Anna

Por Maria do Rosário Caetano

“Anna”, o nono longa-metragem de Heitor Dhalia, recifense de 51 anos, chega aos cinemas brasileiros (em seguida, ao streaming).

Diretor de carreira eclética, que soma cults como “O Cheiro de Ralo”, obras de fôlego (“Serra Pelada” e “À Deriva”) a fracassos monumentais, como sua incursão pelo cinema norte-americano (“Gone – 12 Horas para Viver”), o pernambucano, radicado em São Paulo desde os 23 anos, mergulha em história de tema momentoso: o assédio moral e sexual em ambiente artístico.

A protagonista de “Anna”, interpretada por Bela Leindecker, é uma jovem atriz disposta a imensos esforços emocionais e físicos para representar a frágil Ofélia, em montagem de “Hamlet”, comandada por diretor tirânico (o argentino Boy Olmi).

O roteiro, assinado por Dhalia em parceria com a atriz Nara Chaib Mendes, evoca – pelo menos a quem conhece um pouco dos bastidores do teatro brasileiro – a figura de Antunes Filho, o exigente e rigoroso diretor de espetáculos notáveis como “Macunaína”, “Nova Velha Estória”, “Paraíso, Zona Norte”, “Trono de Sangue” e “Policarpo Quaresma”.

A evocação é subliminar. Até porque Dhalia escolheu para o papel de Arthur, o diretor obcecado pela perfeição, um ator argentino (tal opção cria evidente distanciamento). E uma protagonista feminina (em “Anna”, Hamlet, o angustiado príncipe da Dinamarca, interpretado por Túlio Starling, torna-se mero coadjuvante). Os maiores nomes revelados pelo diretor do Centro de Pesquisa Teatral, o CPT, eram (são) de homens (Cacá Carvalho, Luís Mello, Lee Taylor).

Pode-se, claro, evocar a experiência – além da própria Nara Chaib Mendes, egressa do CPT – da jovem Giulia Gam, que Antunes preparou e revelou como a romântica Julieta, em um Shakespeare embalado por sucessos dos Beatles. E outras atrizes que, como Nara e Giulia, passaram pela seminal escola antunisiana.

O rigor do encenador (e cineasta) Antunes Filho tornou-se fato consumado (e narrado) em dezenas de testemunhos dos que estiveram em seus elencos e espetáculos memoráveis. Mas quem ia trabalhar com ele sabia que seria submetido a ensaios exaustivos, até insanos, e que o CPT não era uma fábrica de atores para elencos de telenovelas. Ele mesmo abominava, publicamente, os que trocavam o espaço sagrado do palco (em especial o do Teatro Anchieta) por ganho pecuniário e “compra de eletrodomésticos”.

Feita tal digressão, retomemos à essência de “Anna”, o novo filme de Heitor Dhalia. A jovem e tímida Anna quer ser Ofélia. Arthur quer realizar a mais transgressora e inovadora das releituras contemporâneas da obra mais famosa de Shakespeare.

A narrativa fílmica somará realidade e imaginação, fatos cotidianos e delírios. A jovem candidata a Ofélia verá esgarçarem-se os limites entre vida e representação. Arthur usará de seu poder de decidir o destino da jovem atriz recorrendo a excessos psicológicos e, claro, fragilizando-a.

A entrega dos atores e a poderosa fotografia de Sul Serra nos envolvem no drama de Anna. Se ela mergulha no projeto arthuriano, há quem resista às ordens do obsessivo diretor. Vide a personagem de Nash Laila em breve, mas marcante, sequência.

Muitos filmes ambientados no mundo do teatro já foram feitos. A “teatralidade” da maioria deles costuma incomodar a quem está em busca de experiência cinematográfica e não assistindo a uma peça. Mas Dhalia e seus atores se saem bem.

A relação de Anna com Arthur é complexa. E nos leva a questionar: até onde um diretor pode ir em sua busca criativa? Esta discussão, que no cinema hollywoodiano resultou no MeToo, não encontra respostas explícitas na história brasileira engendrada por Nara Chaib e Heitor Dhalia.

 

Anna
Brasil, 106 minutos, 2021
Direção: Heitor Dhalia
Roteiro: Nara Chaib Mendes e Dhalia
Produção: Paranoid
Fotografia: Azul Serra
Edição: Gustavo Giani e Fernanda Krumel
Figurino: Joana Porto
Elenco: Bela Leindecker, Boy Olmi, Túlio Starling, Gabriela Carneiro da Cunha, Nash Laila, Naruma Costa, Nara Chaib Mendes, Áurea Maranhão
Distribuição: Imovision

 

FILMOGRAFIA
Heitor Dhalia (Recife, 18 de janeiro de 1970)

Longas-metragens:

2021 – “Anna” (ficção)
2019 – “Cerveja Perfeita” (doc)
2018 – “Tungstênio” (ficção)
2017 – “Yoga, Arquitetura da Paz” (doc)
2014 – “Serra Pelada” (ficção)
2012 – “Gone – 12 Horas para Viver” (ficção, EUA)
2009 – “À Deriva” (ficção, Brasil-França)
2006 – “O Cheiro do Ralo” (ficção)
2004 – “Nina” (ficção)

Curtas-Metragens:

1999 – “Conceição” (com Renato Ciasca)
1988 – “A Pantomina da Morte”

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