Almanaque da Rosário — 10 maio 2016

Quem assistiu, no festival É Tudo Verdade, ao longo documentário, com três horas e meia de duração, “Tudo Começou pelo Fim”, de Luis Ospina, teve fortes razões para convencer-se de que o cinema colombiano vive mesmo fase de muita ousadia.

O filme empreende atrevida viagem geracional rara, por exemplo, no cinema brasileiro. Enfrenta, sem subterfúgios, temas complexos como o consumo de drogas. Quando tudo começa, Ospina está no hospital, no tempo presente, e é diagnosticado com câncer. Como havia iniciado o filme, pede a amigos que, caso morra, o concluam por ele. Como foi poupado pela “indesejada das gentes”, pode mergulhar-se em filmes domésticos (ou não) e em documentos visuais da geração que transformou a violenta cidade de Cali em berço do que a imprensa chamou de Caliwood (a Bollywood colombiana). O lema da turma era “sexo, drogas, rock, rumba e cinema”.

A partir de 1971, Ospina, hoje com 66 anos, somou-se ao cineasta Carlos Mayolo (1945-2007), ao inquieto escritor Andrés Caicedo (1951-1977) e a um grupo de atores, belas atrizes e técnicos para dirigir curtas e denunciar cineastas que faziam o que chamavam de “pornô cinema da miséria”. Ou seja, filmes que registravam os miseráveis de seus países para garantir espaço em festivais europeus. Depois, começaram a realizar seus longas-metragens. Caicedo não participou desta fase, pois partira cedo: suicidara-se aos 25 anos, deixando livros, peças de teatro e roteiros escritos desde os 14.

O Brasil aparece no longo percurso geracional da turma da Caliwood pelas evocações do longa “La Mansión de Araucaima” (Carlos Mayolo). José Lewgoy e Antônio Pitanga estavam (estão) no elenco. Se um dia “Tudo Começou pelo Fim” chegar aos nossos cinemas ou TVs, os brasileiros poderão desfrutar das loucas experiências dos colombianos de Cali e, ainda por cima, divertir-se com a cena em que Pitanga mostra seu membro viril e, depois, reclama da “falta de ensaios”, já que é “muito difícil trabalhar num filme falado em idioma que não é o seu”). Para um baiano-carioca, acostumado a filmar com Glauber Rocha, achar que faltava ordem no set, a coisa devia mesmo estar bem fora dos padrões.

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