“Mudar de Vida” reafirma o talento de Geraldo del Rey
Geraldo del Rey em cena de "Mudar de Vida"

Por Maria do Rosário Caetano

O ator baiano Geraldo del Rey tornou-se famoso por interpretar dois personagens muito especiais – o gigolô Bonitão, de “O Pagador de Promessas”, e o vaqueiro Manuel, de “Deus e o Diabo na Terra do Sol”. Ele, que se vivo fosse faria 90 anos em outubro, atuou em mais um filme de primeira linha: “Mudar de Vida”, do português Paulo Rocha.

Há duas semanas, o crítico Glenn Kenny, do The New York Times, indicou “Mudar de Vida” como opção para se enfrentar a quarentena imposta pela pandemia. Para dar substância à sua indicação, o crítico argumentou que o filme português é “uma obra memorável, com raízes estéticas no Neo-Realismo italiano e na Nouvelle Vague francesa”. Lembrou que a Grasshopper Film, que havia lançado o longa de estreia de Paulo Rocha, “Os Verdes Anos”, lançava, naquele momento, o filme seguinte, ambos restaurados sob supervisão de um dos mais admirados cineastas portugueses da atualidade, Pedro Costa (“Juventude em Marcha”). E buscou referência para situar a história de pescadores em mar bravio no clássico “A Terra Treme” (Luchino Visconti, 1948). Poderia ter citado, também, “Stromboli” (Rossellini, 1950).

A Revista de CINEMA conferiu os dois primeiros longas-metragens de Paulo Rocha, realizados ambos há mais de 50 anos e agora lançados nos EUA. “Os Verdes Anos” (1963) é um filme desigual, mas dos mais instigantes e promissores. Urbano e povoado de jovens, esse “conto de amor e consciência de classe, às vezes melancólico”, como lembrou Glenn Kenny, mostra os sonhos não realizados daqueles que chegavam de vilas interioranas para tentar a sorte em Lisboa. Em especial, um aprendiz de sapateiro (Rui Gomes) e uma doméstica (Isabel Ruth, atriz-fetiche do diretor).

Já “Mudar de Vida” é, sem dúvida, o momento mais luminoso da trajetória de Paulo Rocha (1935-2012). Uma obra-prima. E tem tudo a ver com o Brasil, pois Geraldo del Rey é seu protagonista absoluto. Ele interpreta o jovem Adelino, nascido em vila de pescadores e convocado a lutar nas guerras coloniais, na África. Quando regressa a Portugal e à sua gente, encontra sua amada Júlia (Maria Barroso) casada com o irmão dele, Raimundo (Nunes Vidal).

O que se verá ao longo de todo o filme é um homem marcado pelo destino, inquieto, com sentimentos sufocados e dores terríveis no corpo (provocadas por acidente em jipe militar, na África). Mesmo assim, Adelino trabalhará como um mouro. A pesca artesanal em mar revolto exigia esforços sobre-humanos, os remos cobravam rios de suor, não havia alternativa, a não ser migrar para a cidade grande.

As cenas do reencontro reservado de Avelino e Júlia, ela casada com o irmão dele e por isso interditada a seus desejos carnais, trazem erotismo sublimado e doloroso. As sequências da pesca em mar bravio são de beleza que beira a sublime. Paulo Rocha soube, o que é raro, somar amor proibido ao mundo embrutecedor do trabalho diário.

Não se pode olvidar impressionante sequência, aquela do teste psicotécnico. Quanto sofrimento para aqueles que vivem da labuta braçal e carecem de habilidades e traquejos “psicológicos”. O final, moderno e aberto, com Avelino se aproximando de uma operária transgressora e amoral (Albertina, na pele de Isabel Ruth), parece saído de um filme de Antonioni.

Voltemos a Geraldo del Rey e à sua trilogia máxima – a que une “O Pagador de Promessas” (Anselmo Duarte, 1962), Palma de Ouro em Cannes, “Deus e o Diabo na Terra do Sol” (Glauber Rocha, 1964) e “Mudar de Vida” (1966). Há que se registrar que ele atuou em outros filmes importantes como “A Grande Feira”, de Roberto Pires (1960), título seminal do ciclo baiano, “Menino de Engenho” (Walter Lima Jr, 1965), e compôs emblemático guerrilheiro em “A Idade da Terra”, o filme-testamento de Glauber Rocha (1981).

