Na Mostra SP, “Cavalcanti” presta homenagem ao mais internacional de nossos cineastas e expõe com sutileza sua homoafetividade

Por Maria do Rosário Caetano

“Cavalcanti”, documentário de Jairo Neto e Graubi Garcia, que terá nesse domingo, 18 de outubro, a primeira de suas três sessões na Mostra SP, é uma ótima surpresa. Merece figurar como importante destaque da maratona cinéfila paulistana, mesmo que o cardápio ofereça 380 opções.

Neto e Graubi conseguiram realizar um longa-metragem de grande beleza plástica, sustentado em pesquisa das mais consistentes e montagem precisa e dinâmica.

Em 100 minutos, os dois documentaristas dão conta da imensa (complexa e quase desconhecida) aventura cinematográfico-existencial do arquiteto carioca, de origem pernambucana, que passou da cenografia à direção cinematográfica. E que inscreveu seu nome entre os principais artífices da Avant-Garde francesa, da escola griersoniana, força renovadora do documentário britânico, e realizou filmes instigantes (alguns memoráveis) em Paris e Londres e, também, na Suíça e Brasil. Sem esquecer a Alemanha Oriental, que produziu “Rosa dos Ventos” e o brechtiano “O Senhor Puntila e seu Criado Matti”.

Que ninguém se assuste com as imagens televisivas, já meio desbotadas, que abrem “Cavalcanti”. Elas trazem enquete de rua de aparência banal, mas reveladora. Um repórter (da TV Educativa do Rio de Janeiro) deixará o cineasta, já um senhor grisalho, exposto num banco de praça. Perto dele, populares (também já entrados nos anos), ao serem questionados, não conseguirão identificar aquele velhinho. Num primeiro momento, tudo parecerá humilhante.

Por que submeter o diretor de “Rien que les Heures”, fonte seminal das sinfonias de metrópoles, de “Coll Face”, “Nas Garras da Fatalidade” e de “No Silêncio da Noite”, a tal provação?

Descobriremos logo, que Cavalcanti (CAV para os amigos) — dono de fino humor e emissário de falas curtas (e cortantes) — aceitou de bom grado aquela provação. Até se divertiu com a desmemória brasileira, com a ingratidão de seus conterrâneos, indiferentes ao que ele fizera na Europa e mesmo aqui, primeiro na Vera Cruz, depois na Maristela e Kino Filmes.

As imagens que veremos após o término da desconcertante enquete televisiva serão arrebatadoras. Vindas dos arquivos das cinematecas brasileira e francesa e de fértil parceria com o BFI (British Film Institute), elas se multiplicarão numa verdadeira sinfonia cavalcantiana.

Todas as fases artísticas do cenógrafo, cineasta, montador e produtor serão lembradas. As boas e as “ruins”, as vanguardistas e as “comerciais”, as parisienses, londrinas, suíças, alemãs ou brasileiras (incluindo a difícil e tumultuada realização recifense do “O Canto do Mar”). Depois de assistir ao documentário de Neto e Garcia, ninguém poderá reclamar de ter sentido falta de momento essencial-definidor de sua longa caminhada.

Até a homoafetividade do artista, filho de pai alagoano, militar de carreira, e de mãe vinda da elite pernambucana, aflorará em muitos momentos do filme. “Cavalcanti” se constrói com falas do próprio artista (enriquecidas com memórias de alguns de seus companheiros de estrada, em especial, os britânicos, franceses e “veracruzianos”). Mas que ninguém espere frases explícitas (militantes) sobre sua homoafetividade.

O lado queer de Alberto Cavalcanti (1897-1982) será impresso na tela com a discrição dos tempos que ele viveu. Quando evocar os anos em que, por exigência paterna, frequentou escola militar, o rapazinho há de recordar-se das noites de tempestade, aquelas em que os garotos ficavam inquietos, excitados. Um amigo do cineasta, André Cerf, o evocará como integrante do “grupo homossexual da Avant-Garde francesa”, ao lado de Philippe Hériat e Catelain.

O documentário brasileiro, que participa da competição de Novos Diretores, também não levantará bandeira. O que ele quer é mostrar o quão grande e fértil foi a trajetória do artista na história do cinema, seja ficcional ou documental (Cavalcanti não apreciava o termo “documentário”), internacional ou brasileiro.

