Mostra SP seleciona 32 filmes da América Latina e destaca “Retorno a Buenos Aires”, “Homem ao Mar”, “Borges”, “Lorca” e “Narciso”
Foto: “Homem ao Mar”, de Gael García Bernal
Por Maria do Rosário Caetano
Trinta e dois filmes oriundos da América Latina, em especial do México e Argentina – incluindo coproduções com o Brasil e países europeus –, serão apresentados na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. A maratona ocupará 57 salas espalhadas pelo entorno da Avenida Paulista, centro e periferia paulistanos, dessa quinta-feira, 15, até o dia 28 de outubro. Depois tem repescagem.
Alguns títulos chamam atenção por terem participado de importantes festivais (caso de “Retorno a Buenos Aires”, do ítalo-chileno-argentino Marco Bechis) e “Homem ao Mar”, de Gael García Bernal. Nesta produção, vinda do México, há ingredientes que constituem atrativo especial para a plateia brasileira. A começar pela presença da atriz Débora Nascimento, que atua numa telenovela, parte importante da trama, e por referência ao presidente Lula. Para completar, em sua trilha sonora, “Hombre al Agua” traz dois sucessos musicais de nossa MPB, “Canto de Ossanha”, de Baden e Vinícius, e “Flores Astrais”, na voz de Ney Matogrosso.
Gael García Bernal, de 47 anos, além de dirigir, interpreta o protagonista deste que é seu terceiro longa-metragem. Como realizador, claro, pois como ator, ele esteve em mais de trinta filmes, alguns de grande sucesso – “Amores Perros” (Iñarritu), “Diário de Motocicleta” (WSJr), “Y Tu Mamán También” (Cuáron), “Crime do Padre Amaro” (Carrera), “Museu” (Ruizpalácios), “No” e “Neruda” (Larraín).
“Homem ao Mar” conta a história de Camilo (Bernal), um salva-vidas cubano que passa a viver período de venturas, depois de salvar empresário mexicano de afogamento. Ganha, como recompensa, um emprego e, até, o direito de desposar a filha do milionário. Mas acabará percebendo que sua vida naquele ambiente de luxo e riqueza está mais para farsa que história redentora.
Sobre “Retorno a Buenos Aires”, selecionado para disputar o Leão de Ouro em Veneza, há uma peculiaridade. Embora narre história que tem tudo a ver com a Argentina, o filme resultou de coprodução ítalo-brasileira. O diretor Marco Bechis, de “Garage Olimpo” e “Terra Vermelha”, associou-se aos brasileiros Cibele Amaral, Patrich De Jongh (34 Filmes) e André Ristum para transformar seu roteiro em realidade. Parte de suas locações, referentes ao território argentino, foram rodadas em Porto Alegre, no Rio Grande do Sul.
O filme conta a história de Mariano Guerra (Adriano Giannini), que, depois de passar 33 anos na Itália, regressa à Argentina como testemunha de julgamento de ex-militares que o sequestraram e torturaram no período ditatorial, iniciado em 1976. Sob a proteção do Ministério da Justiça, Mariano será hospedado em local onde encontrará pessoas do tempo do cativeiro e ouvirá relatos de histórias que permaneceram irresolutas por décadas. A atriz brasileira (de origem uruguaia) Paula Cohen interpreta uma juíza. A Mostra SP entregará a Marco Bechis, de 71 anos, dedicado a um cinema de empenho político-social, o Troféu Humanidade.

Outro filme exibido em festival de primeira linha, o de Berlim, é o paraguaio “Quem Matou Narciso?”, de Marcelo Martinessi. O longa anterior do cineasta – o imperdível “As Herdeiras” – conquistou um Urso de Prata na Berlinale para sua protagonista Ana Brun. Dessa vez, ao contrário do filme que o projetou, dominado por mulheres, a trama concentra-se em personagens masculinos. Homoafetivos nos dois casos.
O mexicano “Seis Meses no Prédio Rosa e Azul”, de Bruno Santamaria Razo, fruto de parceria com Brasil e Dinamarca, acaba de ser premiado no Festival do Rio. Foi o eleito do júri popular como o melhor entre os longas-metragens da Première Latina. Por isso, fez jus ao Prêmio Aquisição do canal Telecine, que o exibirá futuramente.
