Belmonte convoca elenco de ponta para contar “mentiras” à moda Ariano Suassuna
Jackson Antunes como o palhaço Romeu

Por Maria do Rosário Caetano

O cineasta José Eduardo Belmonte lança seu décimo-primeiro longa-metragem – “O Auto da Boa Mentira” – em salas físicas de cinema, nessa quinta-feira, 29 de abril. Trata-se de sua primeira incursão no universo fabular de Ariano Suassuna.

Para contar mentiras à moda do autor de “O Auto da Compadecida”, Belmonte convocou atores de primeira linha, caso de Luis Miranda, Cássia Kis, Jackson Antunes e Carlos Gregório. A eles agregou talentos jovens como Nanda Costa, Silvio Guindane, Renato Góes, Rodrigo Garcia, Jesuíta Barbosa, Johnny Massaro e Cacá Ottoni, essa uma pequenina “adolescente” que já se aproxima dos trinta anos. Fiquem, pois, atentos ao último episódio (“Disney”), por ela protagonizado.

Como estrela máxima de “O Auto da Boa Mentira” aparece o comediante Leandro Hassum, em versão magra e satirizando a própria perda de peso (e de graça).

O episódio hassúnico – “Fama” (ex-“O Sósia”) – tem ingredientes autobiográficos, além de breves trechos de stand up realizados pelo ator nos anos gordos (e inseridos como material de arquivo).

Leandro Hassum, que vive nos EUA, está orgulhoso de sua participação no filme belmontiano. Depois de Jorge Amado (“Dona Flor e seus Dois Maridos”) e Shakespeare (uma das matrizes de “Chorar de Rir “) chegou a vez do bardo armorial paraibano-pernambucano.

Aos 50 anos, Belmonte, que “trabalha mais que remador de Ben-Hur”, espera o momento certo de colocar mais três filmes em festivais ou em salas de cinema – “Alemão 2”, “As Verdades” e “O Pastor e o Guerrilheiro”.

O projeto do “O Auto da Boa Mentira” chegou a ele por convite. As produtoras Fátima Pereira, Luciana Pires e Mônica Monteiro o convocaram, em nome do Cine Group, a dirigir um filme que partisse de ideias (ou tiradas) de Ariano Suassuna (1927-2014). Muitas delas contidas em suas formidáveis aulas-espetáculo.

Contador de ‘causos’ dos mais carismáticos, o criador do romance “A Pedra do Reino” sempre se tomou de amores por mentirosos. Como João Grilo e Chicó. Ele mesmo se orgulhava de ser um bom mentiroso. E defendia, com sorriso largo, ideia singular: “devemos falar mal dos outros, mas pelas costas”. Pela frente é “falta de educação”.

O escritor nordestino sempre viu na “mentira do pobre” um mecanismo de sobrevivência. Embora soubesse, por vivência própria, que “a mentira tem perna curta”.

“O Auto” de Belmonte fundamenta seus quatros episódios – “Fama”, “Vidente”, “Furão” e “Disney” – em mentiras, algumas de pequeno porte, outras de maior consequência.

O filme é recomendado a maiores de 12 anos (praticamente censura livre), mas nem por isso deixa de colocar situações complicadas. Vide a recriação da Onça Caetana suassúnica. Interpretada por Nanda Costa (com maquiagem e vestido colado, ambos de causar furor), a Caetana banha em erotismo sua missão de ceifadora de vidas.

O ardiloso roteiro do “O Auto da Boa Mentira” foi escrito por João Falcão, Tatiana Maciel e Célio Porto. Guel Arraes, que comandou a microssérie “O Auto da Compadecida”, aquela que, transformada em filme, vendeu mais de 2 milhões de ingressos, tornou-se produtor associado. O apoio da Família Suassuna, em especial do artista plástico Dantas Suassuna, foi total. E a Globo Filmes se colocou na retaguarda.

Com tais suportes, Belmonte realizou “O Auto da Boa Mentira” há mais de três anos. Na cabeça, duas fontes assumidas – as comédias italianas dos anos 1960-70 (muitas delas feitas em episódios) e o blockbuster argentino “Relatos Selvagens”, idem. O cineasta, como é de seu feitio, colocou-se aberto à fertilidade hibridizadora dos vários gêneros cinematográficos. E mandou ver.

Ninguém espere um Suassuna sertanejo. O primeiro episódio, o de Hassum, se passa em moderno hotel de um grande centro urbano. O terceiro ambienta-se em favela carioca e tem o Rio de Janeiro, seus hábitos e costumes, como razão de ser. O protagonista, um gringo de nome Pierce (Chris Mason, de “Pretty Little Liars’), leva turistas para “safaris” no morro e derrama cosmopolitismo.

O último – “Disney” – se passa no mundo da Publicidade, com seus profissionais que pensam morar na Flórida e conhecem mais os parques e personagens walt-disneyanos que os vizinhos de porta.

Só o segundo episódio – “Vidente” – ambientado no circo, pode lembra o Nordeste suassúnico. Mas uma placa de carro dá a entender que a história se passa no interior de Minas Gerais. Quem sabe, uma deferência de Belmonte ao ator Jackson Antunes, de 60 anos, nascido na mineira Janaúba e cria de circo.

Em coletiva de imprensa, via digital, o ator contou duas histórias comoventes. Primeiro, que iniciou sua vida artística aos 9 anos, como circense, em sua cidadezinha natal. Nunca deixou de amar os palhaços.

Depois, com os olhos molhados, contou que o convite de Belmonte para que interpretasse o Palhaço Romeu, atração do Circo do Reino, lhe chegara em hora única.