Ao longo do filme, CAV irá situando, com frases curtas, as ideias que nortearam seu trabalho e seus companheiros de viagem cinematográfica – Marcel L’Herbier, Claude Autant-Lara, o pintor Fernand Léger, John Grierson, Michel Redgrave, sem esquecer o casal Jean Renoir e Catherine Hessling. E Alfred Hitchcock, que aparecerá na narrativa de Neto e Garcia enaltecendo a importância da Escola Documental Britânica (Grierson e o GPO – General Post Office) e colocando ênfase na participação do brasileiro Cavalcanti nesse momento histórico da arte cinematográfica. O escocês-canadense Norman McLaren também destacará a importância de Cavalcanti.

O documentário não promoverá nenhuma canonização do artista. Nem “limpeza” em seus falares. Segundo a montadora britânica Cynthia Moody, Cavalcanti foi convocado a dar entrevista a uma emissora alemã. Pediram a ele que “definisse, em francês (para posterior tradução da intérprete), o Doutor Grierson”.

Cavalcanti definiu o colega dos anos áureos do GPO como “une merde”. Afinal, representavam, ambos, projetos divergentes para o cinema documental. Grierson defendia filmes de temática social e não se negava a aproximar tais produções da propaganda, em nome da edificação de valores civilizacionais. Cavalcanti queria realizar filmes inventivos, de pesquisa de linguagem.

Um pequeno senão: as legendas de “Cavalcanti” (o filme é falado majoritariamente em francês e inglês, sem esquecer o português) merecem adequação mais precisa no uso de termos técnicos. E uma correção: o nome de (Emile) Zola, autor de “Nana”, foi registrado como Isolda. O romance do escritor naturalista foi adaptado por Jean Renoir (“Nana”, 1926) e o filme encantaria o brasileiro a ponto de estimulá-lo a convidar Catherine Hessling, a Naná, a protagonizar “À Deriva” (“En Rade”) e “Ivette”, ambos de 1927. Num trecho do documentário brasileiro, Cavalcanti dirá que Renoir proibiu a esposa-atriz de seguir trabalhando nos filmes dele, CAV.

No mais, ao cinéfilo, restará o prazer de desfrutar, além do foco essencial na linguagem cinematográfica, do senso de humor e da atrevida franqueza de Cavalcanti. Sobre a experiência na Vera Cruz ele dirá: “para mim foi um desastre horroroso”. E lembrará que trouxe profissionais dinamarqueses e ingleses para atuar na empresa, de jeito que conseguisse evitar a hegemonia da “italianada”. Sobre sua condição de solteiro (aos 52 anos), CAV dirá a curioso repórter carioca: “o divórcio custa caro e um cineasta não casará menos de cinco vezes”. Ao visitar estúdios cariocas (incluindo o da Atlântida), não se conteve: “isso não é um estúdio, é uma fogueira”.

A outros repórteres (brasileiros) daria duas respostas provocantes ou divertidas:

— O senhor é definido como o quinto cineasta mais importante do mundo.

— O quinto? Por que não o décimo-quinto? Fico honrado.

— Quantos filmes o senhor fez?

— Difícil dizer. Mais de 100.

— Qual é o melhor deles?

— Escolho os piores, como fazem as mães que gostam mais dos filhos fracos e com defeitos.

A acuidade cinematográfica de Neto e Garcia os fará mostrar longo trecho de “Na Solidão da Noite” (“Dead of Night”, 1945), possível graças ao importante apoio do BFI. Este filme, um horror fantasmagórico de sua fase menos conhecida no Brasil, vem sendo descoberto a cada novo dia. Até Martin Scorsese, incansável cinéfilo, confessou-se impressionado com episódio no qual Michel Redgrave interpreta ventríloquo que será mordido por seu atrevido boneco. E a mordida resultará em contorno impresso em sangue.

 

Cavalcanti
Brasil, 2026, 100 minutos
Direção e roteiro: Jairo Neto e Graubi Garcia
Pesquisa: Mila Lo Bianco, Jairo Neto, Graubi Garcia e Épica Pesquisa
Montagem: Graubi Garcia
Desenho de som: Pedro Vituri e Graubi Garcia
Música: Pedro Vituri
Produção: Animal Filmes (com apoio do BFI)
Sessões na Mostra SP: domingo, dia 18, 16h30, no Frei Caneca 1; terça-feira, dia 20, 13h30, no Espaço Petrobras Augusta 1; e segunda-feira, dia 26, 17h, no Cine Belas Artes (Sala Leon Cakoff)

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