Market share do cinema brasileiro cresce com “Minha Melhor Amiga” e deve aumentar com “Farofeiros 3”

Foto: “Os Farofeiros 3”, de Roberto Santucci

Por Maria do Rosário Caetano

Passado o período eleitoral e ainda festejando o sucesso de público de “Minha Melhor Amiga”, comédia protagonizada por Ingrid Guimarães e Mônica Martelli, o cinema brasileiro lança, nessas próximas oito semanas, 40 novos filmes no circuito exibidor. E o faz com a expectativa de cravar novo sucesso comercial para somar-se aos resultados do blockbuster da “amizade feminina” e elevar o modesto market share verde-amarelo. Que, por enquanto, está bem abaixo de 10%.

Entre os novos lançamentos, há pelo menos um candidato a blockbuster – “Os Farofeiros 3”, de Roberto Santucci. Os primeiros “farofeiros” dessa franquia venderam, em 2018, 2,6 milhões de ingressos. A sequência venderia, seis anos depois, 1,9 milhão de tíquetes. O circuito de cinema vivia, então (e ainda), a ressaca da pandemia.

Nessa quinta-feira, 5 de novembro, além de “Os Farofeiros 3”, serão lançados o candidato brasileiro ao Oscar, “Feito Pipa”, de Allan Deberton; a comédia policial “Assalto à Brasileira”, de José Eduardo Belmonte, recriação do assalto ao Banestado, em 1987, e dois filmes mineiros, o drama “Vicentina Pede Desculpas”, de Gabriel Martins, e a animação “Ana, en Passant”, de Fernanda Salgado. Por fim, um show nas telonas do cantor Gustavo Mioto (“Inconfundível Tour”).

“Assalto à Brasileira”, que traz semelhanças com “Um Dia de Cão” (Sidney Lumet, 1975), conta com história sacudida e ótimo elenco – Paulo Niklos na pele de um tira, Murilo Benício como jornalista policial e os “assaltantes” liderados por Christian Malheiros e Robson Nunes. Tem qualidades para atingir desempenho, pelo menos, de filme médio. Mesmo caso de “Vicentina Pede Desculpas”, produção da Filmes de Plástico, em parceria com a Netflix.

O cearense-paulistano “Feito Pipa” chamou atenção já em sua arrancada. Ofertado em semana de pré-lançamento, que contou com a ajuda do feriado do Dia dos Mortos, o indicado brasileiro ao Oscar vendeu 41 mil ingressos. Um espanto para produção de orçamento mediano, que mobilizou a poderosa Paris Filmes. Esta distribuidora, registre-se, é responsável (junto com a Downtown, de Bruno Wainer) pela maioria absoluta dos blockbusters brasileiros. Comandada por Márcio Fraccaroli, a Paris assina a distribuição de “Minha Melhor Amiga” (6.090.074 espectadores), ainda em cartaz (estreou nove semanas atrás).

Depois de um período de “vacas magras”, a produção brasileira começa a dar sinais de vitalidade nas bilheterias. “Se Eu Fosse Você 3” já vendeu 327 mil ingressos. Pouco, se comparado com os filmes anteriores, dirigidos por Daniel Filho (neste ele é apenas produtor). O primeiro vendeu 3.640.000 ingressos, e o segundo, 3.670.000.

Não fizeram feio, também, dois lançamentos brasileiros que estrearam no final de semana do feriadão – “Dez Vantagens de Morrer Depois de Você”, de Diego Freitas, vendeu 108 mil ingressos em quatro dias, e “100 Dias” (duração da viagem do navegador Amir Klink) arrancou com 81 mil. Se o boca-a-boca for bom e se sustentar, estes dois filmes podem chegar à condição de lançamentos de médio alcance.

O ano eleitoral complicou o andar da carruagem do cinema brasileiro. O Boletim Filme B (importante banco de dados do audiovisual no Brasil – o estrangeiro e o brasileiro) mostrou que a semana em que se deu a votação do segundo turno, as bilheterias despencaram (para o cinemão norte-americano e para o brasileiro). Já com o resultado consolidado e o “plus” do feriadão, o público voltou aos cinemas.

A produção nacional – somada aos 40 títulos programados para estas oito semanas que restam – conseguirá aproximar-se dos dados animadores dos dois últimos anos? Em 2024/25, o market share foi vitaminado pelos mais 5,8 milhões de ingressos de “Ainda Estou Aqui”, candidato e vencedor do Oscar internacional). Em 2025/26 (com as quatro indicações de “O Agente Secreto” e seus 2,5 milhões de espectadores) os dados também foram significativos.

O desafio da atual temporada cinematográfica brasileira é imenso, mas não impossível.

“Assalto à Brasileira”, de José Eduardo Belmonte

As bilheterias de “Ainda Estou Aqui” e de “O Agente Secreto” foram incrementadas pela comédia “O Auto da Compadecida 2” (4,3 milhões), pelo infantil “Chico Bento e a Goiabeira Maraviósa” (1 milhão), pelo drama policial “Vitória” (800 mil) e pela cinebiografia de Ney Matogrosso, “Homem com H” (700 mil).

