Mostra Ecofalante exibe filmes de Herzog, Jia Zhangke, Temple, Pannebaker e Tendler
“Safari”, de Ulrich Seidl

Dezoito filmes de Werner Herzog, um exocet visual do austríaco Ulrich Seidl, um longa produzido pelo guitarrista Carlos Santana, para resgatar a trajetória de líder feminina dos Direitos Civis, um documentário de Jia Zhangke, outro de D.A. Pennebaker e mais uma superprodução verde do ator Jacques Perrin.

Estas são algumas das atrações da gigantesca maratona audiovisual montada pela ONG Ecofalante, para comemorar o Dia Internacional do Meio-Ambiente (5 de junho). Em 82 salas espalhadas por diversos bairros (centrais e periféricos) paulistanos, serão mostrados, até 13 de junho, 121 filmes de longa, média e curta-metragem, oriundos de 31 países, com destaque para a produção latino-americana e brasileira.

Como os curadores da Mostra Ecofalante, que chega à sua sétima edição, adotam conceitos largos, seis temas, em especial, são objeto de trabalho dos cineastas selecionados: campo, cidade, povos e lugares, consumo, preservação e o mundo do trabalho. Além de mostrar filmes, a Ecofalante promove debates, seminários, oficinas e atividades para estudantes e crianças. No núcleo reflexivo e profissional, além de dois workshops com Jorge Bodanzky (“A Prática do Cinema Documental”) e Edson Grandioli (“O Audiovisual na Sala de Aula: A Arte a Favor do Meio Ambiente), haverá palestras de nomes do quilate de Vincent Carelli, criador do Vídeo nas Aldeias e autor de filmes notáveis como “Corumbiara” e “Martírio”, os professores Marco Napolitano (USP) e Gabriel Tonelo (Unicamp), a montadora Cristina Amaral, entre outros.

Um dos debates mais instigantes terá como foco o documentário “Burros Mortos Não Temem Hienas”, produção sueca que, além de título poderoso, reflete sobre questão desafiadora: “Como a Etiópia, país que exporta alimentos, necessita de ajuda humanitária para combater a fome de seu povo?”

Além de mostrar clássicos herzoguianos (“Fata Morgana”, “Aguirre”, “FitzCarraldo”, “Nosferatu”) e títulos raros (“Hércules”, “Julianne Cai na Selva”, “Medidas Contra Fanáticos”, “Wodaabe, Pastores do Sol”), a sétima edição da Ecofalante vai prestar tributo ao seringueiro Chico Mendes, assassinado há três décadas. O defensor do meio-ambiente, nascido na Amazônia, será lembrado com os filmes “Chico Mendes, 30 Anos sem Ele”, de Adrian Cowell, e “Crianças da Amazônia”, de Denise Zmethol. E um debate, com participação de integrantes do Conselho Nacional de Seringueiros e da Fundação Chico Mendes, lembrará a importância de seu trabalho.

Há duas mostras competitivas na Ecofalante: uma de recorte latino-americano, e uma de curtas realizados por estudantes brasileiros. Nove filmes chegam de sete países da América Latina, para somar-se a 19 competidores brasileiros (entre estes, “Dedo na Ferida”, de Sílvio Tendler, “Ser Tão Velho Cerrado”, de André D’Elia, “Baronesa”, de Juliana Antunes, “Krenak”, de Rogério Correia, e “Sob a Pata do Boi”, de Márcio Isensee e Sá).

Os hispano-americanos são “Cidade Maia”, de Andrés Padilla (México), “Fronteira do Invisível”, de Nicolas Richat e Nico Muzi, e “Corps”, de Pablo Polledri (ambos da Argentina), “A Selva o Conhece Melhor que Você Mesmo”, de Juanita Onzaga (Colômbia), “Velha Caveira”, de Kiro Russo (Bolívia), “Eterno Retorno”, de Roberto Matheus, e “Terra Solitária”, de Tiziana Panizza (ambos do Chile), “Berta Vive”, de Kátia Lara (Honduras) e “Rio Verde, o Tempo dos Yakurunas”, de Álvaro e Diego Sarmiento (Peru).

