Sementes: Mulheres Pretas no Poder

Por Maria do Rosário Caetano

A abertura do documentário “Sementes: Mulheres Pretas no Poder”, que a distribuidora Embaúba disponibiliza – on-line e, por um mês, gratuitamente – é impactante. Mulheres afro-brasileiras têm seus rostos desenhados em traços fortes, nas cores preto, branco e cinza.

Outra imagem mostrará duas pretas que choram a morte de Marielle Franco, assassinada junto com o motorista Anderson Gomes, em emboscada miliciana, numa noite de março de 2018.

Os créditos do filme mostrarão, a seguir, que “Sementes” é um documentário dirigido por Éthel Oliveira e Júlia Mariano, interessadas em registrar a campanha eleitoral de seis candidatas cariocas à Assembleia Legislativa fluminense e ao Congresso Nacional. Nos mesmos ano e eleição em que a disputa pelo executivo estadual seria vencida por Wilson Witzel e, no plano federal, por Jair Bolsonaro. A contextualização desse momento histórico se fará presente no filme com vigorosos registros da campanha do “Ele não!”. Muitos lutaram, o quanto puderam, contra o triunfo bolsonarista. Foram derrotados.

Todas as candidatas, de pele preta, acompanhadas em “Sementes”, são defensoras de plataformas progressistas e filiadas a partidos de esquerda. Propunham, se eleitas fossem, realizar trabalho parlamentar semelhante ao desempenhado por Marielle Franco na Câmara de Vereadores da capital fluminense.

A ideia originária do documentário nasceu, da mesma forma que as candidaturas das seis mulheres, como “resposta à execução de Marielle”. Durante as eleições de 2018, número significativo (e nunca visto) de mulheres negras resolveu registrar candidaturas em todos os estados brasileiros.

As estatísticas, que eram irrisórias, subiram exponencialmente (4.398 candidatas pretas se registraram no TSE, o que significou aumento de 93% em relação às eleições anteriores). Claro que poucas afro-brasileiras foram eleitas. O filme não esconde tal realidade. Sabe que o desafio segue imenso, que os parlamentos, tanto municipais, quanto estaduais ou federais, continuam dominados por homens brancos, vindos em maioria dos mais altos extratos da pirâmide social.

O filme centrou seu olhar em quatro candidatas do PSOL (as professoras Talíria Petrone e Rose Cipriano, a pastora evangélica e ex-assessora de Marielle, Mônica Francisco, e a jornalista Renata Souza, atual candidata à prefeitura do Rio), uma do PT (a professora trans Jaqueline Gomes) e uma do PCdoB (a arquiteta Tainá de Paula).

As diretoras – sem esconder as dificuldades – orgulham-se de ter registrado “o maior levante político conduzido por mulheres negras que o Brasil já viu”. O resultado é mais um documentário brasileiro contemporâneo – assim como “O Caso do Homem Errado”, de Camila de Moraes, “A Última Abolição”, de Alice Gomez, e “Dentro da minha Pele”, de Toni Venturi e Val Gomes – que chega para mostrar e refletir sobre questão crucial de nosso tempo. No caso, o racismo estrutural, responsável, há quase quatro séculos, pela marginalização da maioria da população afro-brasileira.

As personagens de “Sementes” – como lembram Éthel e Júlia – “mostraram, em suas campanhas, que é possível exercer uma nova forma de se fazer política no Brasil, transformando o luto em luta”. A dor da perda de Marielle serviu como estímulo à luta política, fomentou o desejo de ocupar espaço historicamente dominados por homens brancos.

As realizadoras (Éthel é negra, e Júlia, branca) souberam construir um filme cheio de vida e movimento, com personagens fortes e com muito a dizer e propor. As imagens nada têm de precário e o documentário, apesar de durar quase duas horas, se deixa ver com imenso interesse, além de constituir-se em programa obrigatório em ano eleitoral. Afinal, novos prefeitos e vereadores serão eleitos em novembro.

Sementes: Mulheres Pretas no Poder
Brasil, 105 minutos, 2020
Direção: Éthel Oliveira e Júlia Mariano
Roteiro: das diretoras em parceria com Helena Dias e Lumena Aleluia
Fotografia: Marina Alves
Trilha sonora: Maíra Freitas
Classificação indicativa: 14 anos
Estreia: dia 07/09, às 19h, gratuitamente, no canal do YouTube da Embaúba Filmes

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