Mostra Tiradentes homenageia o ator Babu Santana
© Leo Lara

Entre o volumoso Tim Maia (seu melhor papel no cinema) e o musculoso boxeador Maguila (seu novo desafio), Babu Santana emprestou graça e delicadeza a Ivan, um médico gay baiano muito do bem-casado com parceiro mais velho.

Quem escalou Babu, nome artístico que retirou de “Babuíno” (apelido de infância com o qual era zoado pelos colegas), foram os jovens cineastas Glenda Nicácio e Ary Rosa, mineiros radicados no Recôncavo Baiano, na bela cidade de Cachoeira. A dupla dirigiu o longa-metragem “Café com Canela”, convidado especial da noite de abertura da XXI Mostra de Cinema de Tiradentes, que acontecerá na histórica cidade da região do ouro de Minas Gerais, a partir desta sexta-feira, 19, até o sábado, 27.

Babu, cujo nome civil é Alexandre da Silva Santana, nasceu no Rio de Janeiro, em dezembro de 1979, e iniciou-se na carreira artística ainda nos tempos da escola secundária. Sequenciou sua vocação na trupe teatral Nós do Morro. Hoje, com 38 anos recém-completados, traz no currículo duas dezenas de longas-metragens, diversos curtas, algumas telenovelas (as últimas foram “I Love Paraisópolis”, “Malhação” e “Mundo Novo”) e muitas montagens teatrais.

O ator, que protagonizou – além de “Tim Maia” – o perturbador “Mundo Cão”, do paranaense Marcos Jorge (neste filme teve a célebre e alva Adriana Esteves como esposa), receberá, na noite de abertura da Mostra Tiradentes, um Troféu Barroco por sua trajetória e assistirá, junto com o público, ao filme “Café com Canela”. A plateia, claro, vai delirar ao ver Babu – intérprete de tantos bandidos, capatazes e policiais brutos – na pele do companheiro homoafetivo de um agente de viagens, com quem vive relação das mais saudáveis (só interrompida pela indesejada das gentes).

O público de Tiradentes assistirá, ainda, a mais dois filmes que têm Babu Santana no elenco: “Uma Onda no Ar” (Helvécio Ratton, 2002), sobre a Rádio Favela, de Belo Horizonte, e “Bandeira de Retalhos”, produção de Cavi Borges, que marca a volta do compositor, cantor e ator Sérgio Ricardo, de 85 anos, ao longa-metragem.

Babu não vai levar, por escrito, discurso (contundente ou doce) de agradecimento para ler no palco do Cine Tenda, na histórica Tiradentes. “Eu gosto de improvisar”, garantiu à Revista de CINEMA. “Vou dizer, na hora, o que me vier à cabeça”. Poderá, sim, num festival cujo tema curatorial é o “Chamado Realista”, falar das múltiplas dificuldades impostas a atores negros. Mas o fará “sem vitimismo”. Até porque, “não sou de ficar me lamentando, reclamando, me fazendo de vítima”.

Com prêmios importantes em seu currículo – como o Redentor, do Festival do Rio, e o Grande Othelo, da Academia Brasileira de Cinema – o ator que cresceu no Morro do Vidigal, não se incomoda em interpretar bandido, nem policial, nem capataz. Desde que “o personagem seja complexo”.

“Tenho tido muita sorte em minhas buscas” – rememora. “Tive a chance de interpretar personagens como o grande Tim Maia, assim como Santana, o protagonista de ‘Mundo Cão’, e estou me preparando (emagrecendo, inclusive) para viver o boxeador Maguila num filme escrito e produzido por Josmar Bueno Jr”.

“Os personagens mal encarados” – assegura, convicto – “me desafiam”. Basta ver o que coube a ele em “Estômago” (Marcos Jorge, 2007): “interpretei Bujiú, um chefe de cadeia, um assassino. Como humanizá-lo? Não foi difícil, pois tínhamos à mão um roteiro brilhante, reforçamos a maior paixão de meu personagem, a comida. Ele é um homem guloso, um apreciador de bons e fartos pratos”.

