“O Crime do Século” e “The Pharmacist” traçam duros retratos do consumo de opióides nos EUA
“O Crime do Século”, de Alex Gibney

Por Maria do Rosário Caetano

Quem assistir ao documentário “O Crime do Século”, de Alex Gibney, na HBO, e à série “The Pharmacist”, na Netflix, compreenderá – com riqueza de detalhes e trágicos relatos de parentes de vítimas – até onde chegou a crise dos opióides.

Como diz o título escolhido por Gibney, a crise dos viciados em medicamentos derivados do ópio chegou à condição de “crime do século”, um transtorno de imensas proporções. Um dos maiores problemas sanitários dos EUA, a nação mais rica do mundo.

Nenhum dos dois documentários – o de Gibney, dividido em duas partes, com duas horas cada, e “The Pharmacist”, com quatro episódios de 50 minutos (cada) – discute o consumo de drogas ilícitas como a heroína ou a cocaína.

As duas equipes discutem, com rara coragem, o consumo de remédios derivados do ópio e fabricados, legalmente, pela poderosa indústria farmacêutica estadunidense. E vendidos, mediante receita médica, em qualquer farmácia.

Milhares de consumidores, muitos deles jovens, descobriram os efeitos de medicamentos à base de opióides e passaram a comprar receitas de médicos inexcrupulosos para, com elas, adquirir, em especial, a Oxicodona, de uso autorizado desde 1996.

Por ter se alastrado pelo interior do país, por estados que foram a pátria do western movie, a Oxicodona ganhou o apelido de “heroína caipira”. O mais certo seria chamá-la de “morfina country”, já que vem da mesma linhagem da morfina, sendo tão viciante quanto e duas vezes mais potente.

Uma farmacêutica, a Purdue Pharma, será citada, muitas vezes, nos dois documentários. Afinal, foi ela que sintetizou o “remédio”, que deveria ser administrado em pacientes terminais de câncer.

Só que a ganância dos fabricantes e de seus vendedores passou por cima de qualquer aspecto ético. Afinal, eles não enxergavam muito futuro em “remédio” destinado a pessoas que morreriam em curto prazo. Necessitavam de uma clientela o mais ampla (e duradoura) possível.

A solução para atingir a milhões de consumidores consistiu em conseguir autorização para que tais medicamentos (a Oxicodona, entre outros) tivessem seu uso autorizado em diversos tratamentos. E, depois de subornar autoridades do campo da saúde (quadros da FDA – Food and Drug Administration), o remédio passou a ser indicado como lenitivo para dores, quaisquer que fossem (artrite, enxaqueca etc). Outro medicamento, o Fentanil, chegou para ampliar a oferta legal a quem quisesse utilizá-lo como droga pesada, mas legalizada.

O mal foi se multiplicando, jovens morreram de overdose ou assassinados por traficantes de grandes quantidades desses medicamentos comprados em farmácia. Reportagens nos mais importantes jornais dos EUA foram se multiplicando.

Vieram os livros. Um dos mais famosos deles é “Empire of Paim”, o império da dor, de Patrick Radden Keefe, da equipe da influente revista The New Yorker (o livro ainda não foi traduzido pelo mercado editorial brasileiro).

O documentário de Alex Gibney, diretor premiado com o Oscar por “Um Táxi na Escuridão” (2007), dá grande destaque à família Sackler, proprietária da empresa Purdue Pharma, que fabrica medicamentos derivados de opióides. Originários do Leste Europeu (Polônia), os Sackler chegaram aos EUA, pobres e dispostos a vencer, como a maioria dos imigrantes. Estudiosos, dois deles se formam-se em Medicina e deram início à farmacêutica familiar. A empresa cresceu e tornou-se uma potência no ramo dos fármacos.