A trama se situa na capital mexicana, no início dos anos 1990. Bruno, no dia em que completa 11 anos, percebe seu interesse pelo melhor amigo, Vladimir. Nesse mesmo dia, o garoto descobre que seu pai foi diagnosticado como portador do vírus HIV. Trinta anos depois, Bruno usa o cinema para reimaginar suas memórias de pré-adolescente.
O México e a Argentina lideram a representação latino-americana da Mostra SP. Os dois países contam, respectivamente, com nove e oito filmes (cada) e uma parceria — “Oca”, de Karla Badillo. Além de Gael García Bernal, há pelo menos outro nome bem conhecido entre os cinéfilos que acompanham a produção da América Hispânica – Rodrigo Plá, de 58 anos, diretor de “Recém-Chegados”.
Plá é habitué da Mostra e causou ótima impressão com “Zona do Crime” (2007), que Veneza destacou como a melhor ópera prima (filme de diretor estreante), vinte anos atrás. Seguiram-se outros títulos, como “Desierto Adentro”, “Revolución”, “A Demora”, “O Monstro de Mil Cabeças” e “Outro Tom”. Agora, o mexicano (nascido no Uruguai) participa da Mostrinha com “Los Nuevos” (título original), unindo três crianças e um cachorrinho, o Nube. Juntos, eles empreendem aventura recheada de perigos, pois desejam descobrir quem está causando o envenenamento dos rios. Na origem do filme está o romance “Llegarón com el Viento”, de Laura Santullo.
A representação argentina conta com ao menos dois nomes de destaque – Mariano Linás, com “Biografia de Jorge Luis Borges”, e Benjamín Naishtat, com “Glaxo”.
Linás, de 51 anos, criou o grupo El Pampero Cine com um time de colegas, entre eles Laura Citarella (do imenso, em todos os sentidos, “Trenque Lauquen”, eleito pela Cahiers du Cinéma, como o melhor longa de 2023). Depois de escrever e dirigir uma dezena de filmes, o cineasta entregou-se à biografia de Jorge Luis Borges (1899-1986) num projeto de grande ousadia e duração: 323 minutos (portanto, quase seis horas).
O filme borgeano foi exibido no Festival de Veneza. Para sua sessão paulistana, que equivalerá a três longas-metragens, a Mostra SP programou intervalo entre a segunda e terceira partes. De forma que os cinéfilos possam fruir, a contento, essa monumental cinebiografia, empenhada em mostrar a grandeza do mais famoso dos ficcionistas argentinos. Registre-se que Mariano Linás é co-roteirista de dois importantes filmes de seu conterrâneo Santiago Mitre – “A Cordilheira (2017) e “Argentina, 1985” (2023), ambos protagonizados por Ricardo Darín, sendo o último finalista ao Oscar internacional.
Benjamín Naishtat, de 40 anos, filmou parte de “Glaxo” em cidades gaúchas (Jaguarão e Pelotas, nesta última contou com participação de estudantes da UFPel – Universidade Federal de Pelotas) como figurantes. O longa é uma coprodução do brasileiro Rodrigo Teixeira (RT Features) com a Rei Pictures portenha.
Diretor de pelo menos dois filmes notáveis – “Vermelho Sol” (2018), e “Puan” (2023, parceria com Maria Alché) – Naishtat propõe-se a contar história em dois tempos. Tudo começa na década de 1950, na pacata Chivilcoy. A amizade de quatro jovens sofre profundas modificações, quando um sinistro ex-policial chega à cidade, em companhia de sua sedutora esposa. Décadas depois, o passado ressurge. Num país que “já não é o mesmo, pois perdeu sua inocência”, os amigos de outrora vão confrontar-se com antigas feridas, culpa e possibilidade de vingança. Baseado em romance de Hernán Ronsino.
