Festival de Gramado anuncia os longas concorrentes
“Hebe, a Estrela Brasileira”, de Maurício Farias

Por Maria do Rosário Caetano

Gramado vai ferver de 16 a 24 de agosto. A edição de número 47 do mais badalado festival de cinema do país poderia estar em crise, como a economia brasileira. Ou abalada pela perda de dois de seus curadores, primeiro, a argentina Vera Piwowarski, depois, o paulista Rubens Ewald Filho. Da trinca curadora, restou o gaúcho Marcos Santuário.

Só que, ao invés de sofrer baque por dolorosas perdas humanas e devido aos parcos investimentos nacionais em cultura, o 47º Festival de Gramado de Cinema Brasileiro e Latino anuncia espantosa robustez e gastos de R$ 4 milhões, mesmo orçamento de anos anteriores, pré-crise brasileira. E mais: uma seleção com títulos recheados por atores de prestígio internacional, como a espanhola Carmen Maura, a portuguesa Maria de Medeiros, o alemão Peter Ketnath, o argentino Jean-Pierre Noher e o chileno Alfredo Castro, e nacional, com Andrea Beltrão, Marcélia Cartaxo, Marco Ricca, João Miguel e Paulo Miklos.

Em outra seara, pela qual o Festival de Gramado trilha satisfeito – a das homenagens – os nomes escolhidos são prova de diversidade e credibilidade artística. O Prêmio Oscarito caberá ao astro black Lázaro Ramos, de 40 anos, o Troféu Eduardo Abelim, à atriz e diretora Carla Camurati, 58, o Kikito de Cristal ao astro argentino Leonardo Sbaraglia, 49 (nas telas no almodovariano “Dor e Glória”) e o Troféu Cidade de Gramado ao produtor Maurício de Sousa, 83, pai da Turma da Mônica, que enreda o público com seus “Laços” (o filme mauriciano foi visto em suas duas primeiras semanas por 800 mil espectadores).

A seleção de longas-metragens brasileiros presta atenção à diversidade regional (há produções do Ceará, DF e Rio Grande do Sul, que somam-se ao eixo Rio-SP) e mobiliza filmes de grande produção e elencos, sem esquecer as produções mais modestas e com intérpretes menos conhecidos. Mas ignora a força das mulheres na direção de novos longas. Não há um único nome feminino entre os oito diretores que assinam os filmes escolhidos.

Na categoria cinema-espetáculo (pelos orçamentos e atores mobilizados), estão “Hebe, a Estrela Brasileira”, de Maurício Farias, e “Veneza”, de Miguel Falabella. A cinebiografia da rainha do sofá televisivo nacional fará de Gramado sua plataforma de lançamento, já que o filme estreia semanas depois. Andréa Beltrão interpreta a apresentadora-cantora-socialite paulistana e com ela atuam Marco Ricca, Karine Teles, Gabriel Braga Nunes, Danton Mello, Daniel Boaventura, entre muitos outros.

Em “Veneza”, o ator, dramaturgo e diretor Miguel Falabella, recria sob atmosfera garciamarqueziana e tempero felliniano, peça teatral do argentino Jorge Accame. À frente do elenco, Carmen Maura, companheira de estrada de Pedro Almodóvar e Carlos Saura, que soma-se a Dira Paes, Eduardo Moscovis, Carol Castro, André Mattos e Danielle Winits. Para atender a pedido da protagonista de “Mulheres à Beira de um Ataque de Nervos”, que não queria tomar vacina (obrigatória para desembarcar no Brasil), as filmagens foram transferidas para Montevidéu e complementadas na Itália. Carmen Maura tem 73 anos. Será que desta vez ela vai tomar a vacina e desembarcar no Brasil? Falabella, que errou a mão em seu primeiro longa, a comédia “Polaróides Urbanos”, desta vez, vem cercado por expectativa das mais positivas.

Do Ceará, chega “Pacarrete”, do jovem Allan Deberton, filme que representou o Brasil no Festival de Xangai, na China. À frente do elenco, no papel-título (de uma bailarina sonhadora e envelhecida), está a paraibana Marcélia Cartaxo, Urso de Prata de melhor atriz no Festival de Berlim 1986, pela inesquecível Macabeia (“A Hora da Estrela”). Com ela, atuam as conterrâneas Soia Lira e Zezita Matos, o grande ator baiano, João Miguel, e os cearenses Samya de Lavor e Rodger Rogério.