Ele sofrera grave problema de saúde. O médico lhe dera 5% de chances de sobrevivência. Ficou 30 dias internado, perdeu dezenas de quilos (notem como ele está magro, sob a pesada maquiagem do velho palhaço) e escapou. Estava em casa, convalescendo, quando recebeu o convite para “O Auto”. E para, presente dos céus, interpretar o Palhaço Romeu. “Você me devolveu a vida por inteiro ali naquele momento, Belmonte. Nossa amizade se estreitou e é para sempre”, testemunhou.

“O Auto da Boa Mentira” é uma comédia temperada com ingredientes do melodrama circense, do filme de terror, do drama realista e dos ‘favela movies’. O resultado é satisfatório, o roteiro cheio de surpresas, o desempenho dos atores – apesar de cada episódio ter em média menos de 25 minutos – dos mais convincentes.

Cássia Kis brilha como uma mãe que mente “como todas as mães”, Jackson Antunes comove com seu velho palhaço e Luís Miranda rouba, com seu total domínio do tempo do humor, as cenas em que aparece. Coube a ele interpretar um bem-sucedido proprietário de agência de publicidade.

O ator negro, que recebeu substantivos elogios do cineasta britânico Stephen Frears, quando atuou, com Selton Mello, em “Jean Charles” (Henrique Goldman, 2009), também brilhou na coletiva do “O Auto da Boa Mentira”.

Bem-humorado, com sua fala inteligente e viva, ele provocou os colegas, contou histórias e destacou o prazer de atuar no “O Auto da Boa Mentira”. Mesmo que esteja em episódio de curta duração, cercado de mais de uma dúzia de atores.

E por que Miranda estava feliz? Porque lhe coubera interpretar o proprietário de uma agência de publicidade, o que não é costumeiro no audiovisual brasileiro.

“Para atores negros” – lembrou – “geralmente sobram papéis ligados à violência. Belmonte me presenteou com o Norberto, um profissional do mundo publicitário e, ainda por cima, dono da empresa”.

Belmonte sabe que reuniu um formidável elenco. Para papéis pequenos, em muitos casos, e mesmo assim, todos, protagonistas ou coadjuvantes, vestiram a camisa, acreditaram no filme.

Sobre um deles, o pernambucano Rodrigo Garcia, que interpretou “Paulette” em “Tatuagem” (Hilton Lacerda, 2006), Belmonte relembrou: “conheci o Rodrigo no Uruguai, onde dirigi série para a HBO – “El Hipnotizador”. Desde então, queria voltar a trabalhar com ele. A chance surgiu com ‘O Auto da Boa Mentira’”.

O cineasta conta que dá liberdade aos atores e que gosta de criar no próprio set, mas sempre fiel ao roteiro. Conta, também e em tom de brincadeira, que o primeiro episódio (o do sósia) foi inspirado em ‘causo’ que teria o próprio Ariano Suassuna como protagonista. Ele acabara confundido com o também magérrimo escritor (e diplomata) pernambucano João Cabral de Melo Netto. Aí resolveu engendrar narrativa envolvendo sósias.

Leandro Hassum e Nanda Costa

Na primeira versão do roteiro do episódio um, só o Paulo Mendonça (humorista famoso, interpretado por Leandro Hassum) aparecia. “Como sou muito amigo do Otávio Muller (protagonista de “O Gorila”, 2012 ), e ele me contou que, incontáveis vezes, fora confundido com Leandro Hassum (e vice-versa), pensei em um roteiro protagonizado pelos dois.

O projeto tomou novos rumos e o personagem Paulo Mendonça transformou-se em apenas uma referência no filme. Quem o protagoniza, na versão que agora chega à telas, é Helder, funcionário do RH (Recursos Humanos) que, numa convenção da firma, acaba confundido com um astro do humor. A quem, aliás, cabe animar, com suas piadas, os participantes da Convenção.

A opção final transformou Leandro Hassum no atrapalhado funcionário e, com a ajuda de imagens de arquivo, em seu sósia famoso.

Por fim, uma sugestão aos espectadores de “O Auto da Boa Mentira”: memorizem os nomes das personagens Wheydja (Giselle Batista) e Whemitta (Michelle Batista). Conhecendo-os, você se deliciará ainda mais com um dos mais divertidos momentos do episódio “Fama” e ouvirá o próprio Ariano Suassuna – presente no filme com fragmentos de suas aulas-espetáculo e entrevista a Jô Soares – apresentar “prova viva” de que a narrativa do novo “O Auto” nasceu de suas “invenciones”.

Na verdade, invencionices do povo brasileiro, que ele cultivou com paixão extrema. Jamais agiria como uma tia-avó, que – contava convicto – odiava Pedro Álvares Cabral. Afinal, se o navegador não existisse – conjecturava a velha parenta do escritor – ela teria nascido na Europa e não num cafundó do mundo chamado Brasil.

 

O Auto da Boa Mentira
Brasil, 100 minutos, 2021
Direção: José Eduardo Belmonte
Fotografia: Kika Cunha
Montagem: Quito Ribeiro, Zé Pedro Gollo
Elenco: dezenas de atores, alguns vindos de grupos de humor e stand up, e nomes conhecidos como Leandro Hassum, Renato Góes, Cássia Kis, Jackson Antunes, Nanda Costa, Luís Miranda, Sérgio Loroza, Jesuíta Barbosa, Rodrigo Garcia, Letícia Isnard, Rocco Pitanga, Cacá Ottoni, Letrux, entre outros
Distribuição: Imagem Filmes

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