Neste ano de 2026, as bilheterias nacionais foram modestas: “Os Velhos Bandidos”, com Fernanda Montenegro e grande elenco, não chegou a 500 mil espectadores, o infantil “Diário de Pilar na Amazônia” não passou de 140 mil tíquetes. Houve expectativa com “O Gênio do Crime” e “O Shaolin do Sertão”. Mas nenhum dos dois superou os 50 mil ingressos. Desempenho notável teve o documentário “Zico Samurai” (mais de 60 mil espectadores). Bilheteria maior que a de muitos filmes de ficção.

A comédia dramática “Sem Pai nem Mãe”, de André Klotzel, cuja estreia se dará no próximo dia 19, tem potencial para superar os 100 mil espectadores. História divertida, pegada moderna e elenco notável, liderado por Alexandre Nero.

Há quem aposte em outra comédia, a ‘emaconhada’ “O Verão da Lata”, de Santiago Dellape, com bons desempenhos de Samanta Schmütz e Babu Santana. E, até, na comédia romântica “Loucos Amores Líquidos”, de Alexandre Avancini (nome vindo da TV).

O culto a Belchior pode mobilizar parcela significativa do público para sua cinebiografia ficcional, “Viver é Melhor que Sonhar”, de Eduardo Albergaria, e para o documentário “Alucinação”, de Renato Terra e Caetanos (Marcos e Leo), que se propõe a evocar, com “imagens do Brasil”, todas as faixas do mais famoso dos discos do artista cearense (“Alucinação”, PolyGran, 1976). Ver datas de estreia na tabela abaixo.

Entre os lançamentos brasileiros dessas próximas semanas, vale registrar dois resgates – o de “Fogaréu”, de Fernanda Neves, protagonizado por Bárbara Colen, que teve sua pré-estreia mundial no Festival de Berlim, em 2022, e depois percorreu o circuito de festivais Brasil afora. Aturdida pela pandemia, a diretora não conseguiu lançar o filme no calor da hora. Chega, pois, aos cinemas, com quatro ano e nove meses de (injusto) atraso.

Outra produção que chega com significativo atraso ao circuito exibidor é “Represa”, de Diego Hoefel. Premiado como o melhor filme na trigésima edição do Festival de Cinema de Vitória (2023), no Espírito Santo, o longa cearense merece ser visto. Seu diretor, nascido no Rio Grande do Sul, vive há 16 anos em Fortaleza. É professor de Cinema na Universidade Federal do Ceará.

Filmes apontados como bons de bilheteria – como a comédia “Minha Irmã e Eu 2”, de Susana Garcia (a mesma do blockbuster “Minha Melhor Amiga”), o drama erótico “Bruna Surfistinha 2”, de Marcus Baldini, a cinebiografia “Chorão Só os Loucos Sabem”, de Hugo Prata e Felipe Novaes, a comédia satírica “Cabras da Peste 2 – Miami Vixe”, de Vitor Brandt, e o drama “O Delator”, de Arnaldo Jabor, tiveram suas estreias adiadas para 2027.

Mesmo os cinéfilos mais dedicados se surpreenderam ao ver, na lista de lançamentos destes últimos meses de 2026 (previsto para dia 10 de dezembro), um filme – “O Delator” – assinado pelo cineasta Arnaldo Jabor. Afinal, o diretor da Trilogia entre Paredes (“Tudo Bem”, “Eu te Amo” e “Eu Sei que Vou te Amar”) morreu em fevereiro de 2022, aos 81 anos, depois de longa internação no Hospital Sírio Libanês paulistano.

Quem seguiu de perto a carreira cinematográfica do realizador de “Toda Nudez Será Castigada” sabia que ele estava, além do jornalismo, dedicado à realização de longa-metragem chamado, à moda de Noel Rosa, “Meu Último Desejo”.

O novo filme, este que a distribuidora Imagem reprogramou para 21 de janeiro do próximo ano, teve seu nome mudado para “O Delator”. Trata-se de recriação cinematográfica do conto “O Livro dos Panegíricos”, retirado do livro “Romance Negro e Outras Histórias”, de Rubem Fonseca (1925-2020).

A adaptação foi roteirizada pelo próprio Jabor, em parceria com Guilherme Quintella. O elenco reúne Michel Melamed, Natália Lage, Carlos Meceni, Bella Piero e o talentosíssimo João Miguel, que anda afastado das telas de cinema e TV.

A trama de “O Delator” gira em torno de médico idoso, assombrado por lembranças de um passado misterioso. Ele vive em um apartamento nobre e antigo ao lado de Lu (sua enfermeira, que sonha ser atriz) e de José (seu novo cuidador, recém-contratado e com histórico obscuro). Atormentado, o Doutor recebe ameaças veladas de antigos parceiros políticos para desistir de denunciar crimes de corrupção. A iminência dessa delação faz com que o grupo trame seu assassinato, enquanto a relação entre eles se aprofunda e revela segredos, delírios e desfecho imprevisível.

