Mostra SP consagra cinema feminino
Ana Luiza Azevedo © Mario Miranda Filho

Por Maria do Rosário Caetano

O júri internacional da 43ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo – formado com a atriz portuguesa Maria de Medeiros, a produtora francesa Xénia Maingot, e os cineastas Lisandro Alonso, da Argentina, e Beto Brant, do Brasil – fez a coisa certa. Premiou três filmes internacionais de altíssima qualidade, com personagens femininas fortes e mulheres em seu comando: o macedônio “Honeyland”, o alemão “System Crasher” e o australiano “Dente de Leite”.

A Crítica também escolheu filmes dirigidos ou codirigidos por nomes femininos: o gaúcho “Aos Olhos de Ernesto”, o cearense “Currais” e o macedônio “Honeyland”, único duplamente premiado. Já o Público guiou-se pelo prazer da cinefilia e consagrou vencedores de Cannes, o sul-coreano “Parasita”, e de San Sebastián, o brasileiro “Pacificado”. Consagrou, também, uma grande causa, o reflorestamento da costa africana, tema de “A Grande Muralha Verde”, e um ídolo do rock brasileiro, que morreu cedo, “Chorão, o Marginal Alado”.

“Honeyland”, de Tamara Kotevska e Ljubomir Stefanov, filme indicado pela Macedônia (ex-Iugoslávia) para disputar vaga no Oscar internacional, é um documentário arrebatador. Sua protagonista, a quase sexagenária apicultora Hatidze, vive numa casa de pedra com sua mãe octogenária, quase cega e doente. O mel de abelha, que extrai de forma artesanal, garante o sustento das duas camponesas solitárias.

Um dia, uma família itinerante, numerosíssima e ruidosa, instala-se no sossegado território de Hatidze. De início, a apicultora anima-se com o casal de vizinhos, seus sete filhos, 150 vacas e motores barulhentos. Até descobrirmos que o modo de vida da família nômade trará grandes mudanças ao ecossistema da região, já estaremos totalmente conquistados por este documentário, que usa, sem parcimônia, recursos do cinema ficcional. O filme é um dos mais cotados ao Oscar de longa documental (e tem chances também no Oscar Internacional).

Os documentários brasileiros “Democracia em Vertigem”, de Petra Costa, “Cine Marrocos”, de Ricardo Calil, e “Meu Nome é Daniel”, de Daniel Gonçalves, os três habilitados a disputar uma vaga no Oscar, têm em “Honeyland” um concorrente peso-pesado, padrão Mohamed Ali. O filme macedônio (do Norte, já que a Macedônia grega conquistou para si o direito de usar o nome sem adjetivo restritivo) mereceu, com louvor, os prêmios do júri oficial e da Crítica.

Uma das cenas mais impactantes de “Honeyland” mostra Hatidze, que aparenta bem mais que seus 50 e poucos anos, numa casa-caverna, pintando os cabelos (escondidos sempre por um lenço) com tinta gerada pela indústria de cosméticos. Não há mulher que resista a este pequeno momento de vaidade num mundo marcado por luta brutal pela subsistência.

“System Crasher”, de Nora Fingscheidt, e “Dente de Leite”, de Shannon Murphy, têm duas meninas como personagens centrais e duas mulheres como diretoras e roteiristas. São filmes de ponta, com presença obrigatória na lista dos melhores apresentados pela Mostra SP 43.

O júri brilhou ao atribuir, ex-aqueo, o Troféu Bandeira Paulista (criação de Tomie Otake) ao alemão e ao australiano. Os dois, aliás, já chegaram a São Paulo com reconhecimento internacional. “System Crasher” ganhou o Urso de Prata em Berlim, em fevereiro último. Perdeu (injustamente, na minha opinião), o Urso de Ouro para “Synonymes”, coprodução entre Israel e França, comandada por Nadav Lapid. Na Mostra paulistana, “Sinônimos” gerou opiniões extremadas (como ocorrera com o estranhíssimo “Touch me Not”, da romena Adina Pintilie, Urso de Ouro em 2018, exibido ano passado pela maratona criada por Leon Cakoff).