Os irmãos Sackler passaram, então, a utilizar as mais sofisticadas técnicas de convencimento dos benefícios de seus medicamentos. Passaram, também, a realizar grandes doações a universidades e museus dos EUA, Europa (o Louvre) e Israel. E seus remédios iam conquistado consumidores nas grandes cidades e, também, na América caipira.

Calcula-se que, nas últimas décadas, quase um milhão de norte-americanos morreram por excessos no uso de medicamentos contra os mais diversos tipos de dores. Começaram, então, os processos judiciais contra os fabricantes. E vieram pesadas indenizações (na casa dos milhões de dólares e, até, dos bilhões, pois demandas espalharam-se pela quase totalidade dos 50 estados norte-americanos).

A série da Netflix, “The Pharmacist”, é protagonizada por Daniel Schneider, farmacêutico de uma cidadezinha da Louisiana, que perdeu um filho, no auge de sua juventude, para os viciantes medicamentos derivados do ópio. Foi durante incursão pela noite, em busca das pílulas comercializadas por traficantes, que Danny, o filho do farmacêutico, perdeu a vida.

“The Pharmacist”, de Julia Willoughby e Jenner Furst

Quem assistiu ao documentário “O Agente Duplo”, da chilena Maite Alberdi, encontrará em Mr. Daniel Schneider, um intrépido farmacêutico, personagem cinematográfico de igual fascínio.

O protagonista do filme chileno era um inocente “detetive” (ou agente duplo) infiltrado em casa de repouso para idosos, com a missão de descobrir se determinada senhora, mãe de seus contratantes, era bem cuidada ou maltrada.

Já Mr. Schneider transforma-se em um “detetive” obstinado, que age por conta própria. Que investiga a morte do filho sem descanso. Que consegue os mais diferentes tipos de provas e as encaminha aos agentes do DEA, o Departamento Anti-Drogas dos EUA. Em sua missão, ele grava centenas de fitas, percorre milhares de páginas de catálogos telefônicos de Nova Orleans (os fatos situam-se nos primeiros anos deste século), sai sozinho pela noite, correndo sérios riscos.

A obsessão do farmacêutico é tão grande, que ele passa a ser visto como um estorvo. Mas ninguém, nem instituições como o FBI e o DEA, detém seu desejo de justiça. Por isso ganhou tanto destaque na série documental.

Do ponto de vista estético os dois filmes pouco acrescentam ao cada vez mais ousado e inventivo cinema documentário. Ambos merecem atenção pela importância do tema que abordam. E pela coragem no enfoque, já que registram, diversas vezes, nomes de pessoas (incluindo empresários poderosos) e empresas bilionárias envolvidas com o “crime do século”.

O veterano Alex Gibney, de 58 anos, tem um nome a zelar (e um Oscar na estante). Por isso, segue, com mais consistência, sua trilha como realizador de filmes sobre temas explosivos (seu nome figura em 52 produções, entre elas “À Procura de Sangue no Vale do Silício”, e um documentário sobre a Cientologia, que lhe rendeu um Emmy, em 2015). O gosto por temas controversos não deixaria a Cientologia fora do alcance de Gibney. Afinal, essa prática de autoajuda foi definida por seu criador, L. Ron Hubbard, como religião e conquistou adeptos até entre astros de Hollywood.

A série “The Pharmacist” (a Netflix preservou o título original) dá mais destaque aos nomes de seus produtores que aos de seus realizadores – a dupla Julia Willoughby e Jenner Furst (de “The Story of Kalief Browder”). Mais jovens que Alex Gibney, eles também têm se dedicado a uma das maiores tradições do documentário estadunidense: a denúncia de grandes males e o imenso poder das corporações empresariais.

O Crime do Século
Documentário de Alex Gibney, sobre a crise dos opióides nos EUA
Duração: 4 horas (divididas em dois capítulos)
Onde: HBO

The Pharmacist
Série documental de Julia Willoughby e Jenner Furst
Duração: 200 minutos (divididos em quatro episódios)
Onde: Netflix

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