Geraldo del Rey, em cena de "Deus e o Diabo na Terra do Sol"

Geraldo Homem del Rey Silva nasceu em 1930, em Ilhéus, importante cidade da zona cacaueira e cenário de muitos romances de Jorge Amado. Estudou na Escola de Teatro da Universidade Federal da Bahia e, para manter-se, trabalhou consertando eletrodomésticos (e como vendedor). Ao tentar a sorte no Rio, fez uma ponta em “Somos Dois” (1950), obscuro filme estrelado por Dick Farney. Voltou para sua Bahia natal e, em 1955, integrou o elenco de obra inaugural do Ciclo Baiano – “Redenção”, de Roberto Pires. Com produção acidentada, o longa-metragem só ficou pronto em 1959.

O ator participaria, depois, de “Bahia de Todos os Santos”, do paulista Trigueirinho Neto (1960) e, convocado de novo por Roberto Pires, fez e aconteceu na pele de um “marinheiro sueco” no elenco-coral de “A Grande Feira”. O baiano, com os cabelos maravilhosamente oxigenados, contracenou com a gaúcha Luíza Maranhão e a soteropolitana Helena Ignez. E arrancou suspiros das fãs. Chegou a ser comparado, por sua beleza, com o francês Alain Delon.

A fama nacional e internacional chegaria (para ele e para Norma Bengell) com “O Pagador de Promessas”. O Manuel de “Deus e o Diabo”, também exibido em Cannes, deve ter funcionado como estímulo definitivo para que Paulo Rocha convidasse Geraldo del Rey a interpretar um típico pescador português em “Mudar de Vida”.

Del Rey e Norma Bengell, em "O Pagador de Promessas"

Registre-se outro milagre do filme: a dublagem do brasileiro não causa nenhum constrangimento. Afinal, o filme foge do palavroso ao apostar todas as suas fichas no visual e no sensorial. E seus enquadramentos inusitados (assinados pela dupla Manuel Carlos da Silva e Elso Roque) são de causar epifania. Inesquecíveis, densos, poéticos, convulsivos.

O ator Othon Bastos, baiano como Del Rey, gosta de dizer que o amigo era “um stanislawiskiano obsessivo”. Que enfrentava com paixão e fúria tudo que Glauber lhe impusera em “Deus e o Diabo na Terra do Sol”. Até a subir a infinita “escadaria” do Monte Santo com uma imensa pedra na cabeça, sofrendo como um mártir cristão.

Paulo Rocha também impôs ao ator brasileiro uma verdadeira via-crucis. Adelino trabalha como um remador de Ben-Hur (aqui, sem apelo à metáfora nelson-rodriguiana). Rema e carrega peso como se fosse um escravo da natureza (e dos homens).

Para relembrar a trajetória do ator baiano que anda tão esquecido, nada melhor que ouvir sua ex-mulher Tânia Carvalho (foram casados de 1963 a 1971) e mãe de seu filho Fabiano Carvalho del Rey. E um amigo do casal, o escritor baiano Antônio Torres (“Essa Terra”), membro da Academia Brasileira de Letras.

Torres, ao ouvir o nome do amigo, rememora: “Vejo-o a chegar à cidade do Porto, no final de uma tarde de sábado, num carrão americano, com sua bela Tânia Carvalho, salve ela!. Ele me disse: ‘entre aí’. E lá fui eu para o local das filmagens em Furadouro – Ovar, logo ali, a uns 40 km”. E aí “Geraldo del Rey e Tânia me enturmaram com toda a equipe: Paulo Rocha, Isabel Ruth, João Guedes, que era capaz de recitar trechos e mais trechos do ‘ Grande Sertão: Veredas’. De cor”.

Para desfiar outra lembrança: “Num domingo bem frio – era pico do inverso de 1965 –, Geraldo me pediu para escrever com ele o roteiro de um show que queria fazer num teatro em Lisboa. Acabou fazendo na TV, em horário nobre. E o dedicou a seu irmão que morava no Porto, ou seja, o autor destas linhas. Aí não faltou quem me interrogasse: – ‘Ena, pá! És mesmo irmão daquele bonitão’?”