Babu lembra que o mineiro “Uma Onda no Ar” acabou sendo seu primeiro longa-metragem: “nele interpretei Roque, um dos quatro personagens principais”. O primeiro seria, se seu personagem não tivesse desaparecido na ilha de edição, o thriller “O Homem do Ano” (José Henrique Fonseca, só lançado em 2003), protagonizado por Murilo Benício.

“Brinquei com Murilo” – conta, com seu saudável bom humor – “que meu personagem, foi eliminado da narrativa, porque sendo ele, o homem do ano, queixudo como eu, seria demais ter dois queixudos num só filme”.

Junto com “Uma Onda no Ar” veio “Cidade de Deus” (2002), o polêmico e seminal filme de Fernando Meirelles. Nesta recriação da obra homônima de Paulo Lins, Babu interpreta Grande, o Big Boy, um papel pequeno. Mas “estar no filme foi fundamental”.

“Participei” – relembra – “das oficinas ministradas pela Kátia Lund e outros integrantes da equipe do filme. Aprendi muito. Foi importante para todos nós, integrantes do Nós do Morro, e para todos que integraram o numeroso elenco (“Cidade de Deus” concorreu, no Oscar, a quatro estatuetas e vendeu 3,2 milhões de ingressos).

Babu passou 15 de seus 38 anos totalmente imerso no Nós do Morro e atuou, também, no Nós do Cinema. Além de trabalhar, ele gosta de refletir sobre seu ofício, de buscar personagens que fujam do estereótipo. “Ninguém é 100% bom, nem 100% mau”, pondera. “Somos seres humanos com fraquezas e forças. Buscar nosso vínculo com o humano é o que me move. Para mim, o ser humano é plural, complexo”.

O ator exemplifica suas reflexões com o personagem que mais o projetou no cinema: Tim Maia, protagonista do filme homônimo de Mauro Lima (2014), que vendeu 810 mil ingressos.

“Para muita gente, o cantor vivia sempre doidão, aprontando todas. Não era bem assim. Ele tinha seus momentos difíceis, suas horas de recolhimento, de carinho, seus desafios cotidianos”.

Sobre o médico gay de “Café com Canela”, Babu pondera: “Foi maravilhoso fazer este filme, buscar o sotaque do Ivan, seu gestual, sua doçura e generosidade, sua relação com o companheiro. Ser gay é o de menos para o personagem, pois ele rompe com todos os estereótipos”. E mais: “no plano pessoal e familiar, foi uma alegria reencontrar a cidade de São Félix (separada de Cachoeira por um rio, o Paraguaçu), um dos cenários do filme, terra de meu bisavô e de meu avô. Encontrei parentes que não via há muito tempo. E pude desfrutar do trabalho comandado por equipe jovem e universitária (Glenda e Ary formaram-se na Universidade Federal do Recôncavo) e atuar junto com um time de grandes intérpretes”.

"Café com Canela" © Rosza Filmes

Em Tiradentes, Babu Santana se sentará no centro de mesa de debates que analisará sua trajetória no cinema, teatro e TV. Ele conta que seu papel em “Bandeira de Retalhos”, o quarto longa de Sérgio Ricardo (realizado quatro décadas depois de “Noite do Espantalho”) “é pequeno”, mas que foi uma alegria participar do filme, protagonizado, coletivamente, por seus colegas do Nós do Morro. Além do mais, “é uma alegria ser dirigido por Sérgio Ricardo, um cineasta e músico da maior importância”.

Por falar em música, Babu somou à sua carreira de ator uma nova atividade: a de cantor. “Depois de ‘Tim Maia’, nós queríamos continuar cantando soul music. Por isto, criamos o grupo Os Cabeças de Água Viva e estamos na estrada, fazendo shows e preparando, para breve, um EP com quatro músicas nossas” (a base do repertório do grupo são os sucessos de Tim Maia).