Entre os os longas programados, um não deve deixar ninguém indiferente: o incômodo e provocador “Safari”, de Ulrich Seidl. Ficção em diálogo permanente com o documentário, o filme (já comprado para breve lançamento no circuito brasileiro) mostra homens brancos e ricos (austríacos e alemães), cuja maior paixão existencial é caçar zebras, girafas, gnus e outros exemplares nobres da fauna africana. Munidos com armas de última geração, eles passam horas e horas preparando o tiro mortal (a meta é atingir o coração) e, em seguida, posando para fotos com o animal abatido. Em suas confortáveis moradas, servidos por empregados negros, eles enunciam os princípios que regem suas vidas de caçadores. Se julgam benfeitores do equilíbrio ecológico. O cineasta monta quadros que lembram naturezas mortas e, de forma incômoda (e até cínica), envolve os negros africanos (o filme foi realizado na Namíbia), vistos comendo as migalhas que sobram depois que a cabeça do bicho vira troféu de caça, suas peles são retiradas e suas partes nobres destinadas a seus donos.

Em caminho oposto, navega o ator francês Jacques Perrin. Depois de atuar em filmes de Valério Zurlini, Jacques Demy e Giuseppe Tornatore (“Cinema Paradiso”), ele transformou-se em ardoroso defensor da natureza. E começou a comandar superproduções verdes que encantam amplas plateias, mundo afora. Caso de “Migração Alada”, “Microcosmos” e “Oceanos”. Não se deve esquecer outro filme do produtor Perrin que correu mundo e ganhou um Oscar (“Preto-e-Branco em Cores”, de Jean-Jacques Annaud). Agora, chegou a vez da Ecofalante mostrar mais uma superprodução do ator, “As Estações” (parceria com Jacques Cluzaud).

Um dos filmes mais vibrantes e esperançosos da Sétima Ecofalante é “Dolores”, documentário produzido pelo guitarrista chicano Carlos Santana. O filme, de Peter Bratt, reconstitui a história de uma mulher muito especial – a também chicana Dolores Huerta. Filha de pais mexicanos, ela cresceu em gueto latino nos EUA e tornou-se combativa defensora de trabalhadores braçais (vindos do México), que prestavam serviços a preço vil e em condições sub-humanas. Viva, aos 87 anos, Dolores revê sua história e recebe homenagens, inclusive do então presidente Barack Obama que, bem-humorado, confessa ter se inspirado no lema da líder chicana ao criar seu slogan, “yes, we can”.

Da China, chega a Ecofalante, um média-metragem de Jia Zhangke: “Os Hedonistas”. O mais importante cineasta do grande país asiático, acompanha três amigos que, demitidos de uma fábrica de carvão, vão trabalhar em parque de diversão. Nunca é demais lembrar que um dos mais belos trabalhos (“O Mundo”) do realizador biografado por Walter Salles (“Jia Zhangke, um Rapaz de Fenyang”) ambienta-se em parques de diversão chineses, réplicas de maravilhas arquitetônico-turísticas universais.

Um filme italiano (“N-Água”) deve provocar debate ardente (dia 2, Reserva Cultural, 20h) na Ecofalante. Dirigido por Pietro Balore e Martina Rosa, o documentário discute a segunda (e grande) intervenção proposta para rasgar a geografia da América Central. A China se comprometeu a construir um novo canal interoceânico, nos moldes do realizado pelos EUA no Panamá, só que, agora, em território nicaraguense.

Por fim, vale destacar outra promessa digna de conferência do festival, que se mostra plural e grandioso em sua ambição de sensibilizar os brasileiros para a causa verde. Aqueles que acreditam que “o meio ambiente começa no meio da gente”, decerto vão fruir – no segmento “Povos & Lugares” – o novo documentário do inglês Julien Temple: “Habaneros”. Trata-se de filmusical rodado em Havana, capital cubana. Ao longo de 136 minutos, o autor de “Vigo, Paixão pela Vida”, mostra os habitantes da cidade caribenha vivendo suas vidas ao som de salsas, mambos, jazz, rumbas e hip-hop. Para compor seu painel de Havana e de seus habitantes, ele usa, além de entrevistas, imagens de arquivo, animações e trechos de filmes.

 

Por Maria do Rosário Caetano

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