Gabriel Martins garante que “Vicentina Pede Desculpas”, candidato brasileiro ao Goya, é um “insulto ao algoritmo”

Por Maria do Rosário Caetano

“Vicentina Pede Desculpas”, terceiro longa-metragem de Gabriel Martins, o Gabito, chega aos cinemas brasileiros nessa quinta-feira, 5 de novembro. A partir do dia 20, estará disponível na grade da Netflix, plataforma de streaming que o patrocinou.

Aos que supõem que o realizador mineiro, um dos criadores do coletivo Filmes de Plástico, capitulou sob o peso dos ditames da poderosa plataforma de streaming, ele tem resposta pronta. Garantiu, em debate no CineSesc, que seu novo filme é “um insulto ao algoritmo”. Foi realizado para “confrontar a inércia”. E mais: procurado pela Netflix, depois do sucesso de “Marte Um”, para parceria conjunta, ele apresentou três roteiros para a devida análise. “A Netflix escolheu o mais difícil”, o de “Vicentina Pede Desculpas”. E ofereceu “liberdade criativa plena” ao realizador de 38 anos, oriundo do município de Contagem, na Grande BH.

O longa mineiro chega aos cinemas depois de sua estreia internacional no Festival (canadense) de Toronto, sequenciada em San Sebastián, na Espanha basca, e de disputar o troféu Redentor no Festival do Rio (foi reconhecido pela melhor direção, melhor roteiro e pelo júri popular). E escolhido pela Academia Brasileira de Cinema para representar o Brasil na festa dos Prêmios Goya (em fevereiro de 2027).

“Vicentina” teve sessões esgotadas na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. No CineSesc, o filme foi apresentado e debatido por Gabito e por sua protagonista, a atriz Rejane Faria. Ela ocupa o centro da narrativa, com densidade e sutileza, ao longo de 148 minutos (duração nunca praticada pelos filmes anteriores do próprio Gabito e de seus pares na Filmes de Plástico, André Novais e Maurílio Martins).

Houve, entre os mineiros mais vividos, quem imaginasse que acidente de ônibus ocorrido no Rio Arruda, em BH, em julho de 1999 (saldo de nove mortos e 52 feridos), fosse a matriz do filme.

No debate no CineSesc, o cineasta e roteirista garantiu que dois fatos fertilizaram seu imaginário. Primeiro, acidente de avião germânico, que matou todos os passageiros, em 2015 (o copiloto teria jogado a aeronave contra uma montanha). Segundo, imagem do documentário “Ônibus 174” (José Padilha, 2002), pois “fiquei muito impressionado com a solidão da mãe de Sandro (o sequestrador do ônibus, no Rio) velando o filho. Só ela, em frente ao caixão”.

A partir da tragédia do vôo da Germanwing e do triste velório de Sandro, Gabito estruturou seu roteiro (ele tinha apenas 11 anos quando ocorreu o acidente no Rio Arruda). E recorreu às suas constantes viagens de ônibus, condução da qual se serviu com regular frequência. E seu refinado senso de observação. Foi como passageiro de coletivos urbanos que o roteirista se colocou a questão estrutural de sua nova narrativa: como se sentiria a mãe do motorista (ou do piloto), responsabilizado pelo acidente, frente aos familiares das vítimas?

“Vicentina…” (nome emprestado da avó do cineasta, homenageada pelo filme) começa numa manhã como outra qualquer. Em Belo Horizonte, um ônibus lotado segue para o centro da cidade. Ao cruzar um viaduto, o veículo repentinamente desvia, sai da pista e cai na avenida inferior. Um passageiro fica gravemente ferido, enquanto todos os outros – incluindo Wesley, o motorista – morrem.

A cena do acidente causa imenso impacto no espectador. Foi realizada com esmero e muita habilidade técnica. Custou caro e só foi possível graças à produção da Neftlix (esta é a primeira parceria da Filmes de Plástico com a plataforma de streaming). A tragédia com o ônibus repercute nos telejornais e jornais impressos. As câmeras de segurança do ônibus e da via urbana registram o momento do acidente e, após a análise das imagens, surgem especulações de que o motorista poderia ter agido intencionalmente, num aparente suicídio.

Dona Vicentina, professora aposentada de 75 anos e mãe de Wesley (Renato Novaes), fica devastada com a tragédia e toma decisão singular – procurar as famílias das vítimas e pedir desculpas. Começa a via crucis da mulher que se move apoiada numa bengala. E que vai encontrar interlocutores dos mais variados tipos. Receptivos ou não.

Duas sequências de “Vicentina Pede Desculpas” (além do registro da tragédia) hão de causar ótima impressão no público. E servirão para mostrar que dez curtas e (apenas) três longas-metragens serviram para formar um cineasta capaz de realizar histórias fincadas no afeto e em substantiva carpintaria cinematográfica.

A primeira (e notável) sequência se passa dentro de uma igreja. Rejane Faria e (o ator-cineasta pernambucano) Fábio Leal manterão diálogo envolvente. Na outra, um alucinado concerto de death metal, liderado pelo personagem de Giovanni Venturini, criará perturbadora ruptura na caminhada (redentora?, apaziguadora?) de Dona Vicentina.

O filme de Gabito não tem o humor e o frescor de “Marte Um”. Neste, família afro-mineira vivia seu cotidiano composto de pequenas histórias e revezes, enfrentados com solidariedade e risos. Em “Vicentina Pede Desculpas”, o tom evoca um blues. Uma tragédia que afligirá a vida de uma mulher solitária (o outro filho, também interpretado por Renato Novaes, mora na distante Amazônia). Mesmo assim, o novo longa-metragem de Gabito constitui-se como programa obrigatório.

O elenco é poderoso. E, em boa parte, muito familiar às produções da Filmes de Plásticos. Nele estão – além de Rejane e Novaes, Grace Passô, Carlos Francisco, Bárbara Colen e Norberto Novais – Fernanda Viana (do Galpão), Clébia Sousa, Thalma de Freitas, Maíra Azevedo, Flávio Bauraqui, Fábio Leal, Giovana Heliodoro, Marisa Revert e o “metaleiro” Giovanni Venturini.

A trilha sonora, do baiano Tinganá Santana, cria os climas necessários. E abertura, ao som da melódica “Tocando em Frente” (Renato Teixeira e Almir Sáter), enche a tela e estabelece contraste — com a devida sutileza — com a tragédia que virá. “Ando devagar, porque já tive pressa/ E levo esse sorriso, porque eu já chorei demais/ Hoje, me sinto mais forte, mais feliz quem sabe/ Eu só levo a certeza de que muito pouco sei/ Nada sei”. O que virá, o trágico acidente, há de contrariar o espírito zen de quem está “tocando em frente”.

Vicentina Pede Desculpas
Brasil, 2026, 148 minutos, 14 anos
Direção e roteiro: Gabriel Martins
Elenco: Rejane Faria, Renato Novaes, Maíra Azevedo, Grace Passô, Carlos Francisco, Giovanni Venturini, Bárbara Colen, Norberto Novais, Fernanda Viana, Clébia Sousa, Thalma de Freitas, Flávio Bauraqui, Fábio Leal, Giovana Heliodoro, Marisa Revert
Fotografia: Leonardo Feliciano
Montagem: Gabriel Martins e Thiago Ricarte
Direção de arte: Rimena Procópio
Edição de som: Tiago Bello
Trilha sonora: Tinganá Santana
Produção: Thiago Macêdo Correia (Filmes de Plástico)
Distribuição: nos cinemas (Malute) e no streaming (Netflix)

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