IMS Paulista apresenta retrospectiva de Joaquim Pedro de Andrade
Guerra Conjugal

Os 30 anos da morte do cineasta Joaquim Pedro de Andrade (1932-1988) serão lembrados no Instituto Moreira Salles paulistano, de 6 de setembro até o dia 23, com retrospectiva completa de sua obra, debates e lançamento da segunda edição de “O Imponderável Bento Contra o Crioulo Voador”, pela Editora Todavia.

Autor de obra enxuta, mas densa, Joaquim Pedro não teve tempo de levar o santo levitador que protagoniza “O Imponderável Bento”, seu derradeiro roteiro (escrito com Fernando Coni Campos), às telas. Um câncer o matou, privando o país de um de seus mais brilhantes criadores.

O diretor de “Macunaíma”, carioca e filho de uma das mais tradicionais famílias intelectuais mineiras (os Mello Franco de Andrade) e seu parceiro baiano, o erudito e inventivo Fernando Coni Campos (1933-1988), morreram cedo (e no mesmo ano). Ele, aos 56 anos. Coni, aos 55.

Integram a retrospectiva de Joaquim Pedro todos os seus longas e curtas-metragens. Há consenso de que “Macunaíma”, versão tropicalista do romance de Mário de Andrade, é sua obra mais bem-sucedida. Um filme complexo, inventivo, politizado e que, mesmo assim, conseguiu amplo diálogo com o público. Foi o maior sucesso comercial da carreira do artista. Fruto do diálogo (erudito) do realizador com a chanchada, “Macunaíma” levou plateias ao riso solto com seus protagonistas Grande Otelo e Paulo José, representações (preta e branca) do herói sem nenhum caráter.

À medida que o tempo passa, porém, outro longa do cineasta – “O Padre e a Moça”, recriação do poema “Negro Amor de Rendas Brancas”, de Carlos Drummond de Andrade, vai ganhando cada vez mais prestígio e admiradores. Protagonizado por Paulo José, o padre, e Helena Ignez, a moça, o filme, em preto-e-branco arrebatador (com imagens assinadas pelo grande Mário Carneiro), só faz crescer em suas revisões. O primeiro longa ficcional de Joaquim Pedro (ele estreara com o documentário “Garrincha, Alegria do Povo”) é fruto de diálogo com a obra do francês Robert Bresson (1901-1999). Em seus tempos de estudante no IDHEC (Instituto de Altos Estudos Cinematográficos, hoje, Femis), na França, Joaquim mergulhou na obra do autor de “Mouchette”. Paulo José não se cansa de lembrar a câmara de Mário Carneiro, que o perseguia, filmando bem rente à sua nuca, pelos campos gerais de Minas.

A retrospectiva do IMS poderá iniciar processo de reavaliação de “Guerra Conjugal” – o “melhor filme brasileiro de todos os tempos”, na opinião do escritor João Gilberto Noll –, que Joaquim Pedro realizou a partir da compilação de contos do “vampiro de Curitiba”, o recluso Dalton Trevisan. O filme, vencedor do Festival de Brasília do Cinema Brasileiro, em 1975 (derrotando o vibrante thriller pop gay “A Rainha Diaba”, de Antônio Carlos Fontoura), caiu em imerecido ostracismo.

Na quinta-feira, 6, a mostra retrospectiva andradiana abriu às 19h00, justo com a exibição de “Guerra Conjugal”. O filme foi tema de debate com o montador Eduardo Escorel (um dos parceiros mais importantes do cineasta homenageado) e a professora Luciana Corrêa de Araújo, da UFSCar (Universidade Federal de São Carlos), que dedicou seu doutorado à obra de Joaquim Pedro.

Quando “Guerra Conjugal” foi realizado, em meados da década de 1970, a chamada pornochanchada respondia, numericamente, por dois terços da produção cinematográfica nacional. E pelas maiores bilheterias. Joaquim Pedro resolveu, então, dialogar com os filmes eróticos, em maioria comédias de costume temperadas com elementos picantes (mas nada explícitos, o que só aconteceria em 1981, com “Coisas Eróticas”, de Raffaele Rossi e Laente Calicchio).

Apaixonado pela literatura brasileira (seus filmes dialogam com Gilberto Freyre, Manuel Bandeira, Drummond, Cecília Meirelles, Mário de Andrade e Oswald de Andrade), Joaquim Pedro resolveu escalar time de atores de primeira linha (Lima Duarte, Ítala Nandi, Carlos Gregório, Carmen Silva, Jofre Soares, Analu Prestes) e, com eles, encenar as picantes, e sintéticas, histórias trevisanas. Dezesseis contos (entre elas, “Cafezinho com Sonho”, “A Sopa”, “Na Pontinha da Orelha”, “Chapeuzinho Vermelho”, “Anjo da Perdição”) foram somados num todo orgânico e deram origem a filme poderoso. Acumulariam, ele e sua equipe técnica e artística, dezenas de prêmios. Além do Festival de Brasília, conquistariam o Air France de Cinema, a Coruja de Ouro e o Prêmio Governador de Estado de S. Paulo. E o filme confirmaria sua força popular (vendeu 700 mil ingressos).