A presença chilena também é significativa. Vale conferir o ótimo “La Perra”, de Dominga Sotomayor, também produzido por Rodrigo Teixeira, e “Cocaína Negra”, documentário de Cristóbal Valenzuela Barríos. Este longa documental parte de áudios secretos, gravados pelo bioquímico Eugénio Berríos, que aproxima temas explosivos (venenos letais, ditaduras e o comércio global da cocaína). Detalhe importante: a cocaína negra é dez vezes mais cara que a cocaína comum, por oferecer imensas dificuldades de ser identificada e apreendida. Ela muda de coloração ao receber adição de carvão ativado, enganando, até cães farejadores.

O público da Mostra SP não verá o filme latino da hora – “La Bola Negra”, de Los Javis, pois ele foi exibido no Festival do Rio. Mas, em compensação, poderá assistir ao documentário “Lorca: A Voz Partida” (“Lorca, La Voz Quebrada”), de Manuel Menchón, fruto de parceria entre Espanha e Argentina. “Lorca” dura sintéticos 90 minutos, portanto, bem menos que a Biografia de Borges.
Menchón, de 49 anos, espanhol como o poeta andaluz, somou forças com a Argentina para evocar o último ano de Federico García Lorca, nascido em 1898 e assassinado em 1936, por forças franquistas. Tinha apenas 38 anos. O filme – com documentos inéditos (cartas e poemas, em especial) – reviverá o derradeiro amor do artista, o jovem Juan Ramirez de Lucas.
Lorca é uma das forças constituintes do arrasa-quarteirão do Javis. Deixou inacabada a peça “La Bola Negra”, símbolo de exclusão. A mesma bola preta atribuída (ainda hoje??) por clubes de elite aos “indejados”. Aqueles que sonham frequentar a high society.
“La Bola Negra” vem causando furor junto ao público espanhol. Gregório Belinchon, uma dos mais importantes jornalistas culturais do madrilenho El País, descreveu o que se passa com o filme de essência lorquiana. Seu texto intutula-se “A Descomunal Bilheteria de ‘La Bola Negra’” e detalha: “Se o primeiro final de semana nas salas espanholas foi estupendo em arrecadação, o segundo foi impressionante. Ao contrário do que é habitual, ele arrecadou 24% a mais em seu segundo fim de semana. Quase 6 milhões de euros”. Resultando “num acumulado de 18,5 milhões de euros”.
Segundo o ICCA (a Ancine espanhola), o blockbuster “Torrente para Presidente” (comédia dirigida e protagonizada por Santiago Segura) arrecadou 27,6 milhões de euros com a venda de 3.750.000 ingressos. Por isso — prossegue Belinchon —, já se supõe que “será possível que ‘La Bola Negra’ ultrapasse ‘Torrente para Presidente’”. Para concluir: “O melhor, porém, é que, neste 2026, o cinema espanhol superará 100 milhões de euros em suas bilheterias, ajudado por outros títulos como ‘El Ser Querido’ (de Rodrigo Sorogoyen, com Javier Bardem), que superou os 4 milhões de euros”. O diretor do magnífico “As Bestas” terá seu “Ser Querido” exibido pela Mostra SP.
Como se vê, o cinema que fala espanhol também consegue, mesmo que com títulos isolados, dialogar com o grande público.
E, por fim, há que se registrar que a Mostra SP 2026 prestará tributo à memória de um dos maiores documentaristas do mundo, o chileno Patricio Guzmán, que morreu em 15 de setembro último. Além de sua monumental “Trilogia do Chile” – concluída com apoio de Cuba, primeiro porto de seu longo exílio, e da França –, será exibido “O Primeiro Ano” (1972), em cópia restaurada.
Na coletiva da mostra, no último 3 de outubro, Renata Almeida, comandante-e-chefe do festival paulistano, brincou com pergunta costumeira dessa repórter, que sempre busca informações sobre a representação latino-americana.
“Ih, não decorei os filmes da América Latina, mas posso garantir que são muitos, que homenagearemos Guzmán e contaremos com debate que unirá o argentino Lisandro Alonso ao filho de Abbas Kiarostami, Ahmad”.
Além de apresentar seu novo filme (‘La Libertad Doble’, que sequencia ‘La Libertad’) — detalhou Renata —, “Lisandro vai falar sobre seu novíssimo longa-metragem, ‘O Aroma da Pitanga’, remake de ‘O Gosto de Cereja’ (Kiarostami, 1997, Palma de Ouro em Cannes), filme produzido pela mineira Vânia Catani e protagonizado por Wagner Moura”.