O brasiliense “O Homem Cordial” trará de volta a Gramado o cineasta Iberê Carvalho, que fez boa figura, na Serra Gaúcha, com “O Último Cine Drive-In”. Desta vez, ao invés de uma homenagem ao cinema, Iberê volta sua câmara ao mundo da música. Vocalista e líder de uma banda de rock vê sua vida revirada do avesso quando um vídeo, que o acusa de envolvimento na morte de um policial, viraliza na internet. No elenco, o astro titã Paulo Miklos (“O Invasor”), Dandara de Morais, Thaíde, Bruno Torres, Theo Werneck e Murilo Grossi.

O representante do Rio Grande do Sul, “Raia 4”, de Emiliano Cunha, envolve adolescentes, natação e segredos. No elenco, nomes pouco conhecidos nacionalmente, como Brídia Moni, Kethelen Guadagnini, Rafael Sieg, José Henrique Ligabue e Arlete Cunha. Duas atrizes, porém, são conhecidas dos cinéfilos: Fernanda Carvalho Leite, por ter trabalhado com Carlão Reichenbach (“Garotas do ABC” e “Falsa Loura”), e Fernanda Chicolet, por ser, além de atriz, diretora de curta doidão, que fez muito sucesso nos festivais (“Demônia – Melodrama em 3 Atos”, parceria com Cainan Baldez).

A natação também aparece no paulistano “Vou Nadar Até Você”, de Klaus Mitteldorf (codireção de Luciano Patrick). Uma jovem fotógrafa (Bruna Marquezine) acredita ter descoberto quem é seu pai e, determinada, sai de Santos, a nado, rumo a Ubatuba, onde espera encontrar o homem por quem procurou durante toda a vida. Além de Marquezine, o elenco conta com o alemão Peter Ketnath (“Cinema, Aspirinas e Urubus”) e Fernando Alves Pinto (“Terra Estrangeira”).

“30 Anos Blues”, dos paulistanos Andradina Azevedo e Dida Andrade, tem sua dupla diretora também no elenco, numeroso e pouco conhecido do grande público. A sinopse do filme assegura que “a síndrome de Peter Pan se caracteriza por um conjunto de comportamentos apresentados por adultos que não querem deixar de ser crianças”. Nos créditos artísticos, estão Carol Melgaço, Julia Ianina, Claudia Alencar, Bruna Yamatogue, Adriano Toloza, Fabio Penna, Danielle Rosa, Pedro Lopes, Ricardo Dantas, Bruno Perazio, Larissa Korolkovas, Juan Manuel Tellategui, Ruy Prado, Mariana Hein.

O filme “Bacurau”, de Kleber Mendonça e Juliano Dornelles, é o convidado para a sessão inaugural do festival gaúcho. Os dois longas anteriores de Mendonça estiveram em Gramado. “O Som ao Redor”, na competição, e “Aquarius”, como hors concours.

A mostra competitiva latino-americana conta com sete filmes vindos de sete países (Argentina, Bolívia, Chile, Costa Rica, Equador, México e Uruguai).

O representante mexicano tem trunfo poderoso: a pintora Frida Kahlo (1907-1954), ícone planetário, paixão de Madonna e de 99% das feministas dos quatro quadrantes. “Duas Fridas”, de Ishtar Yasin (diretora de origem russa), recria, com liberdade, a relação entre a pintora azteca e sua enfermeira costarriquenha, Judith Ferreto. Judith cuidou de Frida em sua venerada e derradeira morada, a Casa Azul, hoje, um dos museus mais visitados do mundo. Como um espelho, a enfermeira será, também, cuidada por uma mulher, em sua Costa Rica natal. Maria de Medeiros interpreta Judith e a diretora Ishtar Yasin dá vida a Frida Kahlo.

Do Chile, vem “Perro Bomba”, de Juan Cáceres. O filme tem no elenco o grande Alfredo Castro, ator fetiche de Pablo Larraín. Para contar a história de jovem imigrante haitiano, que enfrenta a xenofobia dos habitantes de Santiago, o diretor convocou Steevens Benjamin, Blanca Lewin, Gastón Salgado, Junior Valcin, Erto Pantoja e Daniel Antivilo.

