Colunas Produção Audiovisual — 16 maio 2012
Só o Tropicalismo salva

Chega a ser cruel comparar o permanente e irradiante sucesso de nossa música com o relativo e inconstante sucesso de nosso cinema. Por que tanta diferença? Nosso cinema gosta de “culpar” o imperialismo ianque, mas por que será que o imperialismo ianque não consegue também destruir a pop star Ivete Sangalo e nem coibir o surgimento de novas estrelas como Crioulo? Explicar tudo apenas pela economia pode ser confortável para o corporativismo dos realizadores artísticos que não querem nem ouvir falar de críticas a obra e ao seu próprio metier. Mas convenhamos que culpar os gringos é simplista demais. A economia é obviamente parte do problema, mas quando vejo pessoas reduzindo tudo a economia minha vontade é parodiar a campanha de Clinton e dizer: “é a estética, estúpido”. O fato é que temos ao menos que considerar a hipótese de que, ao comparar cinema e música tupiniquins, percebamos alguma diferença no ambiente criativo e no pensamento estético dos realizadores. Haverá diferenças? Alguém arrisca uma hipótese? Como sou eu que escrevo vou arriscar uma: o cinema brasileiro não teve o Tropicalismo.

Acredito mesmo nisso: ao se falar em arte, só o Tropicalismo salva. O Tropicalismo rompeu falsas dicotomias entre nacional e estrangeiro, usou guitarra elétrica e abusou na recriação artística antropofágica a partir de gêneros internacionais. Qual filme brasileiro faz isso? Poucos, e sempre nossos maiores sucessos. No Brasil, filmes como “Cidade de Deus” e “Tropa de Elite” ainda são acusados de usar “formatos” americanos. Ainda estamos no debate que a música superou nos anos 60. Isso gera efeitos: praticamente não temos filmes de terror, sci fi, nenhum subgênero. Demos aos americanos a concessão para serem donos do gênero terror, uma linguagem tipicamente universal, que existia em qualquer “causo” caipira contado na fogueira. Outro dia, li as sinopses de quase uma centena de filmes brasileiros que estão em pré-produção: a grande maioria é realismo social. Alguns, comédias realistas, outros, dramas realistas. Tudo realismo. Faltam comédias loucas, faltam filmes de gênero, faltam paródias de gênero. Nos anos 70 e 80, fizemos “Bacalhau”, uma paródia de tubarão que teve grande sucesso. Nessa época, parte de nosso cinema era realmente industrial e sem subsídio (produzido nas bocas e pelos produtores de pornochanchada), e trabalhavam com o cinema de gênero de forma criativa. Com a volta do apoio estatal, o consenso da classe considerou que isso era filme de mau gosto. Nunca mais fizemos um filminho de gênero. Agora só filme “sério”. Perdemos o prazer de antropofagizar o gringo. Falta tropicalismo ao grosso de nosso cinema.

O Tropicalismo também rompeu a dicotomia entre indústria e vanguarda. Caetano ocupa a Globo e toca o brega Peninha com o refinamento estético de João Gilberto, conquistando o “povo” e a crítica. Qual filme brasileiro faz isso? Poucos, muito poucos. Em épocas de aumento da classe C é chegada a hora de nosso cinema aprender com o Tropicalismo e saber dialogar com o kitsch e com as estéticas bregas. Só assim chegará à televisão e à indústria de massa e realmente conquistará o público. Nem de leis precisaremos mais.

Pensar tropicalisticamente dissolve a maioria das falsas questões que tem consumido nosso ambiente audiovisual. Caetano elogia o É o Tchan, pois percebe o espetáculo da banda. E recria com os bregas de forma refinada. Enquanto isso, nosso cinema ainda fica perdendo tempo achando que o problema do cinema independente é que o Daniel Filho faz sucesso. Daniel Fiho fazer sucesso apenas abre portas, no mínimo traz o público da TV para o cinema. Um caminho não exclui o outro e temos que começar a vibrar alto e perceber que estamos no mesmo barco.

Por fim, e não menos importante, o Tropicalismo sempre foi político. Político no sentido mais amplo da palavra: na ocupação do mercado, na defesa da diversidade cultural (vide o trabalho artístico e político de Gil) e também na intervenção estética. O cinema brasileiro morre de medo de ser político, pois ainda reduz a política às concepções dos anos 60. O Tropicalismo percebeu, já nos anos 70, que o prazer e a alegria eram bandeiras políticas. Nosso cinema, geralmente, ainda está preso no que Ismail Xavier chamou de Estética do Ressentimento. E, cá entre nós, não é para menos. O cineasta vive um verdadeiro ambiente infernal e não criativo. Enquanto o músico cria, o cineasta brasileiro presta contas. Mais que qualquer outra arte, o cinema, talvez por ser caro, virou refém da burocracia. É tanto esforço para conseguir fazer o filme, tanto esforço, que na hora da filmagem o cineasta leva aquilo muito a sério. Muito a sério mesmo. Tão a sério, que fica chato. Quem já foi à filmagem sabe que o profissionalismo é o básico, mas o diferencial é o prazer da criação ao vivo. O prazer bate na tela e seduz o público. A ausência de prazer torna o filme burocrático, distanciado. Temos que criar condições de que a produção industrial não tire o prazer do cineasta em criar ao vivo. Muito se fala da responsabilidade social do artista e pouco se fala de sua necessária irresponsabilidade criativa. Falta a parte lúdica e é ela que seduz o público. Isso significa mudar o modelo de produção e parte disso é reduzir a burocracia. Temos que entender que para ser profissional em arte temos que ter momentos totalmente antiprofissionais.

Por tudo isso, afirmo: temos que ter urgente uma revolução tropicalista em nosso cinema. E só podemos fazer isso juntos. A cereja do bolo para conquistar os cineastas: queremos sucesso, é claro. Mas queremos mais prazer criativo e queremos também nos divertir na criação. E o melhor: as duas coisas estão intrinsecamente ligadas.

 

Newton Cannito é roteirista e foi Secretário do Audiovisual do MinC.

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(2) Comente

  1. O Newton está certo. Chega de filmes como Crime Delicado, Cão Sem Dono, Baixio das Bestas, Os famosos e os duendes da morte.. Precisamos de filmes para o povo. O povo ver o quê? Terror, ação, pornochanchadas como American Pie e similares como todo mundo em pânico. Basta de draminhas e dizer e ter horror à bilheteria. Cansei!

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