Matérias Especiais — 24 março 2020
Hermes Leal lança nova teoria da Narrativa de Ficção
Hermes Leal © Milton Mansilha

Após mais de 30 anos de pesquisa, incluindo um mestrado em Cinema (ECA/USP), com tese sobre Narrativa e Roteiro, e um doutorado em Letras (FFLCH/USP), com eficiência em Linguística e Semiótica francesa, o escritor e roteirista Hermes Leal lança uma tão esperada descoberta, sobre como funcionam as emoções nos personagens em um texto de ficção. Essa pesquisa resultou na publicação do livro “As Paixões na Narrativa”, lançado em 2017, na Coleção Estudos da famosa e importante Editora Perspectiva. Uma teoria própria para explicar esses mecanismos passionais que estão presentes nas ações dos personagens, e que até agora não tínhamos acesso.

A novidade é que a teoria da narrativa da ação já conhecida, inclusive desenvolvida por Syd Field, soma-se agora à nova teoria da narrativa da emoção, resultando num estudo completo para o desenvolvimento de textos de ficção, especialmente para quem deseja escrever romances, roteiros de séries e filmes.

O que esta nova teoria organiza e elucida está no desenvolvimento do roteiro a partir da passionalidade do personagem. O sofrimento, a falta, o dano, uma paixão que haverá no personagem é que vai reger a base de qualquer roteiro de ficção. Esse princípio fundamenta a Semiótica das Paixões, criada na França, no início dos anos 1990, por A. J. Greimas, que já foi aplicada com sucesso nas campanhas publicitárias da Apple e Microsoft, por exemplo, e que está sendo aplicada agora por Hermes Leal, pela primeira vez, no audiovisual.

De acordo com esta nova teoria, todas as ações que ocorrem na narrativa devem estar de acordo com os estados de alma dos personagens, na base da história de ficção. A ação está ligada ao mundo das coisas e a emoção, ao mundo do ser. Assim, essa nova teoria avança em um campo novo, no sentido que saímos de um “estado de coisas para um estado de alma”.

Para comprovar essa nova teoria, o Hermes Leal disseca os roteiros originais de obras recentes, e de conhecimento do grande público, que tiveram êxito do ponto de vista de seus roteiros, como “Game of Thrones”, “Chernobyl”, “Westworld”, “Gravidade”, “Roma”, “Parasita”, “Coringa”, entre outros. O autor apresenta as teorias com ferramentas técnicas e práticas, tanto para os personagens, que agem movidos por raiva, ódio ou vingança, quanto para organizar a estrutura de um texto, onde transitam esses personagens, como é a estrutura em três atos, criada por Aristóteles. “Toda obra perfeita é possível construída com base na teoria da narrativa da ação, regida pela passionalidade dos personagens”, afirma Leal.

Esta teoria está sendo apresentada, pela primeira vez no Brasil, em forma de livro – “As Paixões nos Personagens” (Screenwriter Online, 2020) –, acompanhado de 14 aulas em vídeo, de forma que os alunos possam aprender conceitos novos e desenvolver mais corretamente suas ideias.

O livro, disponível em quatro idiomas (português, inglês, espanhol e francês) e as videoaulas – faladas em português e com legendas em inglês, espanhol, francês e coreano –, foram recebidos com boa aceitação em vários países, como Estados Unidos, México, Argentina, Espanha, França, Índia e parte da Ásia, onde foram lançados recentemente.

Segundo Hermes Leal, o livro foi lançado em mídias sociais em 25 países para testar sua aceitação, que apesar do estranhamento, está sendo boa. “Esta teoria está chegando sem ninguém esperar, já que considerávamos impossível teorizar a alma dos personagens. Mas agora é possível. Apesar de ser um estudo complexo, uma ciência nova que tem suas próprias regras, eu apliquei muito claramente em filmes atuais, em uma obra densa como “Roma”, assim como as estruturas de heróis em “Game of Thrones”, de forma que qualquer pessoa possa assimilar. Por ser uma teoria para ser ensinada, acho que logo as universidades começarão a adotar. Será uma questão de tempo para o mercado descobrir sua utilidade”, afirma Leal.

Nova teoria completa estudos de Syd Field

Esse foco nas emoções do personagem é o que Syd Field chamava de “a estrutura invisível do roteiro”, onde ainda não era possível adentrar. Mas ele já reconhecia que a importância de uma obra bem-sucedida estava no desenvolvimento da narrativa tendo como relevância o estado emocional dos personagens, mesmo dizendo que ainda não existiam ferramentas teóricas para explorar esse lado emocional dos personagens.

