Artigos Criação — 10 dezembro 2015
Engole o choro

A maior catástrofe que podia acontecer a Toni Soprano seria ser flagrado chorando. Don Draper constrói para si uma vida perfeita, livre de lágrimas. Francis Underwood, eventualmente, derrama uma lágrima furtiva, que logo seca e parte para outra conspiração. Sua mulher, Claire, é uma fortaleza: seu último choro deve ter sido no berçário. Dexter bem que gostaria de provar o gosto salgado de uma lágrima, e Sawyer não chorou nem quando presenciou seu pai matar sua mãe e suicidar-se em seguida.

Na teledramaturgia brasileira, ao contrário, personagens derramam rios de lágrimas. Drica Morais se esbugalhou em prantos antes de se matar em “Verdades Secretas”, diante da filha chorona e seu amante, também com os olhos embargados. Nas novelas, os minutos comerciais mais caros na grade de programação, personagens choram por longos minutos.

Na comparação, cada produto da teledramaturgia brasileira enche baldes de lágrimas, contra um vidrinho de perfume de uma série estrangeira.

Tchekhov nos daria o mesmo conselho que deu à escritora iniciante Lídia Avílova: “Quando quiser causar compaixão, procure ser mais fria”. Em seguida, repreende a amiga: “Com você, acontece que seus heróis choram e você suspira”. A percepção de Tchekhov era de que uma cena triste ou dolorida causará impressão mais forte se for escrita com objetividade e frieza.

A dor de Don Draper parece mais forte quanto mais ele procura escondê-la. House é uma armadura de cinismo que o protege da solidão. Tony Soprano, o mais sensível da turma, derrama umas lágrimas pelos patos que o abandonaram enquanto comete assassinatos a seco. Carrie Mathison, de Homeland, sufoca a dor com remédios.

O dramaturgo Harold Pinter observou: “A linguagem é o instrumento que o ser humano inventou para não se comunicar”. Diálogos escondem sentimentos mais do que os revelam. A intuição pode ser extrapolada para os demais elementos da narrativa. Da mesma maneira que um bêbado tenta fingir sobriedade, um sofredor busca se convencer de que está tudo bem.

No filme “A Vida Secreta das Palavras”, a personagem tece um longo relato sobre quando ela, uma amiga e outras mulheres foram barbaramente violentadas por soldados em guerra. A personagem controla o choro ao máximo, um esforço descomunal para evitar a dor. Ela conta que uma das mulheres foi obrigada a matar a própria filha, e que o sofrimento da amiga era tão intenso que ela passou a torcer para que morresse. Um exemplo de que a dor extrema pode ser árida.

Não se trata aqui de um estudo sociológico sobre a alma sentimental da nossa gente. O que está em jogo é um interesse estético. Nossa tradição narrativa tem forte vínculo com o melodrama, que traz na própria palavra a proposta de sublinhar emoções intensas. Melo vem de melodia, indicando o fato de que, no melodrama, quando a heroína chora, o violino toca.

Também não resta dúvida de que chorar dá audiência. É muito provável que a curva do ibope suba na medida em que as lágrimas caem. O autor de novela Manoel Carlos, com sabedoria, disse que não é contratado para escrever novela, mas para fazer sucesso. Pela tradição ou pelo êxito, aumentar o tom sentimental das cenas faz sentido.

Mas não existe só uma fórmula, e o novo modelo que se anuncia – com mais canais vinculando narrativas de mais produtoras e autores – pressupõe explorar caminhos. O espectro do drama é amplo: existem mil maneiras de sofrer. Não se trata de tirar o valor da narrativa Tim Maia, que com sua voz poderosa bradava: mais grave, mais agudo, mais eco, mais retorno, mais tudo. Subir o volume e intensificar a emoção produz boas narrativas. Porém, no extremo oposto está a narrativa João Gilberto, para continuar na analogia musical. As cordas são alisadas com suavidade, e o som é tão sutil que qualquer chiado na sala se torna um ruído insuportável. Tudo menos: menos socos, menos explosões, menos bate-boca e menos pranto.

Entre os extremos, um amplo espectro de histórias esperando para ser contadas, nos mais variados graus de sentimento. E aí, para explorar esse novo mundo narrativo, talvez seja o caso de criar personagens que, em suas histórias pregressas, fizeram escândalo no supermercado e tomaram bronca da mãe: Engole o choro.

 

Por Ricardo Tiezzi, escritor e professor

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