O longa germânico exala vitalidade e paixão. Benni, uma garota de nove anos (a carismática Helena Zengel) está sob tutela do Estado, pois um trauma a tornou agressiva e incontrolável. A mãe, que a menina ama, tem dois filhos pequenos e não se sente capaz de cuidar dela (e, ao mesmo tempo, deles).

Nenhum método terapêutico dá jeito na indomável Benni, expulsa de dezenas de escolas. Um jovem professor fará a tentativa mais ousada: levará a garotinha, de pele alva e cabelos louríssimos, para viver experiência rural (ela não pode ser internada em reformatório enquanto não fizer 12 anos). Os 119 minutos do filme voam. Desde “Corra, Lola, Corra”, o cinema alemão não nos apresentava filme tão adrenalinado. E inesperado. Nunca sabemos o que vai acontecer. O final é arrebatador.

“Dente de Leite” foi um dos raros filmes “no feminino” apresentados na competição ao Leão de Ouro em Veneza. Conquistou apenas o Troféu Marcello Mastroianni para ator revelação (o jovem Toby Wallace). Merecia mais. No centro da narrativa, está a adolescente Milla (Eliza Scanlen), menina bem-nascida, que mora numa casa espetacular e estuda em colégio de elite. Ela está com câncer e tem pouco tempo de vida. Os pais (a bela Essie Davis e Ben Mendelsohn) fazem tudo por ela.

Os modernos genitores levam um choque quando Milla apresenta a eles o jovem Moses (Toby Wallace), um pequeno traficante de drogas, todo tatuado e boca-suja. O rapaz, de 21 anos, injeta, por vias tortas, energia e vontade de viver na burguesinha Milla. O filme não dá lições de moral, nunca apela à pieguice e tem a petulância do melhor cinema australiano. E faz da música, profissão da mãe e objeto de estudo da filha, um “personagem”. E, para tornar a trama ainda mais viva, há que se destacar uma vizinha maluquete, bem-resolvida e grávida. Em seu primeiro longa, Shannon Murphy, uma diretora de teatro globe trotter, revela-se uma cineasta das mais instigantes, que deve ser acompanhada bem de perto.

A ficção gaúcha “Aos Olhos de Ernesto” rendeu o Prêmio da Crítica a Ana Luiza Azevedo, autora do melhor filme brasileiro (sem separação entre documentário e ficção). Roteirista tarimbada, diretora de vários curtas e que comandara apenas um longa-metragem (“Antes que o Mundo Acabe”, 2010), Ana Luiza espanta pela maturidade. Seu novo filme não é inovador. Quem prefere obras mais ousadas (ou experimentais) poderá tachá-lo de “clássico demais”. E até dizer que parece um representante do “minimalismo melancólico uruguaio”, que fez de “Whisky” (Stoll e Rebella, 2003) seu exemplar paradigmático.

A cineasta, que escreveu o roteiro com o amigo e sócio (na Casa de Cinema de Porto Alegre) Jorge Furtado, não há de ofender-se com a comparação. Tanto que convocou para coprotagonizar o filme um dos atores de “Whisky”, Jorge Bolani, o “uruguaio-paulista” que vai visitar o irmão interpretado por Andrés Pazos e conhecer a companheira deste, a tímida personagem de Mirella Pascual. Há, ainda, no filme, outro hispano-americano, o argentino Jorde D’ Elia (de “O Abraço Partido” e que fez participação especial no brasileiro “Vips”, de Toniko Melo).

“Aos Olhos de Ernesto” corre suave ao longo de seus 124 minutos. E vai nos envolvendo com a história do septuagenário Ernesto, um uruguaio radicado em Porto Alegre, que enxerga cada vez menos. Aposentado com baixos vencimentos, ele vive sozinho e recebe raras visitas do filho, ocupadíssimo e “paulista”, interpretado por Júlio Andrade.