O “filme póstumo” de Arnaldo Jabor conseguirá o sucesso de “Eu Sei que Vou te Amar” (quase 2 milhões de ingressos) e de “Eu te Amo” (4 milhões), ou ficará reduzido à modesta bilheteria de seu penúltimo filme, “A Suprema Felicidade”, visto, em 2010, por 218 mil espectadores? Em janeiro saberemos.

LANÇAMENTOS BRASILEIROS DE NOVEMBRO E DEZEMBRO

NOVEMBRO

Dia 5

. “Feito Pipa”, de Allan Deberton (drama familiar – SP-CE)
. “Vicentina Pede Desculpas”, de Gabriel Martins (drama-MG)
. “Ana, en Passant”, de Fernanda Salgado (animação – MG)
. “Assalto à Brasileira”, de José Eduardo Belmonte (policial com tons de comédia – RJ-PR)
. “Os Farofeiros 3”, de Roberto Santucci (comédia-RJ)

Nessa sexta-feira, dia 6

. “Gustavo Mioto em Inconfundível Tour” (show)

Dia 12

. “Nacão Ubuntu – A Voz dos Silenciados”, de Paulo Henrique Fontenelle (documentário – RJ)
. “Só Não Posso Dizer seu Nome”, de Helvécio Ratton (drama – MG)
. “A Tropa de Goiânia”, de João Lucas Ribeiro e Iuri Moreno (documentário sobre o eletrofunk – GO)
. “As Benzedeiras, de Labibe Araújo (documentário)
. “A Virada: Ignição da Alma”, de Alessandro Barros (ficção religiosa – RJ)
. “Deixe-me Viver”, de Walther Neto (drama – RJ)

Dia 19

. “Sem Pai nem Mãe”, de André Klotzel (comédia dramática – SP)
. “O Projeto”, de Sabrina Fidalgo e Yvan Rodic (documentário, Brasil-Suíça)
. “Fogareu”, de Flávia Neves (drama, GO)
. “Eu Vou Ter Saudades de Você”, de Daniel Ribeiro (romance – SP)
. “O Verão da Lata”, de Santiago Dellape (comédia – RJ-DF)
. “Camisas Negras”, de Fábio Mello (doc-fic sobre a persistência do racismo no futebol brasileiro – RJ)
. “As Travessias de Letieres Leite”, de Iris de Oliveira e Daniel Sena (documentário – BA)
. “Malês”, de Antônio Pitanga (drama histórico, RJ-BA, relançamento)
. “Josephine: Fragmentos de Um Crime”, de Beth de Araújo (produção norte-aericana, dirigida por cineasta de origem brasileira – drama- EUA)

Dia 26

. “Yellow Cake”, de Tiago Melo (ficção científica- PE)
. “Alucinação”, de Renato Terra, Marcos Caetano e Leonardo Caetano (documentário sobre o mais famoso dos discos de Belchior – RJ)
. “Os Irmãos Segreto”, de Federico Ferrone e Michelle Manzolini (documentário sobre os italianos que trouxeram o cinema para o Brasil – Itália-Brasil)
. “Loucos Amores Líquidos”, de Alexandre Avancini (comédia romântica – RJ)
. “Pecadora”, de Dainara Toffoli (romance – SP)
. “Kopenawa: Sonhar a Terra-Floresta”, de Marcos Altberg (documentário – RJ)
. “Retratos da Várzea”, de Lucas Campolina (doumentário – MG)
. “Bárbara Não Lhe Adora”, de Douro Moura (comédia – RJ)
. “Dona Onete – Meu Coração Neste Pedacinho Aqui”, de Mini Kerti (documentário musical – RJ-PA)

DEZEMBRO

Dia 3

. “Fiz Um Foguete Imaginando que Você Vinha”, de Janaína Marques (drama-fantasia – CE, vencedor do Festival Olha de Cinema 2026)
. “Viver é Melhor que Sonhar”, de Eduardo Albergaria (cinebiografia de Belchior – RJ)
. “Para Vigo me Voy!”, de Lírio Ferreira e Karen Harley (documentário sobre o cineasta Carlos Diegues)
. “Represa”, de Diego Hoefel (drama, CE, vencedor do Festival de Vitória)
. “Ciclo”, de Ian SBF (ficção científica e suspense – RJ)
. “Uma em Mil”, de Jonatas e Thiago Rubert (documentário sobre as chances, “uma em mil”, de uma pessoa nascer com Down – PR)

Dia 10

. “Talismã”, de Thais Fujinaga (comédia dramática, RS-SP, vencedor do Prêmio Netflix na Mostra SP 2026)
. “O Sertão das Nossas Memórias”, de Lúcio Murat (documentário – RJ)

Dia 17

. “Filhas da Noite”, de Henrique Arruda e Sylara Silvério (documentário, PE)
. “Intervenção”, de Gustavo Ribeiro (documentário – SP)

Dia 24

. “Cinco Júlias”, de Matheus Souza (drama, RJ)

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