A banda Os Cabeças de Água Viva tem formação robusta: quatro vozes (a de Babu e três backing vocal), três metais, mais guitarra, baixo, bateria, teclado e percussão. Há dois anos na estrada, os “água-viva” querem, cada vez mais, profissionalizar-se. Mas, para Babu, tal profissionalização não significa abandonar o ofício de ator. Aliás, ele deseja estrear na direção cinematográfica. Para tanto, preparou-se em dezenas de cursos.

“Deixar minha carreira de ator, jamais”, assegura. “Continuo atuando em ‘Os Suburbanos’, no Multishow, e nosso projeto é realizar um longa-metragem a partir deste trabalho televisivo. E, claro, sigo me preparando para interpretar Maguila”.

Para estar em plenas condições físicas (exigência para dar vida a um pugilista), Babu, que chegou a 125 kg para atingir a circunferência abdominal de Tim Maia, terá que pesar 90. Está com 105. Tem que perder, portanto, 15. “Para alegria da minha mulher”, diz, com seu sincero e afetuoso bom humor, herdado do pai, “muito tranquilão”.

“Na minha casa, numa favela da Zona Sul carioca” – relembra – “a brava era minha mãe, a última palavra era sempre dela. Tivemos uma vida modesta, mas nunca passamos fome. Meus pais me criaram com muito carinho”.

O ator admite que é doce e generoso. Mas avisa: “quando pisam no meu calo, sou ardido”. Será?

Na Mostra Aurora, sete longas que atendem ao “chamado realista” disputam Troféu Barraco

A 21ª Mostra de Cinema de Tiradentes vai apresentar, em sua principal mostra competitiva – a Aurora –, sete longas-metragens. Três paulistas, dois mineiros, um paraibano e um goiano.

Os filmes, todos 100% inéditos, serão avaliados por júri formado por críticos e professores universitários. Os curadores – Cleber Eduardo e Lila Foster – detectaram, nos filmes submetidos à seleção tiradentina, sintonia com um Brasil imerso em tempos sombrios, de crise.

Cleber Eduardo, que define a Mostra como um festival “da gana e não da grana”, verificou, este ano, em seu trabalho curatorial, “atenção cada vez maior de parcela significativa dos espectadores para que os filmes se conectem com elementos da realidade, em especial com as recentes crises política e social”. E estabeleçam, também, sintonia fina com “as crescentes discussões sobre a representação das minorias”. Daí, o sintético tema “Chamado Realista”.

A ficção ocupa quatro vagas entre os selecionados. Há dois documentários e um filme experimental. Minas Gerais marca presença com os ficcionais “Baixo Centro”, de Ewerton Belico e Samuel Marotta (com Alexandre de Sena, Cris Moreira, Bárbara Colen e Renan Rovida), e “Imo”, de Bruna Scheb Correa (com Giovanna Tintori, Mc Xuxu e Helena Frade).

Da Paraíba, chega o longa de estreia de André Morais, “Rebento”. No elenco, alguns dos mais festejados atores do Estado (os experientes Zezita Matos, Fernando Teixeira, Ingrid Trigueiro e Verônica Cavalcante).

De Goiás, vem a ficção “Dias Vazios”, de Robney Almeida, com elenco liderado pela ótima Carla Ribas, de “A Casa de Alice” (Chico Teixeira, 2007) e “Campo Grande” (Sandra Kogut, 2016).

São Paulo – note-se a total ausência do Rio de Janeiro, principal centro audiovisual do país – se faz representar por dois documentários e um experimental. Na primeira categoria, estão “Madrigal de um Poeta Vivo”, de Adriana Barbosa e Bruno Castanho (sobre o escritor Tico) e “Ara Pyau – A Primavera Guarani”, de Carlos Eduardo Magalhães. Este filme tem os destinos de nossos povos originários como foco, uma vez que documenta a menor reserva indígena do país, a Tekoa Pyau, com seus 800 integrantes. Eles vivem dentro do perímetro urbano da maior metrópole da América do Sul, a capital paulista.

“Lembro Mais dos Corvos”, o experimental de Gustavo Vinagre, registra a vida de uma mulher trans contada numa noite de insônia.

 

Por Maria do Rosário Caetano

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