“La Forma de las Horas”, de Paula de Luque, é o representante da Argentina. O longa reúne Julieta Díaz, Jean Pierre Noher, ator que Gramado festeja há quase duas décadas (inclusive com um Kikito de Cristal), e Maria Paula Robles. A trama se passa em apenas 24 horas, tempo necessário para construir a crônica de um desmoronamento amoroso.

“Muralla”, representante da Bolívia, tem na direção Rodrigo Patiño Sanjines. Um filme sobre Coco “Muralla” Rivera, grande goleiro dos anos 90, hoje motorista de micro-ônibus, alcóolatra e metido em complicações. No elenco, Fernando Arze Echalar, o argentino Pablo Echarri (El Cuervo no thriller “Plata Quemada”) e Cristian Mercado.

Do Uruguai, chega “En el Pozo”, de Bernardo e Rafael Antonaccio, um “thriller sobre violência de gênero, com Paula Silva, Augusto Gordillo, Rafael Beltrán e Luis Pazos.

O equatoriano “A Son of Man – La Maldición del Tesoro de Atahualpa”, de Jamaicanoproblem (isto mesmo!), mostra um jovem que se une ao pai para buscar, na selva, tesouro perdido do inca Atahualpa. Só que demônios familiares viajarão com eles. No elenco, Luis Felipe Fernandez-Salvador y Boloña, Lily van Ghemen e Luis Felipe Fernandez.

A Costa Rica volta a Gramado com “El Despertar de las Hormigas”, de Antonella Sudasassi Furnis. Em pauta, o questionamento de papeis atribuídos, como obrigação, às mulheres, ou seja, ser boa esposa, boa nora e boa mãe. Com Daniela Valenciano, Leynar Gómez, Isabella Moscoso e Avril Alpízar.

Além das duas competições de longas-metragens (brasileiros e latino-americanos), Gramado terá duas competições de curtas, uma nacional e outra gaúcha. Abaixo, os filmes selecionados.

Curtas-metragens brasileiros

.“A Pedra”, de Iuli Gerbase (RS)
.“Teoria Sobre um Planeta Estranho”, de M. A. Pereira (MG)
. “O Balido Interno”, de Eder Deó (PE)
. “Marie”, de Leo Tabosa (PE)
. “Menino Pássaro”, de Diogo Leite (SP)
. “O Véu de Amani”, de Renata Diniz (DF)
. “Invasão Espacial”, de Thiago Foresti (DF)
. “A Ética das Hienas”, de Rodolpho de Barros (PB)
. “E o que a Gente Faz Agora?”, de Marina Pontes (BA)
. “A Mulher que Sou”, de Nathália Tereza (PR)
. “Apneia”, de Carol Sakura e Walkir Fernandes (PR)
. “Um Tempo Só”, de Lane Alves (SP)
. “Amor aos Vinte Anos”, de Felipe Poroger e Toti Loureiro (SP)
. “Sangro”, de Tiago Minamisawa, Bruno H. Castro, Guto BR (SP)

Mostra Assembleia Legislativa (Gauchão)

. A Maior Locadora do Mundo”, de Matheus Mombelli
. “Dia de Mudança”, de Boca Migotto
. “É Assim que Você Parece”, de Pedro Valadão
. “Êles”, de Roberto Burd
. “Endotermia”, de Emiliano Cunha
. “Kerexu”, de Denis Rodriguez e Leonardo Remor
. “Linha Travessão”, de Douglas Roehrs
. “O Carnaval de Gregor”, de Kiwi Bertola
. “O Menino da Terra do Sol’’, de Michel Marchetti
. “Quero Ir para Los Angeles”, de Juh Balhego
. “Só Sei que Foi Assim”, de Giovanna Muzel
. “Sonata’’, de Felipe Diniz
. “Stardust”, de P. Zaracla
. “Tempestade e A Janela de Papel”, de Viviane Locatelli
. “Tesourinho’’, de Bruna Dreyer Nery
. “Veraneio”, de Nelson Diniz
. “Who’s That Man Inside My House?”, de Lucas Reis
. “Buitenlanders/Estrangeiros”, de Cassio Tolpolar
. A Pedra”, de Iuli Gerbase
. “Budapest_V4_Final2”, de Gabriel Motta, de Cassio Tolpolar

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