássica e compõe-se como “uma colagem”. Em certa medida, como um quebra-cabeças.

No palco do Palácio dos Festivais, Carlos Segundo apresentou sua equipe e evocou a presença da atriz potiguar Titina Medeiros, que morreu em janeiro último, aos 48 anos, vítima de câncer. Sem ter assistido a “Leite em Pó”, no qual interpreta uma fotógrafa, que produz e comercializa álbuns de formatura.

Ao apresentar a atriz paraibana Zezita Mattos, que dá vida à avó do protagonista Vicente, ou Rick Willians (Vinícius de Oliveira), Carlos Segundo lembrou — além da emoção de dirigir Titina — o orgulho de ter trabalhado com a paraibana e com o baiano Antônio Pitanga. Afinal, os veteranos Zezita e Pitanga estiveram, juntos, “60 anos atrás, no elenco de ‘Menino de Engenho’, de Walter Lima Jr. (1965)”.

Os dois atores se reencontram em Natal, capital do Rio Grande do Norte, cenário de “Leite em Pó”. Subiram ao palco com Carlos Segundo — além de Zezita e Vinícius de Oliveira — a atriz mineira Rejane Faria e diversos representantes das equipes artística, técnica e de produção do longa potiguar. Antes de deixar o palco, com lágrimas nos olhos, o diretor dedicou a sessão a Titina Medeiros e a João Naves, colega recém-falecido, de apenas 42 anos.

O que o público viu na tela do Palácio dos Festivais foi uma história lacunar, elíptica e misteriosa. Tudo começa com letreiro que evoca a Base Militar de Paranamirim Field (implantada pelos EUA, em Natal, em 1942, como ponto de apoio na luta contra o nazifascismo). Um rapaz, Vicente, vive com sua avó (Zezita Mattos), num casarão antigo. Ela é viúva de um dos militares norte-americanos que atuaram em Natal e Paranamirim.

Um dia, ainda no início do filme, a viúva recorrerá a ato extremo, o suicídio. O neto, um roqueiro frustrado, que vive de sonhos e bicos, resolve esconder a morte de sua avó. Afinal, necessita do dinheiro da aposentadoria dela. Omar (Antônio Pitanga), amigo da reduzida família, diz que o rapaz deverá usar formal e sal grosso para preservar o corpo. Mas pede que a inusitada decisão seja passageira. A fotografia, em tons escuros, acentua a morbidez da decisão do neto.

Vinícius de Oliveira, o menino Josué de “Central do Brasil”, interpreta Vicente de forma contida. Insiste em firmar-se como roqueiro, mas não alcançará seu intento. Acabará tornando-se vendedor de álbuns de fotografia. Indo de casa em casa, ele irá se relacionar com as personagens fotografadas (ou com seus familiares). Uma delas é interpretada por Priscilla Vilela, a protagonista de “Sideral”. Formada em Assistência Social, ela sobrevive como cabeleireira. O marido, com quem mantém relação tóxica, não estimulará a compra das fotos.

Na casa da arquiteta Yara (Rejane Faria), Vicente encontrará interesse e acolhimento. Ela comprará, a bom preço, o álbum que registra imagens da filha, já morta. E pedirá ao vendedor que volte ao belo apartamento, em novas visitas, para entrega parcelada das outras fotos. Prefere não receber todas de uma só vez. Assim, o reencontro com as imagens da filha se renovará.

Um fio de amarração enlaçará a trama: os diários deixados pela avó de Vicente. Lidos em off por Zezita Mattos, eles revelarão que ela não fôra feliz ao lado do marido, o militar norte-americano. Mesmo que tenha preservado a farda dele pendurada no guarda-roupa.

Como “Leite em Pó” (o nome deve-se ao fato de Vicente não gostar de leite natural) propõe-se como “uma colagem de histórias”, o espectador tem liberdade para interpretá-las como quiser.

O próprio Carlos Segundo deu pista de uma leitura possível, mas não impositiva: “nosso filme pode ser visto como uma representação sócio-política do Brasil”, pois “essa mulher, a avó, uma metáfora de nosso país, foi aprisionada por esse homem, um militar norte-americano, que se relacionou de forma autoritária com ela”. Mais tarde, Vicente, que chegara a vestir o paletó militar do avô, irá incendiá-lo.

O tempo histórico do filme traz referências dos anos 1980, como o sambão-joia de Agepê e o rock dos Titãs. Carlos Segundo lembrou que “Leite em Pó” é uma produção de baixo orçamento, rodada em 26 locações, em apenas 25 dias. Por isso, não havia grana para adquirir fonogramas caros como os dos Titãs. O jeito foi colocar um hit deles na voz (sofrível) de Vicente.

Vinícius de Oliveira contou, bem-humorado, que, ao ser convidado para o papel, avisou: “sou um desafinado, um péssimo cantor, um desastre”. O cineasta disse que não havia “nenhum problema, pois o roqueiro tinha mesmo talento limitado e cantaria pouco no filme”. Mas ele “me fez cantar, com minha péssima voz, várias músicas”.