Renata Almeida já havia destacado a presença de Marco Bechis, diretor de “Retorno a Buenos Aires”, lembrando que o italiano, que receberá o Prêmio Humanidade, tem sua trajetória ligada, em profundidade, ao Chile, à Argentina e ao Brasil (aqui, trabalhou em parceria com o roteirista Luiz Bolognesi em “Terra Vermelha”).
. “Retorno a Buenos Aires”, de Marco Bechis (Itália, Brasil – com história ítalo-argentina)
. “Homem ao Mar” (Hombre al Água), de Gael García Bernal (México)
. “Recém-Chegados” (Los Nuevos), de Rodrigo Plá (México, Espanha)
. “Seis Meses no Prédio Rosa e Azul”, de Bruno Santamaria (México, Brasil e Dinamarca)
. “Chicas Tristes”, de Fernanda Tovar (México, Espanha, França). “Ainda Tijuana” (“Tijuana, Todavia”), de Gabriel Gutierrez Morales
. “Meu Amigo o Sol”, de Alejandra Pérez (México, Brasil)
. “Salão de Beleza”, de Nathalia Acevedo (México, França)
. “Morro”, de Rodrigo García Saiz (México)
. “A Marca do Jaguar – O Despertar do Fogo”, de Victor Mayorga (coprodução Brasil-México)
. “Oca”, de Karla Badillo (México, Argentina)
. “Às Vezes Sinto Tristeza, Outras Vezes Revolta”, de Maria Aparício (Argentina, Espanha)
. “Biografia de Jorge Luis Borges”, de Mariano Linás (Argentina)
. “O Fantasma”, de David Lamelas e Ignacio Masllorens (Argentina)
. “Glaxo”, de Benjamín Naishtat (coprodução Argentina-Brasil)
. “La Libertad Doble”, de Lisandro Alonso (Argentina, Chile, Luxemburgo, Alemanha)
. “Os Dias Livres”, de Lucila Mariani (Argentina, México, Brasil, França)
. “Lorca: A Voz Partida”, de Manuel Menchón (Espanha, Argentina)
. “Cocaína Negra”, de Cristóbal Valenzuela Barríos (Chile, Uruguai)
. “La Perra”, de Dominga Sotomayor (coprodução Chile-Brasil)
. “Princesa Burro”, de Cristóbal León e Joaquín Cociña (Chile, Uruguai, França, Países Baixos)
. “Cinco Anos, Quatro Meses”, de Juan Miguel Gelacio e Esteban Hoyos Garcia (Colômbia, EUA)
. “Meteorito”, de Sebastián Múnera (Colômbia)
. “Pedras Preciosas”, de Simón Velez (Colômbia)
. “Todas as Minhas Viagens São de Regresso”, de Manuel Ponce León (Colômbia)
. “Mu-Ki-Ra”, de Estefania Piñeres Duque (Espanha, Colômbia)
. “Quem Matou Narciso?”, de Marcelo Martinessi (Paraguai)
. “Nosotros”, de Juaquín Ruano (Guatemala, México)
. “O Amor é Um Monstro”, de Neto Villalobos (Costa Rica, Panamá, Chile, México)
. “Os Dias Livres”, de Lucila Mariani (Brasil, Argentina, México, França)
. “Cherri”, de Fabián Suárez (Cuba, Guatemala, México)
. “O Retornado” (“El Regresado”), de Armando Capó (Cuba, Colômbia)
. “A Morte Não tem Dono”, de Jorge Thielen (Venezuela)
. “Olívia e o Terremoto Invisível”, de Irene Iborra Rizo (Espanha, Chile, Bélgica, Suíça e França)
SESSÕES ESPECIAIS
Mostra em homenagem a Patrício Guzman (1941-2026):
. “A Batalha do Chile, Parte 1” (Chile, Cuba, França, 97 minutos)
. “A Batalha do Chile, Parte 2” (Chile, Cuba, França, 88 minutos)
. “A Batalha do Chile, Parte 3” (Chile, Cuba, França, 78 minutos)
. “O Primeiro Ano” (Chile, 100 minutos)
