As camadas visíveis e invisíveis de “O Som ao Redor”
O Som ao Redor

Por Hermes Leal

Quero aproveitar o lançamento do livro “Três Roteiros: O Som ao Redor, Aquarius, Bacurau” (Companhia das Letras), com os roteiros dos filmes de Kleber Mendonça Filho, para explicar o por quê do cinema de Kleber ser tão importante internacionalmente, o que o faz ser aplaudido nos grandes festivais do mundo. E do que se trata a estética do “cinema” em seus filmes, uma estética que o próprio cineasta reconhece existir.

Essa estética cinematográfica, que faz do cinema uma arte, “o cinema”, se encontra na estética do filme de maneira “invisível”. É parte entre o visível e o invisível de uma narrativa, em que a estética está mais profunda que o discurso, em um nível dos personagens regendo a ação.

Essa estética invisível, presente em todo bom filme, está na camada sensível da narrativa, gerada em um percurso gerativo do sentido, em que o “sentir” dos personagens, onde estão as emoções e as paixões, se esconde sob a camada do “agir”. Agora, podemos mostrar como esse agir é gerado, o que esconde as ações de um personagem. Esse universo é chamado de “mundo sensível” em contraponto ao “mundo inteligível”, em que há, nestes filmes, um predomínio do sensível (do sentir) sobre o inteligível (do agir). Um predomínio do “estado de alma” sobre o “estado de coisas”.

A camada invisível dos três filmes de Kleber Mendonça se estrutura no sentir de seus personagens, em que a narrativa se constrói a partir dessa “estética do personagem” que se organiza no roteiro. O roteiro é um domínio do personagem. E personagens estão afetados por paixões, como raiva, inveja, ódio, rancor, ressentimento, melancolia, tédio e vingança. Todas essas paixões movem os personagens e moldam a narrativa e o sentido do filme, a partir do que determina o personagem que está no roteiro.

O cinema de Kleber tem mais ênfase no sofrimento de seus personagens, em razão de suas paixões, inserindo sua cinematografia entre as melhores do mundo, exatamente mais por força de seus personagens do que pelo choque de valor que emana de suas temáticas.

No roteiro de ficção, o domínio é do personagem, assim como a montagem e a fotografia predominam no documentário. A estrutura de um roteiro se organiza em razão dos personagens, e não ao contrato. Um personagem tem sua própria estrutura de ação regida por suas paixões.

Os filmes do Kleber se encaixam neste cinema sensível, em que o estado de alma vence o estado de coisas. É o personagem, com sua “presença”, que sensibiliza a narrativa. Portanto, como o roteiro é domínio do personagem, vamos falar desse mundo que ninguém vê, que apenas imaginamos que existe. Nosso foco é o personagem, e o que ele sente, e como ele age em razão do que sente.

Assim, vamos analisar o roteiro não pelo seu discurso, pelo o que o filme diz, mas pelo o que está escondido neste discurso; como ele esconde uma estética sensível, e que se encontra no personagem, na sua estrutura interna, ainda no roteiro. Primeiro, vou analisar “O Som ao Redor” e, posteriormente, farei o mesmo com os outros dois filmes, “Aquarius” e “Bacurau”.

O roteiro de “O Som ao Redor” é estruturado no programa narrativo de “três” personagens; Bia, que tem ódio mortal pela irmã, e isso tensiona sua performance na narrativa; João, um personagem melancólico e tedioso, que vive em uma bolha de inércia, sugado pelas forças destas paixões. A melancolia é uma paixão aparentemente fraca, mas ela permanece a vida inteira no sujeito, o anula para agir. E o terceiro personagem, Clodoaldo, o vingador, é quem tem um programa narrativo completo, em um projeto de vingança, em que a jornada tensa de Bia e a jornada morna de João a encobrem. A verdade escondida, oculta durante todo o filme, é a jornada de vingança de Clodoaldo, segurança da rua, contra o homem que matou seu pai e seu tio, que só é revelada na última cena.