Carlos Segundo destacou a grande ênfase que o filme dá ao pó. Desde os créditos, quando o leite em pó se espalha em finíssimas partículas pela tela. E o que será percebido em múltiplas situações: nas partículas de sal, na cocaína, na areia das dunas, nas cinzas (após a cremação) da avó de Vicente etc.

“Leite em Pó”, com seus 96 minutos e título curto, de fácil memorização, chegará aos cinemas em 2027, com lançamento da Vitrine Filmes. Nesse segundo semestre, percorrerá o circuito de festivais.

Diretores Sérgio Borges, Micaele Xukuru e Chico Ludermir, de “Empeleitada” © Ticiane da Silva/Ag.Pressphoto

“Empeleitada” é ainda mais sintético (tanto no título quanto na duração — apenas 63 minutos) que “Leite em Pó”. Sua trinca de diretores realizou um documentário que lembra os trabalhos do Coletivo Vídeo nas Aldeias, de Vincent Carelli e Ernesto de Carvalho. Aliás, Ernesto assina a direção de fotografia, em parceria com Breno Cesar e Diego Xukuru.

No começo do filme, veremos integrantes do povo Xukuru preparando terreno para construção de casa de taipa. E entoando cantos sagrados ou de trabalho. Buscando, coletivamente, troncos e outros materiais necessários para que possam erguer as estruturas e, no final do processo, chegar ao reboco e ao telhado. Um líder, já bem idoso, conversará com parente mais jovem. Avisará que come devagar, pois não dispõe mais de dentes.

Mais tarde, conheceremos o passado de luta do velho indígena. Ele liderou sua gente, dispersa e sem terra, para, unida, lutar por seu território. Marcou incansável presença na Funai. Até conseguir reaver parte (mesmo que ínfima) das terras que lhes pertenciam.

O discurso sereno e claro da velha liderança não traz nenhum ranço retórico. É claro, cristalino, simples. Ele relembra os tempos em que os Xukuru não podiam plantar um roçado. Se o fizessem, boa parte dos grãos ficaria com o dono da terra.

No meio do filme, a história de outro líder Xukuru, o Cacique Xikão (Francisco de Assis Araújo, 1950-1998) será lembrada. Ele foi assassinado aos 47 anos, por lutar pelo direito à terra para seu povo. Poderosas imagens da TV Alemã imortalizaram sua luta. Revê-las é emocionante e dá ao filme um novo tônus.

Na segunda parte de “Empeleitada”, veremos a casa de taipa ganhar materialidade. Veremos, também, crianças vestidas com o uniforme escolar, ajudando os parentes a socar o barro. E a cantar com os adultos irreverentes canções de trabalho. Uma delas conta que a força de trabalho dos indígenas era, antes, utilizada para ajudar os proprietários da terra a comprar Chevrolet.

Se o cineasta Humberto Mauro fosse vivo, decerto se encantaria com as cantorias dos Xukuru de Ororubá. E com o filme que nasceu da união de seu conterrâneo, o mineiro Sérgio Borges (“O Céu sobre os Ombros” e “Suçuarana”) à jovem Michele Xukuru e sua produtora Ororubá Filmes, e Chico Laudemir do Coletivo Coquevídeo. Detalhe importante: o município de Pesqueira, situado a 215 Km do Recife, soma 68 mil habitantes, sendo que 22% deles são indígenas.

Os curtas da noite agradaram ao público, embora nenhum deles fosse arrebatador. “Um Passeio”, dirigido pelos atores Thalles Cabral (“Yonlu”) e Fernanda Rocha, tem em sua protagonista a atriz (e ex-apresentadora da MTV) Chris Couto, a sua força propulsora. Aos 66 anos, ela interpreta Célia, uma mulher já septuagenária, que se prepara, com batom discreto, para um passeio com jovem acompanhante. Um batom vermelho vai realçar, colorir, o encontro.

Duas atrizes (Áurea Batista e Denizeli Cardoso) protagonizam a ficção científica “Fúrias”. Ciclistas lésbicas, elas vivem inconformadas com o domínio que Fratel, uma megacorporação, exerce sobre os moradores de uma grande cidade. Rebeldes, elas decidem, com sua criatividade, driblar o sistema e sabotar a vigilância de invasivos e monstruosos drones.

“Pão Doce”, protagonizado por Francisco Gaspar, é uma ficção sobre o mundo proletário. O mundo daqueles que trabalham sem descanso para levar o sustento a seus lares.

Fernando (Gaspar) comanda a área de produção de uma padaria, cujo proprietário (Vinícius de Oliveira) se faz passar por gente boa. Desde que os trabalhadores não interrompam a linha de produção nem no dia em que um deles, justo Fernando, prometeu comemorar o aniversário da filha de sete anos.

WG, que assina a direção, o roteiro e a fotografia, escalou ótimo time de atores e soube sintetizar sua movimentada trama em 18 minutos. Sua opção pelo mundo do trabalho daqueles que estão posicionados na base da pirâmide pode render ainda muitos e bons frutos. Em sua estreia, eles mostra ter o que dizer. E o faz com sensibilidade e segurança.

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