Na Ilha
Vânia Debs na ilha de edição

Por Maria do Rosário Caetano

No melhor momento do filme “Na Ilha”, longa documental sobre montadores (ou editores, termo da era digital), Vânia Debs provoca: “há atores ruins que são salvos por nós”. Por isso, “quando sobem ao palco dos festivais, penso que o montador deveria subir junto para dividir o prêmio”.

“Na Ilha”, dirigido e montado por Vinícius Nascimento e Júlia Bernstein, será exibido pelo Canal Curta!, nesta quarta-feira, 26 de agosto, às 22h. Depois, haverá diversas reprises. Professores e alunos de cinema que sintonizarem a emissora, fruirão de rico material paradidático. E o público em geral, decerto, se divertirá com algumas das histórias contadas pelos 20 montadores/editores, gente do “tempo da moviola”, como Maximo Barro (montador de filmes de Mazzaropi), Eduardo Escorel (“Terra em Transe”, “Cabra Marcado para Morrer”) e Mair Tavares (“O Anjo Nasceu” e “A Lira do Delírio”), passando pela média-guarda (Cristina Amaral, Vânia Debs, Sérgio Mekler, Giba Assis Brasil, Jordana Berg) e chegando à turma contemporânea (as duas Karen, a carioca Akerman, e a pernambucana Harley, Marília Moraes, o elétrico Daniel Rezende, de “Cidade de Deus”, Joana Colier, de “Jia Zhangke, um Homem de Fenyang”, Eduardo Serrano, de “Boi Neon” e “Bacurau”, e os irmãos Pretti, Luiz e Ricardo, do grupo cearense Alumbramento).

Completam o time, Márcio Hashimoto, Natara Ney, Quito Ribeiro e Pedro Bronz. Todos aparecem em sua mesa de trabalho e têm seu ofício revelado por excelentes trechos dos filmes que ajudaram a construir. Os dois cineastas-montadores demonstram sensibilidade, talento e significativo conhecimento do cinema brasileiro. Tanto na seleção das imagens mostradas, quanto na escolha dos entrevistados (oriundos de várias partes do país, com muitos tons de pele e diferentes “escolas” formadoras).

A “ilha” a que se refere o título do documentário de Vinícius e Júlia é a salinha onde montadores/editores passam semanas, meses, até anos, organizando horas e horas do material levado a eles pelo diretor do filme. No caso da editora Karen Akerman, ela chegou a enfrentar 500 horas de material. Foi o que reuniu a cineasta Maria Augusta Ramos, ao somar imagens do circo político-midiático (ou “teatro”, como prefere), registradas por sua equipe ou encontradas em arquivos de emissoras de TV corporativas ou alternativas. O resultado foi o filme “O Processo”, que participou da Berlinale, tornando-se a primeira produção brasileira a ganhar espaço nobre em um dos maiores festivais de cinema do mundo. E, assim, expor o que se passara no Congresso Nacional e desaguara no impeachment da presidenta Dilma Roussef.

Depois, viria “Democracia em Vertigem”, de Petra Costa, que chegou à mais poderosa vitrine cinematográfica do mundo, o “Oscar” hollywoodiano. Para dar conta do imenso material, tão grande quanto o de “O Processo”, Petra convocou time de seis editores (Karen Harley, Tina Braz, David Barker, Joaquim Castro, Jordana Berg e Felipe Lacerda). Em “A Ilha”, a documentarista mineira é representada por seu filme de estreia, o intimista “Elena”, e por sua primeira editora, Marília Moraes.

Júlia e Vinícius, montadores jovens, mas já experientes (ver filmografia abaixo), arrancaram saborosas confissões de seus “personagens”. Jordana Berg diz que só pensa em montagem. Os filhos, crianças de seis anos, já recebiam lições sobre o ofício da mãe e já se exercitavam. À mesa de almoço ou jantar, ela aborda o assunto, seja com os pais, seja com quem for. Ama o que faz e faz desse amor assunto de todas as horas. Para completar sua profunda relação com o cinema, ela manteve fértil parceria com Eduardo Coutinho (1933-2014). “Ele me dizia: se eu morrer, jogue todo o material fora, não monte nada”. Depois, começou a conceder, “tá bom, se eu morrer, veja o que dá para montar”. E ela, frente ao trágico assassinato do grande documentarista, finalizou (com João Moreira Salles), o póstumo “Últimas Conversas” (do qual “Na Ilha” mostra significativo trecho).

Maximo Barro, que esse ano torna-se nonagenário, confessa “erro” cruel em sua trajetória. Convidado para montar “A Margem”, por Ozualdo Candeias, em meados dos anos 1960, desentendeu-se com o realizador. “Eu defendia a montagem do cinema clássico de Hollywood, aquela que o espectador nem percebia existir”. Candeias (1922-2007) tinha outra concepção, não postulava a chamada montagem invisível. Por isso, Maximo avisou que não queria seu nome impresso nos créditos do filme, pois temia o resultado. Mesmo assim, foi ao cinema, com a esposa (e com o pé atrás) conferir o primeiro longa de Candeias. Esperava ver um desastre. Ouviu, então, da companheira: “mas esse filme é muito bom”. E não é que “era mesmo!”