“O Som ao Redor” se coloca entre os melhores filmes do mundo em razão do seu jogo narrativo, entre o agir e o sentir dos personagens, de como o cineasta esconde em seu roteiro uma história que relata uma vingança em curso, do personagem Clodoaldo, com uma outra ação paralela, de Bia, com seu ódio por sua irmã, que também tem características de uma jornada de um vingador, em razão do grau de tensividade desse ódio que sente pela irmã.

Duas narrativas complementares no sentido em que Bia mostra cenas do seu ódio por sua irmã, mas Clodoaldo não mostra o ódio pelo senhor Francisco, o personagem alvo da sua vingança, que será executado pelo vingador no final do filme, quando a verdade aparece. O percurso tenso de Bia se sobrepõe ao esquema de vingança em curso, invisível, de Clodoaldo, que será revelado na última cena, em forma de uma “surpresa”. Uma ação esconde outra ação.

Mas a maestria maior de Kleber é a introdução de um terceiro personagem, na mesma história, sem se relacionar com os outros no plano do agir, mas no sensível da narrativa, que é João, um personagem que toma quase todo o filme como uma lesma em ação, afetado fortemente pelas paixões da “melancolia” e do “tédio”. Há um jogo de sentido entre Bia ser tão tensa e João ser bem lento, fraco, tedioso, em razão da força tensiva destas paixões.

O personagem João tem a paixão da “melancolia”, que é mais forte que a narrativa dos outros dois personagens, ou seja, Kleber também escondeu o sentir dos personagens, com outro sentir, além de esconder uma ação com outra ação. Escondeu o medo, o ódio e o rancor de Clodoaldo e Bia através da paixão incomodada que entedia João. O peso da melancolia é tão forte e intenso que se sobrepõe ao sentimento de ódio e vingança em curso. Ele anula essas narrativas tensas com um sofrimento infinito, um aborrecimento permanente.

Tédio e melancolia são paixões duradouras, às vezes hereditárias, e que permanecem por um período muito longo no personagem, os dominam completamente. Personagens assim vemos em filmes como “O Pântano”, de Lucrécia Marthel, e “Melancolia”, de Lars von Trier. A melancolia afeta os personagens de maneira profunda nesses filmes, como em “O Som ao Redor”.

Ou seja, além de Kleber esconder um percurso de vingança no nível da ação, ele também esconde o ódio e o rancor, que caracterizam essas paixões, com outra paixão, que é a “melancolia”. Há um jogo narrativo no ponto de vista do agir e do sentir dos personagens, em que a camada invisível do sentir se esconde no agir dos personagens. É a mesma estética invisível de “Roma”, de Alfonso Cuarón, em que a personagem Cleo, uma baba índia, esconde um grande sentimento de culpa e remorso sem que se perceba.

Os percursos visíveis e invisíveis de Bia, João e Clodoaldo 

O percurso narrativo e sensível de Bia, casada, mãe de um casal de crianças por volta de 10 anos, é marcado por sua expressão de raiva, ódio, tédio, em razão de um desafeto com sua “irmã”, e vizinha, que lhe perturba a vida, o sono, a relação com os filhos e marido, e consigo mesma.

O percurso de João não tem progressão, não pede uma liquidação, é um personagem dominado pela força anuladora da melancolia e do tédio, que o joga dentro de uma “bolha” em razão destas paixões. João não parece que viveu oito anos na Alemanha, não traz nada de seu passado na Europa, como se tivesse vivido por lá também em uma bolha.

Seu relacionamento com uma namorada é de um imenso vazio, como seus passos; seu simulacro existencial que nunca se projeta de fato em uma vontade antecipada de algo projetado mais à frente. Sua inércia permite que sua empregada more no seu apartamento com os filhos, como se aquele lugar não tivesse dono, uma presença.