Agora, depois de avanços nos estudos da ciência da Semiótica, finalmente tem-se uma teoria que completa a teoria da narrativa do roteiro, abarcando o lado subjetivo da criação de uma obra.

Quando Field falava da importância do “ponto de virada” de um roteiro para que ele possa ter uma curva perfeita em “três atos”, havia sempre uma lacuna, uma falta de explicação de o “por quê” esses conceitos estruturais existem e como eles são “formados”.

Nesta nova teoria guiada pelos personagens, esses conceitos existem em razão das transformações dos personagens, que precisam de acontecimentos extraordinários para fazerem essa virada. Esses acontecimentos são tensivos, abalam o personagem, em uma jornada chamada de “programa narrativo”. Esse programa do personagem ocorre, porque ele faz um contrato com outro personagem, no primeiro ato, uma manipulação, no segundo ato, e uma sanção, no terceiro ato. Uma curva do personagem que vai de uma “ilusão a uma verdade”.

“Star Wars” só tem sentido, porque sua narrativa da emoção, de um filho que descobre que seu pai é o seu maior inimigo, se junta à da ação, para salvar um império do bem contra o mal. Por isso, Hermes Leal mostra que personagens como Jon Snow e Arya Stark, de “Game of Thrones”, conseguiram ser perfeitos, porque uniram as emoções de ódio e vingança, no caso de Arya, e de revolta e ressentimento, no caso de Snow, às suas ações.

Com esta teoria, é possível os roteiristas agora saberem o que é um “ponto de virada” ou uma estrutura em “três atos”, que forma o arco da história e dos personagens, tanto do ponto de vista da ação como da sensação dos personagens.

Dominando esses conhecimentos, o roteirista saberá como construir cenas tensas que abalam os personagens e promovem o ponto de virada de um ato a outro, como em “Coringa”, que segue a regra geral, de fazer esse ponto de virada no final dos atos, e como isso ocorre diferente em “Parasita”, quando as cenas tensas, que promovem a virada na história e nos personagens, não ocorrem como em “Coringa”, mas no início dos atos.

Faltou essa parte para que a teoria de Syd Field ficasse perfeita; a alma do personagem e a sua busca pela verdade e pela potencialização de sua alma. A Semiótica das Paixões busca entender o sujeito através de suas emoções, mas dentro de uma narrativa em busca da verdade, da mesma forma como Stanislavski gerou sua teoria para que o ator encontrasse a sua verdade interior. Seu método deu certo e é famoso até hoje, porque se apoia nesta estrutura conceitual da natureza humana.

Estrutura da teoria

Por se tratar de uma teoria complexa e profunda, porém lógica, sua estrutura foi organizada em forma de sete “esquemas”, que servem para ajudar o roteirista em dois aspectos: estruturar sua história, como foram estruturadas as dos filmes “Parasita” e “Coringa”, entre outros, e estruturar a emoção do personagem. Os esquemas, com novas nomenclaturas, são: Programa Narrativo, Acontecimento Extraordinário (Ponto de Virada), Surpresa, Dano e Fratura, Simulacro Existencial, Cólera e Vingança.

Os esquemas facilitam o autor a estruturar as transformações nas emoções dos personagens. Pois, durante as ações, os personagens também transformam suas emoções, como o sentimento de felicidade de Arya, que se transforma em raiva, após conhecer a família de sua rival, a rainha Cersei, que depois se transformará em ódio, quando matam seu pai, e que, no final, irá desencadear um sentimento de vingança.

Segundo Hermes Leal, “a teoria das paixões leva em conta mais de dois mil anos de desenvolvimento, de Aristóteles, passando por Spinoza, Descartes, Saussure, Heidegger, Deleuze e, por fim, Greimas, que foi o linguista que organizou um esquema teórico complexo para detectar a alma do personagem. A ideia central, que gerou a semiótica do personagem, nasce a partir de um ‘esquema gerativo do sentido’, que vai da camada mais simples da narrativa à mais profunda, onde estão os estados patêmicos de alma gerindo as ações dos personagens. Uma grande descoberta”, afirma Leal.

Além dos sete esquemas, a teoria conta com um dispositivo fundamental: o destinador. Ele está presente no final polêmico de “Game of Thrones”, com a quebra de contrato no programa narrativo de Jon Snow e Daenerys, quando Jon a mata em razão de um “destinador” social, representado pelo povo, que o domina e tem poder sobre Jon mais que o sentimento que ele tem pela mãe dos dragões.