Giba Assis Brasil, montador de “Ilha das Flores” e de todos os filmes de Jorge Furtado (e também de Ana Luíza Azevedo, incluindo o premiado “Aos Olhos de Ernesto”), vem do tempo da moviola. Ele abre “Na Ilha” e já vai avisando: adaptou-se maravilhosamente à edição digital. Não sente saudade do passado. “Tenho amigos que dizem sentir saudade do durex no dedo, da coladeira. Eu, não”. Por que iria sentir saudade daqueles equipamentos pesados que, certa feita, lhe arrancaram “um pedaço de dedo”?

O veterano Eduardo Escorel profissionalizou-se muito jovem. Foi parar na “ilha” de montagem de “Terra em Transe” porque o argentino Nello Melli (1923-1986), convocado para a função, não gostou do que viu, achou tudo muito caótico. Pois Escorel não se fez de rogado. Montou o mais festejado e transgressor dos filmes glauberianos. E teve o prazer de trabalhar com Joaquim Pedro de Andrade em “O Padre e Moça” (que montaram juntos), “Macunaíma”, “Guerra Conjugal” etc. No filme de Vinícius e Júlia, ele compara o estilo dos dois mestres cinemanovistas: “minha experiência formadora se deu com os dois, Glauber mantinha um processo de criação e recriação permanente, na moviola surgia quase um novo filme, para ele, tudo era válido”. Joaquim Pedro, perto do diretor da Trilogia da Terra – deduzimos – era até clássico.

Quito Ribeiro, montador de “Paraísos Artificiais”, lembra que é músico, profissão que tem no ritmo elemento essencial. Um filme necessita de ritmo. Daí, se dar bem nos dois ofícios. Ele se guia por máxima de Wally Salomão, para quem “a memória é uma ilha de edição”.

Cristina Amaral, parceira de Carlos Reichenbach, Andrea Tonacci e Edgard Navarro, lembra que vivia como “mosca de padaria” em torno de Carlão. Quando ele a convidou para montar “Alma Corsária”, ela topou na hora. Mas a ficha caiu, quando colocou a cabeça no travesseiro: “será que vou dar conta?”. Deu e os dois estabeleceram parceria das mais fraternas e produtivas. “Eu sou daquelas montadoras que gosta de conhecer tudo, até de ler e reler o roteiro”. Em contraste com Sylvio Renoldi (1942-2004), montador paulista dos mais festejados. “Ele não queria saber de roteiro, de nada, só do material filmado, aquele que chegaria às suas mãos”.

Eduardo Serrano, do badalado “Bacurau”, lembra que seu ofício resulta em “processo dolorido, sedentário”. Define-se como um “editor estruturalista”, enquanto Kleber (Mendonça) é aquele que trabalha “no fluxo”. Mesmo assim, os dois se entendem.

“Na Ilha” é um documentário que vai além de seu primeiro objetivo: mostrar o trabalho de montagem-edição realizado por duas dezenas de profissionais talentosos. Pois, o que o filme faz, ao cabo de seus sintéticos 75 minutos, é nos mostrar o quanto é rico e plural o nosso cinema. O quanto são belas e diversificadas as imagens que foram impressas no celuloide ou em suportes digitais, nesse mais de um século de nossa história cinematográfica, essa arte tão apaixonante.

 

Na Ilha
Brasil, 75 minutos, 2020
Direção e montagem: Vinícius Nascimento e Júlia Bernstein
Produção: Bem Medeiros
Roteiro: Susana Costa Amaral
Fotografia: Clara Trevia
Estreia: Canal Curta!, 26/08, às 22h, com diversas reprises

 

FILMOGRAFIA

Julia Bernstein

2018 – “Pastor Cláudio (Beth Formaggini)
2016 – “Então Morri” (Bia Lessa e Daniel Roland)
2014 – “Urihi Haromatipë – Curadores da Terra-Floresta” (Morzaniel Iramari Yanomami)
2013 – “Carioca Era um Rio” (Simplício Neto)
2013 – “Intrépida Trupe – Será que o Tempo Realmente Passa?” (Roberto Berliner e Beth Martins)

Vinícius Nascimento

2020 – “Callado (Emília Silveira)
2018 – “Tente Entender o que Tento Dizer” (de Emília Silveira)
2018 – ” Mussum – Um Filme do Cacildis” (Susanna Lira) 2018 – “Meu Nome é Daniel (Daniel Gonçalves),
2016 – “Silêncio no Estúdio (Emília Silveira),
2015 – “Tudo Vai Ficar da Cor que Você Quiser” (Letícia Simões)
2013 – “Feio, Eu?” (Helena Ignez)
2012 – “Hélio Oiticica” (César Oiticica Filho).

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