Documentário finlandês mostra complexidade da luta contra o narcotráfico na Colômbia

Por Maria do Rosário Caetano

“Colombia in my Arms”, de Jenni Kivistö e Jussi Rastas, recebeu, no Brasil, título menos aliciante – “Colômbia era Nossa”. O filme, disponível no streaming (Amazon Prime, Google Play, iTunes, Mowies e Vimeo), é uma produção finlandesa, em parceria entre Dinamarca, Noruega e França. Por suas qualidades narrativas e técnicas, conquistou onze prêmios internacionais, incluindo o de melhor filme no Festival de Gotemburgo, na Suécia.

Quem se enredou nas loucas atividades (e excentricidades) do traficante Pablo Escobar, interpretado por Wagner Moura em série da Netflix, de sucesso planetário, encontrará em “Colômbia era Nossa” um documentário reflexivo e polifônico. Sem nenhum apelo à espetacularização. E, mesmo assim, capaz de nos envolver e espantar.

O casal Jenni Kivistö e Jussi Rastas foi capaz de traçar retrato matizado do país sul-americano e escolher personagens nada convencionais. O filme, embora traga muito de familiar, doméstico, quase íntimo, não perde seu caráter épico. Nem sua capacidade de mostrar como o mundo é complexo e como a solução definitiva da tragédia colombiana continua distante. Afinal, muitas vidas foram (ou serão) ceifadas por causa da folha de coca, matéria-prima da qual se extrai, depois dos devidos processos de refino, a cocaína, uma das drogas mais valorizadas e consumidas do mundo.

O espectador atento, depois de assistir a esse filme, saberá o que está por traz de ideias correntes como “guerrilha e narcotráfico andam de mãos dadas”, são “a mesma coisa”, “não há nenhum ideal revolucionário entre os que se dedicam à luta armada”, pois “não passam de traficantes”.

O ponto de partida de “Colombia in my Arms” é sobre Acordo de Paz, assinado, em 2016, pelas FARC (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia) e o Governo (2010-2018) de Juan Manuel Santos. Por seu ato, o então presidente colombiano ganhou, da Academia Sueca, o Prêmio Nobel da Paz (2016).

Durante três anos, os dois documentaristas finlandeses deram voz (e imagem) a camponeses, guerrilheiros, políticos de direita, enfim, a pessoas localizadas em pontos extremos da complexa sociedade colombiana. Filmaram na capital, Bogotá, em zonas rurais e em pequenos povoados. Sempre com equipe técnica de ponta e primoroso trabalho acústico (a cargo do design de som Rasmus Winther Jensen). E, detalhe importante, tiveram tempo de familiarizar-se com a realidade retratada. Não eram dois nórdicos caindo de paraquedas no país de Gabriel García Márquez. A documentarista Jenni Kivistö, companheira de Jussi Rastas, viveu (e estudou) durante sete anos no país sul-americano.

Quem são os camponeses colombianos, que vivem nas regiões em que as FARC encontraram sua maior expressão e capilaridade? São plantadores e cultivadores de coca. Muitos são trabalhadores braçais. Outros são pequenos (médios ou grandes) fazendeiros, que vivem de tal cultivo. Com as forças policiais – bancadas com recursos aportados por programas de combate à droga oriundos dos EUA – autorizadas a colocar fogo nas plantações cocaleiras, camponeses e fazendeiros entram em desespero.

Um quadro de questionamentos se impõe: de que viverão a partir dali? Há investimentos pré-estabelecidos para implantar, naquelas regiões, outros cultivos? Onde vão morar (choupanas ardem sob o fogo) os camponeses? Onde encontrarão trabalho? O que farão se, a vida inteira, viveram de plantar e colher coca? E os guerrilheiros, o que farão depois do Acordo de Paz?

O filme mostra o caminho de um guerrilheiro, o jovem Ernesto. Com as FARC transformadas em partido político, os que acreditam na via pacífica se submetem ao processo eleitoral, mas fracassam fragorosamente. Caso de Ernesto. Quem vai votar em um ex-guerrilheiro?

O casal Jenni Kivistö e Jussi Rastas escolheu dois nomes fortes para representar os bem colocados na pirâmide social colombiana: uma parlamentar e um milionário. Integrante das fileiras da Direita no espectro político-institucional, a congressista María Fernanda Cabal, apresenta-se sem atenuantes. É, e continuará sendo, ferrenha opositora ao Acordo do Governo com a FARC. Alta, bonita, rica e bem-vestida, ela usa o Parlamento para esculhambar o presidente Juan Manuel Santos. Pelo ponto de vista dela e dos pares que a cercam no Congresso Nacional o mandatário, ao firmar o pacto de paz, estaria entregando o país ao narcotráfico e à guerrilha. E buscando fama pessoal (um Nobel).

A “personagem” mais impressionante do filme, porém, não é Maria Fernanda, mas sim o excêntrico, aristocrata e descendente de espanhóis, Pacho, cheio de opiniões, uma delas desesperada, embora dita sem arroubos (“o apocalipse está chegando”). Sempre com um copo na mão e voz temperada em álcool, ele deixa ver os tesouros de sua imensa propriedade, expõe ideias espantosas (será que faria o mesmo se a equipe de filmagem, ao invés de europeia, fosse colombiana?) e, no melhor momento do documentário, vai assistir a uma tourada. A dupla finlandesa esculpe, então, com belíssimas imagens, poderosa metáfora do jogo de poder estabelecido pelas forças que se antagonizam no documentário.

Jussi Rastas, codiretor, roteirista, diretor de fotografia e montador (com parceiros) do filme, é um experiente produtor audiovisual da grande escola nórdica (que só encontra rivais nas escolas britânica e norte-americana), acostumado a filmar em zonas de conflito espalhadas mundo afora. A grande escola documental europeia consegue somar parceria com grandes e múltiplas redes de televisão e, sem pressa, conquistar fontes e amadurecer suas narrativas. Além de poder filmar com abundância de recursos (financeiros e artísticos) momentos de grande tensão. Nada, portanto, que se aproxime da precariedade (e muitas vezes da pressa) de produções de países do Terceiro Mundo.

 

Colômbia era Nossa | Colombia in my Arms
Finlândia, 91 minutos, 2020
Direção e roteiro:
Jenni Kivistö e Jussi Rastas
Fotografia: Jussi Rastas (também montador com Jenni Kivistö, Sully Reed e Antti Jääskeläinen)
Trilha Sonora: Povl Kristian
Disponível na Amazon Prime, Google Play, iTunes, Mowies e Vimeo

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