A paixão dos personagens universaliza uma obra

Com esta nova teoria, é possível ter ferramentas para desenvolver roteiros perfeitos, que resultem em obras que realmente emocionem os espectadores, obras universais para o mercado global, o que caracteriza o sucesso de toda obra. Segundo Hermes Leal, “basta analisarmos filmes como o premiado sul-coreano “Parasita”, um exemplo perfeito de obra universal, falada em língua quase desconhecida fora do seu país, com elenco também desconhecido do grande público, para exemplificarmos o sucesso de seu roteiro”.

Uma obra só se torna universal, quando consegue se comunicar com qualquer pessoa, em qualquer língua, pois essa comunicação se dá através das emoções que uma obra passa a quem a assiste. Os sentimentos, os sofrimentos são universais, entendidos ou “sentidos” por qualquer um, em qualquer lugar do mundo.

Qual é a chave para se fazer um filme, uma série de TV ou qualquer outra obra de ficção de qualidade? Como é, na prática, uma obra perfeita, construída com base na teoria da narrativa da ação e da emoção? O que faz com que o filme dialogue com o grande público e se torne um filme perfeito é a construção do seu roteiro sob a regência da passionalidade de seus personagens.

“Até hoje, grandes roteiristas realizam obras de grande sucesso, mesmo sem terem um estudo que lhes deem ferramentas para suas criações. Apenas intuitivamente era-se possível criar uma narrativa de ficção levando em consideração o lado passional dos personagens como a base do roteiro, e tendo somente a teoria da narrativa da ação como referência, sem acesso ao lado subjetivo da passionalidade dos personagens”, afirma Leal. “Com a possibilidade de se estudar o aspecto passional da narrativa, ficou mais fácil conseguir realizar um roteiro perfeito. Uma história que seja regida pelas passionalidades dos personagens. Não importa qual história se esteja contando, ela sempre deve ser construída levando-se em conta o estado de alma dos personagens”, completa.

O autor tem formação e experiência em múltiplas áreas

Hermes Leal, que trabalhou nos anos 1990 nos principais canais abertos de TV do país, onde esteve por 10 anos na extinta TV Manchete, passando ainda por Rede TV, SBT, Record, desde 2000, vinha se dedicando à Revista de CINEMA e, depois, à sua produtora HL Filmes, que realizou oito produções nos últimos quatro anos. Paralelamente, Leal se dedicou também à literatura, com sete livros publicados, e às pesquisas no campo da teoria da narrativa e da ficção.

É autor do romance “Antes que o Sonho Acabe” (Geração Editorial, 2016), sobre um jovem em fuga da Amazônia em épocas sombrias da Guerra Fria, que será filmado com direção do premiado cineasta Lírio Ferreira e distribuição da O2 Play.

Seu primeiro romance, “Eu Sou Foda!”, lançado em 1997 e relançado em 2006 com o título “Faca na Garganta”, gerou polêmica ao mostrar uma geração de adolescentes nos anos 1990 que podiam tudo, menos vencer a AIDS. Sua adaptação foi selecionada para a oficina de roteiro do Sundance.

Roteirista e diretor de importantes séries de TV, como “Pensamento Contemporâneo” (canais Curta! e CineBrasilTV), com oito episódios abordando temas do Café Filosófico, da TV Cultura, com os maiores pensadores do Brasil e do mundo. Sua série “Cineastas” estreou em 2017 no canal Prime Box Brazil, exibida em 2020 pelos canais Curta! e A&E, e disponível no streaming.

Estreou, recentemente, a série documental “Amazon Fashion”, no canal Fashion TV, que aborda a moda a partir de produtos sustentáveis na Amazônia. Ainda em 2020, estreará a série “Na Força da Lei”, que mostra a transformação do Brasil através de 13 leis que mudaram sua história, e o filme documental, como produtor, “Idade da Água”, de Orlando Senna (“Iracema, uma Transa Amazônica”), que participou de mais de 20 festivais no Brasil e no exterior, e aborda a questão da crise hídrica na Amazônia.

Contador de boas histórias, Hermes é explorador, suas aventuras são sempre autênticas por lugares pouco ou nunca explorados. É autor de “Quilombo – Uma Aventura no Vão das Almas” (1995) e da primeira biografia do aventureiro que inspirou Indiana Jones, “O Enigma do Coronel Fawcett” (Geração Editorial, 4ª edição, 2008), sobre o inglês caçador de cidades perdidas no Brasil. O livro virou um pequeno best-seller e relata a aventura de Fawcett e do próprio autor em busca de pistas sobre o seu misterioso desaparecimento.

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