Como não entender um bom livro
Por Caio Tseng
Existem diversos efeitos que uma última página pode gerar num leitor. Atira-se o livro contra a parede mais próxima. Ou se chora. Ou se fica boquiaberto. Na maior parte das boas leituras, se abre um sorriso. E ainda, dentre estas e outras reações, existe a cara de interrogação. Esta pode denunciar uma narrativa mal montada, falta de planejamento, um texto ruim. Mas, se acompanhada de um estranhamento — algo próximo do horror —, pode ser sinal de algo primoroso.
Existe certo equilíbrio a ser mirado quando se escreve, no que se refere a quanto de sentido se entrega ao leitor. O quanto se dá, e o quanto se guarda para que ele tenha o trabalho de costurar sozinho. “Detetives Selvagens”, por exemplo, é montado em torno de fragmentos das narrativas daqueles que conviveram ou apenas ouviram falar de Ulisses e Belano, e ao leitor resta acompanhar suas pegadas, como um bom investigador. E, embora possa soar preguiçoso da parte do autor, é ainda mais trabalhoso criar lacunas.
Também há certo equilíbrio em relação ao quanto os acontecimentos que se sucedem são previsíveis — o revólver mostrado será disparado eventualmente —, ou imprevisíveis, como em algumas narrativas que ousam brincar com o que se espera de uma história.
É o caso de “Audição”, o mais novo romance da americana Katie Kitamura, que fez certo barulho quando chegou este ano pela Fósforo. A cena de onde somos apresentados os personagens cativa com muita facilidade:
Estamos num café, em Manhattan, onde uma atriz de meia idade se senta em frente a um jovem, que, nas primeiríssima páginas do livro, diz acreditar ser seu filho. Como nunca gestou uma criança, ela tem certeza de que ele se engana, mas curiosamente o rapaz apresenta trejeitos quase idênticos ao dela. É dessa situação bizarra que se desenrola o romance.
Até a primeira metade do livro acompanhamos a história sem problemas, e tudo — na medida do possível — faz sentido, e o que não faz sentido é porque ainda não o fez, e promete fazer. A segunda parte, no entanto, nos leva a abandonar qualquer esperança de enganchamento, de coerência: de uma hora para a outra, como se desconsiderando tudo o que tivéssemos lido até então, a atriz passa a se referir ao rapaz como se ele sempre tivesse sido seu filho. Dali a narrativa discorre sem freios, levando o leitor a se perguntar o que é real, e o que é atuação.
De cara, a leitura me remeteu fortemente aos trabalhos de David Lynch, e, com uma rápida pesquisa no Google, descobri que não por acaso o cineasta é citado pela autora como uma de suas maiores influências. Me vi traçando paralelos sólidos entre “Audição” e “Mulholland Drive”, e para minha surpresa, as duas narrativas não só se parecem pela atmosfera onírica, os diálogos esquisitos, e o estranhamento como principal efeito, mas também compartilham estruturas bem parecidas. Ambas são divididas em duas partes claramente definidas: a primeira que apresenta o mistério e engancha o espectador, e a segunda, que quebra completamente a expectativa.

Em “Mulholland Drive”, após sofrer um acidente, uma mulher perde a memória e topa com uma atriz, que decide ajudá-la a recobrar o que aconteceu. Aqui, assim como Katie, Lynch nos introduz com uma primeira lacuna, um ponto cego que compartilhamos com a protagonista. Sem contexto, com tão poucas informações quanto as personagens, o mistério engancha o espectador, silenciosamente prometendo uma resposta.
No fim, nada disso é dado. Pelo contrário, os papeis se invertem, e tudo o que se assistiu vai tomando outra cor, nos deixando com uma espécie de abalo na confiança, como se pensássemos: “quer dizer que tudo o que me disseram até agora era mentira?”. Isso porque ambos trabalhos se baseiam fortemente na ideia de atuação — os dois finais desaguam numa troca feroz de papeis, nos abrindo a entender a narrativa de diversos pontos de vista, de acordo com o que escolhemos acreditar.
Ainda sim, a experiência de insistir em algo sem compreendê-lo é um tanto fantástica. Frente a confusão, não desligar a TV ou fechar o livro, mas, boquiaberto, precisar urgentemente chegar à última cena, como se lhe custasse a vida.
Com uma boa cara de interrogação, a primeira coisa a se fazer — somos tentados, é claro — é pesquisar na internet, ou procurar conversar. Será que alguém consegue me explicar o que acabei de assistir? Qual é a verdade? Aquilo que me disseram primeiro, ou o que me contaram no fim? De fato, existe uma thread no Reddit sobre “Audição” que reúne dezenas de teorias muito interessantes sobre o livro, e mais de milhares de especulações em cima de “Mulholland Drive” na internet.
Nos poucos momentos antes de buscar tais respostas, no entanto, há um bom lugar para se habitar, se nos permitirmos, pelo menos por um tempinho. Permanecer na confusão. Sentir que estar confuso é o jeito que se gostaria de estar. Não desejar que te expliquem. Talvez algo bom a se desejar ao leitor — que o deixem em paz, com o exercício de compreender.
Caio Tseng é escritor e psicólogo, formado pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. É autor de “Lá, Onde os Tigres Amam”, livro de contos publicado pela Editora Patuá em 2024.
