“Volume Morto” e “Ainda Temos a Imensidão da Noite” encerram competições do Festival de Brasília
© Mayangdi Inzaulgarat

Maria do Rosário Caetano, de Brasília

A noite deste sábado, 30 de novembro, será dedicada à entrega de prêmios das várias mostras competitivas do 52º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro, e à exibição, em caráter hors concours, do filme “Giocondo Dias, Ilustre Clandestino”, de Vladimir Carvalho. No domingo, serão apresentados os principais vencedores do Troféu Candango em sessões comemorativas.

Na noite derradeira, a de sexta-feira, 29, foram exibidos os últimos concorrentes dessa movimentada — principalmente por protestos e performances políticas — edição do mais antigo e tradicional festival de cinema do país. Dois longas e dois curtas.
O paulistano “ Volume Morto”, segundo longa-metragem do cineasta Kauê Telloli, de 32 anos, entrou na disputa pelos Troféus Candango, mas suas chances são reduzidas. Apesar de um início promissor e de ótimo elenco (as Fernandas Vasconcellos e Viacava, a “porta dos fundos” Júlia Rabello e Daniel Infantini), o filme, de gênero difícil de definir, é muito teatral e peca em seu desenvolvimento narrativo.

Kauê filia seu sintético filme (apenas 76 minutos) ao “gênero policial, sem policiais em cena”. Na verdade, trata-se de um mix de drama familiar, com ingredientes de thriller e cinema de horror (psicológico). Thamara, uma professora de inglês para crianças (Fernanda Vasconcellos) recebe, na escola onde trabalha, os pais de Gustavo, seu aluno (nunca visto em cena). Interpretados por Júlia Rabello (Luíza) e Daniel Infantini (Roberto), pai e mãe estabelecerão intrincado jogo de poder com a professora. Esta quer saber o que acontece no recesso do lar do pequeno aluno, já que ele permanece mudo durante as aulas do idioma britânico.

Por que a criança não fala? Num telefonema doméstico, os pais “descobrirão” que o menino teve um desmaio. Ele já desmaiara na escola? E em casa? Onde está a diretora escolar? Por que uma professora, quebrando regras da instituição, convocara os dois pais para tão complexa reunião? A diretora (Fernanda Viacava), enfim, aparece. Cada um dos quatro personagens (são só quatro mesmo e uma só locação, a escola) apresenta seus argumentos e tem muito a revelar. Pena que o desdobrar das múltiplas versões seja concluído de forma abrupta, resultando em um confuso quebra-cabeças. O público do Cine Brasília recebeu o longa de Kauê com aplausos protocolares.

O diretor garante que “Volume Morto” (o terrível apelido dado à criança que permanece muda nas aulas de inglês) custou apenas R$55 mil, foi feito em apenas nove dias e em processo cooperativo (atores e técnicos participarão dos lucros, caso venham a ser auferidos). O filme tem distribuição da O2 Play e fez sua pré-estreia nacional em Brasilia. “Volume Morto” foi selecionado, também, para o Festival de Talim, na Estônia, ex-República Soviética.

Dois curtas-metragens completaram a lista de 14 concorrentes ao Troféu Candango: a animação “Sangro”, de Minamisawa, Castro e Guto BR, e a ficção “Amor aos Vinte Anos”, de Poroger e Loureiro. “ Sangro” vem causando sensação em todos os festivais brasileiros por sua bela soma de desenhos, colagens e pinturas (incluindo invenções do genial flamengo Jerominus Bosch). O namorado de Tiago Minamisawa descobriu-se portador do vírus da Aids. Ao invés de esconder, resolveu escrever uma carta (de grande beleza literária) para que todos os interessados tomassem conhecimento. O filme, de apenas sete minutos, foi aplaudido calorosamente pela plateia.

“Amor aos Vinte Anos” é uma comédia romântica em preto-e-branco nouvelle-vaguiano, que pediu seu título emprestado a Francois Truffaut. Já o tom de sua narrativa presta tributo a Woody Allen. O protagonista do filme, de 24 minutos (e semente de um longa em processo de criação), é o codiretor, corroteirista e comontador Felipe Poroger. Sensível e desengonçado, ele sofre de amor pela ausência da namorada, que vai fazer intercâmbio em Paris e para de responder às suas mensagens digitais. Ele vai à casa dos pais dela (os ótimos Georgette Fadel e Danilo Grangheia) para devolver pertences de sua amada. Acaba, então, enredado em teia familiar tecida com valores burgueses e presente muito de imenso valor. O filme é divertidíssimo e foi bem recebido pelo público.

Na Mostra Brasília BRB, uma atração que deve receber alguns dos principais prêmios destinados à produção do Distrito Federal: “Ainda Temos a Imensidão da Noite“, de Gustavo Galvão. O filme, que estreia comercialmente na quinta-feira, 5 de dezembro, foi realizado em Brasilia e em Berlim. Sua trama busca a alma da cidade, que tornara-se conhecida como “a capital do rock”, no final dos anos 1980, e ao longo da década de 90.

Na trama, uma banda de rock punk psicodélico tenta, nos dias atuais, firmar-se na cena artística candanga. A bela Karen (Ayla Gresta), trumpetista e vocalista da Animal Interior, e seus parceiros não medem esforços (e ensaios) para viverem como músicos. E não com funcionários do Congresso Nacional ou burocratas nos Ministérios. O desinteresse do público e problemas internos da banda acabarão por dispersá-la. O guitarrista Artur (Gustavo Halfeld), namorado de Karen, muda-se para Berlim. Com a vida desestruturada em Brasília, a jovem vai arriscar-se, também, na Alemanha. Envolve-se no underground berlinense, integra banda germânica que excursiona pela Turquia, mas fatos geopolíticos a devolvem ao Brasil. À Brasília.

Com contribuições no roteiro de sua companheira, Cristiane Oliveira (diretora de “Mulher do Pai”, filme gaúcho que dialoga com o minimalismo melancólico uruguaio) e de Barbie Heusinger, Gustavo Galvão realiza seu filme mais cativante. A plateia brasiliense se identificou com o que viu e aplaudiu calorosamente. O filme teve, no foyer do Cine Brasília, o mais concorrido dos debates da Mostra BRB. Bateu, e bem, a plateia de “Dulcina”, outra produção brasiliense festejada em grande estilo pelo público.

Na Mostra Território Brasil, não-competitiva, um título baiano — “Dorivando Saravá, o Preto que Virou Mar”, ensaio poético musical sobre a alma africano-baiano-marítima de Dorival Caymmi, a todos encantou. O diretor Henrique Dantas, o mesmo de “Os Filhos de João – Admirável Mundo Novo Baiano”, foi abraçado com paixão por mais de cem espectadores que foram prestigia-lo no Museu da República. Houve quem comentasse: “‘Dorivando Saravá’ ficaria muito bem colocado na competição nacional, no lugar de pelo menos dois (ou três) do sete títulos escolhidos”.

Ao apresentar o filme, Dantas alertou: “os festivais precisam ficar atentos ao cinema dos negros, das mulheres, dos indígenas, das várias regiões brasileiras”. O documentário ensaístico baiano sobre a negritude do Buda Nagô (by Gilberto Gil) enriqueceria a tela nobre do Cine Brasília com a inteligência e criatividade de seu protagonista e de pares como Matheus Aleluia, Gerônimo, Tinganá Santana, Lazzo Matumbi, Tom Zé (cada vez mais genialmente doido), Adriana Calcanhoto, Jussara Silveira e Gilberto Gil, claro.

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