O percurso de Clodoaldo é clássico, envolve um contrato de confiança e um disfarce. E, no final, uma surpresa. No primeiro ato, Clodoaldo faz um contrato de confiança com os moradores para garantir segurança, como guarda da rua, manipula os moradores, e tem um caso com a empregada do senhor que ele planeja matar. E, na sanção, é revelado o arco da verdade, que vai de “uma ilusão a uma verdade”, no final da jornada do personagem.

No percurso de Bia, a irmã é representada em um cachorro, e sua fúria é gerada, em grande parte, em razão do latido desse cachorro. Cada latido do cão é uma bomba em seus nervos, ativos em razão da paixão do ódio que lhe afeta. Seu simulacro existencial é fugir do barulho ouvindo música alta ou fumando um baseado, mas o aborrecimento permanece mesmo depois que o cachorro se cala. Suas paixões estão expostas, como são os personagens “imperfeitos”. Esses personagens imperfeitos, como Bia, são os que mais cativam o público, porque mostrar a imperfeição é mostrar uma “verdade”.

A rixa que torna Bia tensa é mostrada na compra de uma TV, em que ela adquire uma maior que a da irmã, e as duas saem nos tapas, e nas aulas de chinês para os filhos para que saibam alguma coisa a mais que os filhos da irmã. Bia vive essa tensão. Quando compra bombas, já se espera algo mais tenso que a raiva, uma ira, uma vingança contra a irmã. Mas os sons das bombas encobrem outra vingança, a de Clodoaldo em acerto de contas com seu Francisco, onde aparece a vingança verdadeira.

O fechamento do programa narrativo ganha um valor agregado ao acerto de contas, a liquidação de um dano causado por seu Francisco no passado, em que a morte do pai e do tio dos dois irmãos vingadores estava ligada também a uma disputa insignificante por causa de uma cerca que dividiam suas terras.

A estética pela surpresa

O fechamento do sentido de “O Som ao Redor”, na cena em que Clodoaldo confronta Francisco, em que a verdade de que ele estava ali para se vingar é revelada, acontece em forma de surpresa. Até então, não sabíamos por que Clodoaldo foi ser segurança daquela rua. Seu programa narrativo estava oculto até este momento. Esta é a cena mais tensa do filme e do roteiro em razão da quebra de uma implicação, e a entrada da narrativa da concessão, do inesperado ao invés do esperado.

A ênfase nesta cena, no final deste arco da verdade, o arco de Clodoaldo, é sempre ocasionada em razão do sentir do personagem. A surpresa ocorre em razão da liquidação de um ódio e de uma vingança em curso, que são duas paixões que impregnam o personagem, e o obrigam a sair em uma jornada para poder tirar esse peso da paixão de sua alma, como fez Clodoaldo e o irmão.

Essa cena tensa é sempre uma surpresa. É tensa, porque é inesperada. Ela funciona na estética do filme de forma invisível, como em “Roma”, quando, na cena final, idêntica a que Clodoaldo mata Francisco, a baba Cleo gera uma surpresa como esta de “O Som ao Redor”. Na cena em que Cleo salva os filhos da patroa Sofia de um afogamento, em que todos estão tomados de grande emoção, ela explode chorando por outro motivo, e não por aquele que todos estão sentindo, mas sobre uma “culpa” que ela tem em sua alma. Ela diz que se arrepende de ter desejado que sua filha moresse. Esta cena é a mais tensa do filme, e revela uma verdade do personagem que até então estava oculta, em razão de suas paixões e emoções.

Essa mesma estética está presente no roteiro de “Parasita”, em que a cena final, a mais tensa, também ocorre de surpresa, de inesperado, impactando o espectador como em “O Som ao Redor”, quando o senhor Kim mata o seu patrão e não o homem que acabara de matar sua filha. Ele surpreendeu a todos e ao espectador, porque foi tomado por uma paixão da “fúria”, em razão do acúmulo de vários sentimentos, que foi da raiva ao ressentimento e do ódio a cólera. Kim mata o patrão ao ser afetado por uma paixão, em razão do patrão sentir o seu cheiro, que fede a esgoto, a barata.

