Almanaque da Rosário — 30 novembro 2016
Comolli: ver e poder

O documentarista Evaldo Mocarzel divide sua vida cinematográfica em dois tempos: “antes e depois de ‘Ver e Poder’, a seminal coletânea de artigos de Jean-Louis Comolli. Neste livro, traduzido no Brasil, Comolli analisa as especificidades da linguagem do cinema, indo além do documentário.

Sua passagem pelo DOC SP, mostra de filmes e seminário, no final de setembro, mobilizou mais de 200 pessoas (muitos documentaristas, como Kátia Lund, Carla Gallo e Henry Gervaiseau), em maratona de dez horas no Espaço Unibes. Comolli é, além de pensador, diretor de vários filmes, alguns de ficção (como “La Cecilia”, sobre experiência anarquista no Brasil do começo do século XX) e, a maioria, documentários.

Entre seus filmes mais conhecidos, figuram “As Duas Marselhesas” e “A Sombra Vermelha”. Como lembra Mocarzel, o cineasta e pensador francês nos mostra “as possibilidades de abrir ‘fissuras’ na roteirização publicitária da sociedade do espetáculo”. Coube a ele, também, “dissecar o conceito de “auto-mise-en-scène”, trazido da antropologia para o cinema”. Mas sua ideia mais fértil – sabem os que, como Mocarzel, leram seus escritos mais famosos – discorre sobre métodos de “como filmar o inimigo”. Neste terreno, Comolli não só teorizou. Praticou suas ideias em filmes sobre Le Pen, o líder da Frente Nacional, de extrema-direita.

Estudioso incansável do cinema como “arte do tempo”, o pensador francês conhece em profundidade a obra de autores como Flaherty, Godard (com quem trabalhou nos anos de comando da “Cahiers du Cinéma” – 1966-1971), Buster Keaton, Vittorio de Seta, Guy Débord, Robert Krammer, Abbas Kiarostami, Jia Zhang-ke, José Maria Berzosa e Pedro Costa. Além de expor suas ideias politizadas e fertilizadas por ideais anarco-socialistas, Comolli mostrou ao público brasileiro seu mais recente filme, “Cinema Documental – Fragmentos de uma História”, no qual destaca imagens de anarquistas da Catalunha olhando, pela última vez, em direção à câmara de um cinegrafista. Dali a pouco, todos seriam mortos pelas forças falangistas de Franco.

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