A gaúcha Tânia Carvalho, jornalista, radialista e apresentadora de TV, viveu com o ator baiano os doces anos de sua juventude. Hoje, “casada, há 40 anos, com o médico Felicíssimo Medeiros dos Santos”, ela guarda muitas lembranças de sua convivência com o pai de Fabiano Carvalho del Rey, nascido em 1967. E faz questão de lembrar que “ele e Diogo, filho de meu segundo casamento, fizeram de mim uma feliz vovó, cercada de netos maravilhosos”.

Embora tenha escrito vários volumes para a Coleção Aplauso, da Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, Tânia não pensa em construir biografia de Geraldo del Rey. “O material que tenho comigo” – promete – “será disponibilizado a quem quiser levar este projeto adiante”. Ela já o ofereceu a Mayra e Guilherme, filhos de outro casamento de Del Rey (com Nelma).

Tânia respondeu a algumas perguntas da Revista de CINEMA:

Revista de CINEMA – Em texto memorialístico, o escritor Antônio Torres registra: Glauber me recebeu “naquele prédio da Rua Santo Antônio, à direita, do Viaduto Maria Paula, e bem próximo do Ferro’s Bar, onde Del Rey e sua bela Tânia deviam ter varado a madrugada”. Como uma jovem gaúcha conheceu o ator baiano? Foi paixão à primeira vista? Ele era quase 12 anos mais velho que você. Como sua família recebeu o namoro?

Tânia Carvalho – Nós nos conhecemos em Porto Alegre. Ele estava apresentando, em 1963, “A Ratoeira”, de Agatha Christie, no Theatro São Pedro. Depois do espetáculo, íamos sempre para a casa de amigos tocar violão, cantar e jantar. Começamos a namorar. Ele saiu de Porto Alegre depois de 20 dias e foi direto para a Bahia fazer “Deus e o Diabo na Terra do Sol”. Ficamos muito tempo sem nos ver. Em novembro, quando acabaram as filmagens, ele passou um “Western Union” para a minha mãe me pedindo em casamento. Noivamos por telefone. Casamos em 21 de dezembro de 1963, numa festa linda. Minhas amigas desconfiavam muito se ele viria ou não (risos) e faziam terror comigo. Veio. Maravilhoso. Casamos com festa, igreja, padrinhos e fomos morar na Rua Santo Antônio, no Bixiga paulistano. Minha família adorava Geraldo.

Vocês viveram juntos de 1963 a 1971 e tiveram um filho (Fabiano Carvalho del Rey). Que memórias guarda do período? O fim do casamento interrompeu a amizade ou seguiram amigos até a partida precoce dele, em 1993?

Boas e más lembranças. Logo após o nosso casamento, ele foi para Cannes com Glauber e mais um grupo. Ficou uns três meses por lá. Eu, sem querer pedir socorro para a família, sabendo da importância daquela temporada europeia para a carreira dele, fui trabalhar no Teatro Oficina datilografando textos de peças de teatro. Ele voltou e logo após fomos para Portugal.

Vocês viveram juntos os momentos mais férteis da carreira dele: “Deus e o Diabo na Terra do Sol” (64), “Menino de Engenho” (65), “Mudar de Vida” (66), filmes notáveis. Você poderia registrar suas lembranças desses três filmes, em especial do português “Mudar de Vida”, já que acompanhou as filmagens e até aparece no filme?

Durante as filmagens de “Menino de Engenho”, eu fiquei na casa da minha sogra, em Salvador. Minha amiga Anecy Rocha estava no elenco do filme e nós mantínhamos contato frequentemente. Depois de um convite do Paulo Rocha, fomos para Lisboa. A vida em Portugal foi maravilhosa. Fizemos grandes amigos, vivemos em lugares lindos – Ovar, Furadouro na Ria do Aveiro – Lisboa… A atriz principal Maria Barroso, casada com Mário Soares (que seria por duas vezes primeiro-ministro de Portugal), tornou-se nossa grande amiga e tivemos uma convivência inesquecível, muitas noites de fados com Amália Rodrigues ou na casa de Alain Olmann, compositor português. Fiz uma ponta no filme. Aparecia vestida de portuguesa cantando “O Malhão”. Foi muito engraçado. Voltamos para o Brasil, fui trabalhar na Editora Abril, Fabiano nasceu em 1967, com os olhos mais verdes do mundo.