Até mesmo um filme pop, que se transformou em cult, “Coringa”, também tem essa estética formada pela força tensiva das paixões dos personagens, na cena final, em que Arthur Clark, o personagem que previa que ao subir ao palco se mataria, mas no momento em que chega ao palco não se mata, e mata o outro, o apresentador de TV. Foi uma surpresa, porque implicava que Arthur, que vinha ensaiando o seu suicídio com um revólver, deveria se matar, mas não cumpriu com a implicação ao ser tomado de raiva, ódio e revolta pelo apresentador de TV que antes ele idolatrava.

O que há em comum, na cena final, em todos esses filmes é que ela foi motivada pela emoção do personagem. Foi uma emoção que causou a surpresa, a parada mais forte na continuidade dos personagens, a mudança da implicação para concessão, em Clodoaldo, Kim, Cleo e Arthur. Essa surpresa faz parte de um esquema universal da estética cinematográfica, é uma estrutura sensível e invisível, aplicada intuitivamente por seus autores e escritores, quando estão seguindo as regras aristotélicas da dramaturgia, mesmo que somente em sua intuição.

E, como estamos falando aqui de um livro com os três roteiros, ainda publicarei as análises dos roteiros de “Aquarius”, sobre o percurso de raiva e ira de Clara, e de “Bacurau”, em que a raiva, o medo, a cólera e o desejo de vingança dos personagens tensionam uma esperta fábula sobre um povo que sabia se esconder. E esconder segredos que se revelam em forma de surpresas.

Na leitura de um roteiro, bem diferente de ver um filme, é onde podemos perceber melhor esses personagens imaginados. São milhões de Clodoaldo diferentes. Os roteiros de Kleber explicam tão bem os personagens que o embate tensivo deles, só no texto, sem a presença de um ator, é pura literatura. Literatura construída somente no personagem, nas suas ações cotidianas, onde os pontos de virada, os arcos evidentes, se escondem dentro do sentir deles, escondido nessa rotina do cotidiano, e não nos pontos tensivos.

Isso funciona, por exemplo, em “O Som ao Redor”, que, tanto no roteiro como no filme (que segue muito fielmente o roteiro), não mostra o fim do relacionamento de João com a namorada, o que poderia ser uma cena tensa. O que se mostra são esses intervalos, essas passagens, o presente, e não um efeito de transformação da narrativa e dos personagens que se encontram neste ponto de tensão entre eles, como deve ocorrer em cenas em que há um rompimento, uma quebra de contrato que existe no fim de um relacionamento amoroso.

A narrativa de sofrimento de Clara, com um passado imperfeito que não se fecha, é um romance profundo, detalhado no texto com precisão dessas imperfeições, que o filme, com seu movimento e luz, esconde em sua estética. Clara é impregnada de passado de três formas: pela música, por um câncer e pelo prédio antigo onde mora.

Ler um roteiro é ver uma cena inteira, o antes e o depois em uma página, bem diferente do filme, onde sempre vemos o presente, o “acontecimento”, como diria Gilles Deleuze, em “A Lógica do Sentido”. Os roteiros de Kleber permitem uma outra experiência que pode ser vivenciada antes do filme.

Se arrisquem e terão uma surpresa. Leiam os roteiros, sintam seus personagens e imaginem seus filmes.

 

 

Hermes Leal é jornalista e escritor, mestre em Cinema pela ECA/USP e doutor em Linguista e Semiótica francesa pela FFLCH/USP e autor de “As Paixões na Narrativa” (Coleção Estudos da Editora Perspectiva) e do método para escrever roteiros screenwriteronline.com/br

Relacionados

Compartilhe

(1) Reader Comment

  1. Excelente análise!!!

Deixe uma resposta para Gustavo Castanheira Borges de Oliveira Cancelar resposta

O seu endereço de email não será publicado Campos obrigatórios são marcados *

*

Você pode usar estas tags e atributos de HTML: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <strike> <strong>