Artigos Criação Narrativa — 19 janeiro 2012

Em continuação ao artigo sobre o que é a “narrativa”, discuto aqui como ela serve ao desenvolvimento e análise do roteiro cinematográfico, pois a formação do roteiro não precisa necessariamente  submeter-se às teorias da linguagem do audiovisual, que se expressa em imagens. O roteiro é um texto misto. E precisa de um corpo teórico narrativo científico.

Neste artigo, vamos falar sobre as relações entre sujeitos não mais no nível da manipulação, como no artigo anterior. Podemos mostrar como os personagens em forma de sujeito se relacionam em uma teia de relações, guiados por desejos, oposições, articulações, e outros elementos clássicos da teoria da narrativa pensada por Propp e Greimas. Essa parte da teoria da narrativa é conhecida como percurso narrativo, ou percurso do sujeito. Entende-se por sujeito tudo aquilo relacionado a personagens, e em torno dele gira a ação.

O personagem tem uma caracterização que origina o desenvolvimento da ação e da história, mas também tem valores, e com esses valores ele pode ser estudado como sujeitos em busca de objetos, possuído de objetivos a serem alcançados. Essa é a ideia básica do texto de Propp, baseado nas análises dos contos maravilhosos, mas que até hoje se adapta perfeitamente ao texto do cinema e do roteiro, e qualquer tipo ou modelo de filme possuem essas matizes. Neste caso, os sujeitos podem ser heróis ou vilões, coadjuvantes e objetos, e juntos formam uma estrutura mínima dramatúrgica. Para cada um desses sujeitos abre-se um programa de competência, um percurso na narrativa, em que prevalecem as mudanças de estados e relações entre eles.

Na teoria narrativa, o sujeito é definido como correlato ao objeto. Ele é movido por uma relação de desejo. O sujeito é aquele que quer, que pretende o objeto, e essa relação é o que institui a ação. Esse mesmo tipo de confrontação entre sujeito e objeto pode ser feito com o sujeito e o antissujeito (vilão, oponente), assim como a relação entre os coadjuvantes e os destinadores e destinatários, elementos que formam o percurso narrativo. E cada sujeito desenvolve o seu percurso no conjunto e em paralelo. No roteiro, o desenvolvimento do personagem precisa estar claro. A caracterização do personagem, assim como as relações que ele cria, os contratos, e as manipulações que precisa fazer para cumprir (ou descumprir) contratos, podem ser analisados sob o prisma das teorias básicas da ficção.

O objeto (que pode ser um objetivo ou outro sujeito) é aquilo que o sujeito quer buscar. A relações existentes entre o sujeito e objeto formam a narrativa através de elementos de níveis profundos, formando uma dicotomia chamada de conjunção e disjunção. Se uma história começa com um sujeito sendo separado de seu objeto por uma razão qualquer, provocada talvez por um antissujeito, ele se encontra disjuntivo com seu objeto. Nesse núcleo estrutural da narrativa, no nível profundo do percurso gerativo do sentido, tanto do texto como dos sujeitos, esse sujeito irá em busca da restauração do equilíbrio entre o seu objeto, partindo em busca da realização do seu desejo, se preparando para vencer, para chegar a um objetivo final (manipulação, ação e sanção). Se ele conseguir, então estará novamente em conjunção com seu objeto.

O percurso do sujeito representa a aquisição de novos conhecimentos que permitam a ele fazer uma mudança: não basta apenas ele querer, ele precisa de poder e de fazer. Ao conseguir novos conhecimentos, ele adquire a competência necessária para lutar contra seus antagonistas e conquistar seu objeto, promove uma ação e concretiza a execução. O programa narrativo é composto, portanto, por esses percursos narrativos, tanto do sujeito como do antissujeito e todos os outros personagens do roteiro. O percurso do destinador-destinatário, por exemplo, é a instância que comunica ao sujeito a sua missão, que promove a ação do sujeito. Cada percurso tem etapas, programas de competências e outras teorias que justificam essa forma de análise da criação e desenvolvimento de histórias.

No roteiro de “Central do Brasil”, por exemplo, existe um plano de conjunção entre Dora e Josué, em forma de contrato para irem atrás do pai, quando um desperta no outro algo que lhe possa trazer algum benefício, encontrar seus objetos e objetivos na vida. Mas enquanto sujeitos eles estão em disjunção. Josué só irá confiar em Dora de verdade na sanção. Quando estabelecem outro contrato, a nível afetivo e não mais para buscar o pai, e a relação entre os dois se torna conjuntiva. Não existe narrativa sem sentido. E a busca do sentido é a essência desse tipo de análise. O sentido está não no que o texto diz, mas no percurso que ele usa para dizer o que diz. E neste percurso estão os elementos que buscamos para estruturar uma boa história.

 

Hermes Leal é escritor e documentarista, mestre em Cinema pela ECA/USP, doutorando em Semiótica também na USP, e autor do romance “Faca na Garganta” e da biografia “O Enigma do Cel. Fawcett”, entre outros livros.

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