Um dia, entra na vida de Ernesto uma jovem passeadora de cachorros (Gabriela Poester), sem grana, sem rumo e com um namorado bem esquisito. A moça, que comete pequenas transgressões, acabará injetando vida na melancólica existência de Ernesto. O “melancólico” aqui fica por conta do personagem uruguaio, pois os brasileiros da trama são ativos e meio destrambelhados.

Na deliciosa trilha sonora, Caetano Veloso interpreta “Un Vestido y un Amor”, de Fito Paéz, parte de seu antológico e obrigatório álbum “Fina Estampa” (1994). Quem aprecia o cinema argentino-e-uruguaio (pelo menos aquele narrativo, com personagens bem-construidos, humor fino e ótimos atores), vai encantar-se com “Aos Olhos de Ernesto”, o nosso assumido similiar do “minimalismo melancólico” uruguaio (só que, no caso gaúcho – registre-se – com baixa dosagem de melancolia).

O Prêmio Abraccine (Associação Brasileira de Críticos de Cinema), destinado a filmes de diretores estreantes, escolheu o híbrido de documentário e ficção cearense “Currais”, de Sabina Colares e David Aguiar, realizado com apoio de projeto audiovisual do Itaú Cultural. O filme registra “campos de concentração” de flagelados da seca de 1932, criados para impedir que “hordas de miseráveis” invadissem a então pacata e provinciana capital do Estado, Fortaleza. Um projeto assumidamente eugenista. Para os pobres, currais isoladores.

O público, ao contrário do júri oficial e da Crítica, não premiou nenhum filme dirigido (nem codirigido) por mulher. Mas, convenhamos, fez sólidas escolhas. Como resistir à Palma de Ouro cannoise “Parasita”, o mix de horror e drama social, temperado com ação, do coreano Bong Joon-ho?

Um dos mais inventivos misturadores de gêneros cinematográficos da atualidade, o diretor de “O Hospedeiro” e “Okja” conseguiu recriar com rara habilidade (e altíssimas doses de imaginação) um clássico do cinema de seu país, “Hanyo, a Empregada” (Kim Ki-Young, 1960). Fez um filme que agrada aos críticos e inflama plateias orientais e ocidentais.

Duas das outras escolhas dos cinéfilos, que frequentam a Mostra há 43 anos, merecem comentário à parte: “Pacificado”, escolhido melhor ficção brasileira, e “A Grande Muralha Verde”, melhor documentário internacional.

O que os filmes do norte-americano Paxton Winters e do britânico Jared P. Scott têm em comum?  O DNA brasileiro (mesmo caso de “Dois Papas”, de Fernando Meirelles, e “Wasp Network”, de Olivier Assayas). “Pacificado” é o primeiro longa-metragem de um repórter-cinegrafista nascido e criado nos EUA, e que radicou-se no Brasil há sete anos. Com Wellington Magalhães, um carioca da gema (e do Morro dos Prazeres), ele escreveu história 100% brasileira, falada em português carregado de gírias e convocou elenco quase todo black e brasileiríssimo (Bukassa Kabengele, a impressionante pré-adolescente Cássia Gil, a bela Débora Nascimento, mais Lea Garcia, Jefferson Brasil, José Loreto e Rod Carvalho).

Na produção, norte-americanos (entre eles Darren Aronofsky) e brasileiros (Marcos Tellechea e Paula Linhares). Sim, há dinheiro made in USA na jogada, mas o filme é fruto de bem-sucedida coprodução. Tão bem sucedida, que os norte-americanos, acostumados a colocar todo mundo (seja japonês ou boliviano, russo ou árabe) falando inglês, respeitou o idioma e a cultura do grupo social retratado. E Paxton soube construir trama envolvente portagonizada por uma garota da favela em busca do pai e ex-presidário (“ex-dono” do Morro dos Prazeres), decidido a abandonar o crime. Sua narrativa pulsa ao longo de 100 minutos, sem nenhum exotismo.