Os filmes do ciclo baiano (os de Roberto Pires e Trigueirinho Neto) foram importantes para Del Rey? Ou foi o paulista “O Pagador de Promessas”, Palma de Ouro em Cannes, que serviu de mais poderosa vitrine à carreira dele?

Como não nos conhecíamos nesta época, guardo poucos registros dos primeiros anos da carreira cinematográfica dele. A não ser, claro, do imenso sucesso do “O Pagador de Promessas”. Foi avassalador.

Há uma história de que Anselmo Duarte teria feito duas versões do “Pagador”: uma brasileira, com Leonardo Villar de protagonista, e uma lusitana, com o protagonista português. Você conhece essa história? Geraldo del Rey fez o “Bonitão” nas duas versões?

Te juro que não soube dessas duas versões. Mas relembro uma história engraçada, minhas tias – elas eram oito – acharam que o meu “noivo” era o moço que carregava a cruz no “O Pagador de Promessas”. Quando souberam que era o Gigolô, ficaram um pouco desapontadas (risos). Tive que explicar muito sobre a diferença entre um ator e um personagem.

Você, que é jornalista, radialista e apresentadora de TV, acompanhou o trabalho de Del Rey em telenovelas e séries? Acha que ele foi bem aproveitado por esse veículo?

Sim, bastante. Na época, eu trabalhava na Editora Abril e fazia boa divulgação dos trabalhos de Geraldo. Levava fotos para os jornalistas da revista Intervalo e para outras publicações, sempre com sucesso. Claro que, como a maioria dos artistas, ele enfrentou momentos difíceis. Certa vez, Geraldo desentendeu-se com Walter Avancini, da equipe de diretores da Rede Globo. Por isso, ele ficou um tempão na geladeira. Bem podes imaginar. Foi um tempo bem cruel. Depois de alguns anos de nossa separação, numa vinda de Geraldo a Porto Alegre, fiz uma entrevista com ele na TV, em programa por mim apresentado. Fiquei muito nervosa, confesso. Retomamos nossa amizade e senti muito quando de sua morte (aos 62 anos). Sempre admirei profundamente o talento incomensurável dele, sempre me orgulhei de sua trajetória artística.

 

FILMOGRAFIA
Geraldo del Rey
(Ilhéus, 29/10/1930 – São Paulo, 25/04/1993)

1962 – “Tocaia no Asfalto”
1962 – “Lampião, o Rei do Cangaço”
1963 – “Sol Sob a Lama”
1965 – “Entre o Amor e o Cangaço”
1965 – “O Santo Milagroso”
1967 – “Cristo de Lama – A História do Aleijadinho”
1967 – “Bebel, a Garota-Propaganda”
1967 – O Vigilante em Missão Secreta
1969 – Um Uísque Antes, um Cigarro Depois
1970 – “Anjos e Demônios”
1971 – “Ana Terra”
1973 – “Um Homem Tem que Ser Morto”
1974 – “Núpcias Vermelhas”
1975 – “A Carne (Um Corpo em Delírio)”
1980 – “A Idade da Terra”
1981 – “Asa Branca, um Sonho Brasileiro”
1983 – “Garota Dourada”
1988 – “Os Heróis Trapalhões, uma Aventura na Selva”
1988 – “Dedé Mamata”

NA TELEVISÃO
Principais trabalhos

1965 – “Vidas Cruzadas”
1966 – “Anjo Marcado”
1967 – “Os Miseráveis”
1968 – “A Gata de Vison”
1969 – “A Última Valsa”
1969 – “Véu de Noiva”
1971 – “Sol Amarelo”
1972 – “Os Fidalgos da Casa Mourisca”
1973 – “Divinas e Maravilhosas”
1973 – “Rosa dos Ventos”
1975 – “O Sheik de Ipanema”
1978 – “Roda de Fogo”
1979 – “O Todo Poderoso”
1986 – “Cambalacho”
1988 – “Chapadão do Bugre”
1989 – “Capitães da Areia”
1989 – “Colônia Cecília”
1990 – “Lua Cheia de Amor”
1992 – “Anos Rebeldes”
1992 – “Pedra sobre Pedra”

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