Almanaque da Rosário — 10 maio 2016
Nélson Cavaquinho

O Prêmio Almanaque desta edição vai para “Nélson Cavaquinho”, o poema em imagens que Leon Hirszman realizou em 1969, e para o CD “Rei Vadio”, do sambista Rômulo Fróes, lançado recentemente pelo Selo Sesc. O compositor de versos perturbadores, como “Quando eu passo perto das flores/quase que elas me dizem/ vai que amanhã enfeitaremos o seu fim”, segue fertilizando o imaginário de quem não se submete às banalidades da indústria cultural.

O CD de Fróes é fruto das ideias contidas no ensaio “Rugas”, que o artista plástico, ensaísta e compositor Nuno Ramos publicou na revista “Serrote”. O texto, um denso mergulho na alma sonora do autor de “Juízo Final” e “A Flor e o Espinho”, está encartado no disco gravado pelo Sesc. Ao jogar “luz negra” sobre o artista, Nuno o define como “um caboclo albino”, cuja obra musical encontra afinidades com as gravuras sombrias de Oswaldo Goeldi.

Nélson Cavaquinho (1910-1986) está por merecer, mais do que nunca e agora, à luz das reflexões de Nuno Ramos, um longa-metragem. O ponto de partida, claro, deve ser o curta-metragem que Mário Carneiro fotografou, no final dos anos 1960, para Leon Hirszman. Nele, em imagens de beleza rara e em preto-e-branco, vemos o compositor, já ébrio, bebendo com amigos. O vemos, também, cercado por moradores (em especial crianças) do subúrbio carioca, cantando alguns de seus mais belos sambas. Além do curta de Hirszman, Nélson Cavaquinho pode ser visto no longa-metragem “Muito Prazer”, de David Neves (1979), no curta “Álbum de Música” (Sérgio Sanz, 1973) e “Noite de Samba (Carlos Tourinho e Clóvis Scarpino). Sua voz rascante canta em “A Falecida” (Hirzsman, 1965), “Mar Corrente” (Luiz Paulino, 1967), “O Casal” (Daniel Filho, 1975), “Castelos de Vento” (Tânia Anaya, 1998), “Sala de Montagem” (Umberto Martins, 2009), e “Deixa que Eu Falo” (Eduardo Escorel, 2007).

Um trio de jovens realizadores, identificados como “Os 3D Mentes”, criou, em 2001, uma animação de apenas dois minutos, chamada “Roda de Samba” para retratar “um breve momento da boemia carioca e toda a beleza e angústia da música de Nélson Cavaquinho”. Como se vê, o cinema brasileiro mantém uma significativa história de amor com Nélson Cavaquinho e sua dor.

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