Quem acompanha a trajetória de Fernando Meirelles, cineasta e produtor (da poderosa O2) sabe o quanto de dedicação ele deu ao documentário “A Grande Muralha Verde”, do britânico Jared P. Scott. Produtor executivo do filme, o brasileiro mantém imensa afinidade com este longa-metragem. Respeitadíssimo na Inglaterra, um dos poucos países estrangeiros que amou “Cidade de Deus” (e lhe deu boa receptividade crítica e de público), Meirelles tem na causa do meio-ambiente sua maior paixão política. Quando os anglo-saxões o convidaram a assumir a produção executiva da “Muralha Verde”, ele o fez com empenho cívico. E contou à Revista de CINEMA, ao retornar de viagem à África, que não mediria esforços para ajudar na realização do filme de Scott.

E, afinal, o que mostra o longa que o público da Mostra SP elegeu como “melhor documentário internacional”?  Mostra a cantora e ativista Inna Modja, do Mali, em jornada épica pela chamada Grande Muralha Verde da África. E o que vem a ser isto? A resposta é desafiadora: uma iniciativa das mais ambiciosas, que se propõe a fazer brotar um “muro” de 8 mil km. Não um muro de cimento ou cerca de arame farpado, mas sim uma muralha de árvores, capaz de revitalizar toda a costa africana. Revitalizar a terra, a flora, a fauna e, o principal, a vida dos povos que ali habitam. O filme passa pelo Senegal, Mali, Nigéria, Níger e Etiópia.

O público da Mostra premiou, também, “Chorão, o Marginal Alado”, do paulistano Felipe Novaes, como o melhor documentário brasileiro. O longa teve sessões lotadas por fãs fervorosos do líder da banda Charlie Brown Jr, Alexandre Magno Abrão, o Chorão (1970-2013), morto aos 42 anos, de overdose de cocaína. Meses depois morreria, por suicídio com arma de fogo, Champignon, outro integrante do grupo musical nascido e consolidado no eixo Baixada Santista-São Paulo.

A Mostra abriu espaço nobre para o Instituto Olga Rabinovich premiar um filme ainda em fase de construção de roteiro. O escolhido foi “O Campo dos Lobos Guarás”, dos brasileiros Bárbara Cunha e Paulo Caldas. A dupla, que fez jus ao Prêmio Projeto Paradiso, participou da maratona paulistana com dois filmes: “Flores do Cárcere” (dirigido por ambos) e “Abismo Tropical” (dirigido por Paulo, co-roteirizado e produzido por Bárbara). Os dois devem voltar ano que vem, com seus lobos guarás.

Confira todos os premiados:

. “Honeyland”, de Tamara Kotevska & Ljubomir Stefanov (Macedônia do Norte) – melhor documentário pelo júri oficial, Prêmio da Crítica (melhor filme internacional)

. “System Crasher”, de Nora Fingscheidt (Alemanha), e “Dente de Leite”, de Shannon Murphy (Austrália) – melhor ficção internacional (ex-aqueo)

. “Aos Olhos de Ernesto”, de Ana Luiza Azevedo (Rio Grande do Sul) – Prêmio da Crítica de melhor filme brasileiro

. “Currais”,de David Aguiar e Sabina Colares (Ceará) – Prêmio Abraccine (Associação Brasileira de Críticos de Cinema) para filmes de diretores estreantes

. “Chorão, o Marginal Alado”, de Felipe Novaes (São Paulo) – Melhor documentário brasileiro pelo júri popular

. “Pacificado”, de Paxton Winters (Brasil/EUA) – melhor ficção brasileira, pelo júri popular

. “A Grande Muralha Verde”, de Jared P. Scott (Inglaterra) – melhor documentário internacional

. “Parasita”, de Bong Joon-ho (Coréia do Sul) – melhor filme internacional pelo júri popular

. “O Campo dos Lobos Guarás”, de Bárbara Cunha e Paulo Caldas (Brasil) – Prêmio Projeto Paradiso, do Instituto Olga Rabinovich (para filmes em fase de roteiro)

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