Eduardo Escorel, que montou “Guerra Conjugal”, sintetizou, para a Revista de CINEMA, sua percepção do quinto longa andradiano: “Erotismo e libertinagem, maldade e perversidade são temas dos filmes de Joaquim Pedro, desde ‘O Padre e a Moça’ (1966), presentes também em ‘Macunaíma’ (1969) e ‘Os Inconfidentes’ (1972)”. Mas “é só em ‘Guerra Conjugal’ (1975), que essa temática acaba por aflorar, ocupando a frente da cena. Joaquim Pedro encontrou, nos 16 contos de seis livros de Dalton Trevisan, inclusive ‘Guerra Conjugal’, personagens, situações e diálogos que editou e transformou em sua resposta às pornochanchadas, predominantes na época, assim como às convenções e deformações típicas de uma sociedade repressiva e autoritária”.

Em 1976, portanto, pouco depois de “Guerra Conjugal”, Joaquim Pedro aprofundaria seu diálogo com a comédia erótica brasileira, ao dirigir o atrevidíssimo “Vereda Tropical”, um dos quatro episódios de “Contos Eróticos”. Esta produção da Lynx Filmes, realizada a partir de narrativas curtas, apimentadas sexualmente e premiadas pela revista Status, acabou interditada pela Censura. Por causa de “Vereda Tropical”, o episódio de Joaquim Pedro. A melancia, objeto dos desejos eróticos de um professor universitário, foi parar no cartaz do filme (nela, se esculpiu o desenho de uma vagina). O tal professor (Cláudio Cavalcanti, então um dos mais cobiçados galãs da Rede Globo) vive na Ilha de Paquetá e lá desenvolve sua parceria com o fruto tropical, verde por fora e vermelho por dentro.

Contos Eróticos” teve que esperar três anos (e a abertura política “lenta e gradual” de Geisel e Figueiredo) para ser liberado e estrear no Festival de Brasília de 1979 e, depois, nas telas. A sessão festivaleira do filme, que só ganhou o Candango de melhor atriz coadjuvante (para a diabólica e empoderada, no filme, Carmen Silva), causou imenso rebuliço. A então titular da Secretaria de Educação e Cultura do DF, Eurides Brito, era adventista do sétimo dia, e ficou escandalizada com o que viu.

Outro filme da retrospectiva de Joaquim Pedro que deve ser prioridade de todo cinéfilo é “Os Inconfidentes”, inspirado nos “Autos da Devassa” e no poema “O Romanceiro da Inconfidência”, de Cecília Meirelles. Trata-se de um dos melhores (o melhor?) filmes históricos brasileiros. E, com ele, Joaquim Pedro driblou a Censura de forma brilhante. O filme fala de Tiradentes (um José Wilker meio exasperado) e de seus pares na Conjuração Mineira, mas, na verdade, a narrativa reflete sobre o Brasil dos anos da ditadura militar implantada em 1964. Só que, desta vez, o poder verde-oliva não entendeu a mensagem subliminar enredada pelo filho de Rodrigo de Mello Franco, criador do SPHAN (Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional). Todos os anos, ao longo da terrível década de 1970, a TV Nacional/Radiobrás, emissora estatal, exibia o filme no feriado de 21 de Abril (Dia de Tiradentes e da inauguração de Brasília).

Em sua sequência mais bela (e delirante), “Os Inconfidentes” mostra a Rainha Maria I, dita a Louca, num cárcere brasileiro, justo aquele em que os conjurados (à frente Tiradentes) estavam presos. A rainha, mãe do regente Dom João VI, há que se lembrar, jamais realizou tal visita.

Outro debate enriquecerá a retrospectiva de Joaquim Pedro de Andrade no IMS. Dia 21 de setembro, a partir das 19h30, serão exibidos os curtas-metragens “Brasília, Contradições de uma Cidade Nova” (1967, 23 minutos) e “Vereda Tropical” (18 minutos), seguidos de debate com Eliane Robert Moraes e Carlos Augusto Calil, e de autógrafos na nova edição de “O Imponderável Bento Contra o Crioulo Voador”. O livro foi organizado e prefaciado por Calil.

Os outros longas de Joaquim Pedro – “Garrincha Alegria do Povo” e “O Homem do Pau Brasil” – também serão exibidos com cópias restauradas. E haverá espaço para os curtas “Couro de Gato” (parte do longa “Cinco Vezes Favela”, de 1962), “O Poeta do Castelo” (sobre Manuel Bandeira), “O Mestre de Apipucos” (sobre Gilberto Freyre), “Cinema Novo” (raridade encantadora e obrigatória, realizada para a TV francesa), “A Linguagem da Persuasão” e “O Aleijadinho”. Com este filme, Joaquim prestou tributo à maior paixão de seu pai, a cidade de Ouro Preto, antiga Vila Rica.

 

Por Maria do Rosário Caetano

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