“Rio Doce”, ficção pernambucana, é o grande vencedor do Olhar de Cinema
Rio Doce

Por Maria do Rosário Caetano

“Rio Doce”, estreia de Fellipe Fernandes no longa-metragem, foi o grande vencedor da décima edição do Olhar de Cinema (Festival Internacional de Curitiba), encerrada na noite da última quinta-feira, 14 de outubro.

O filme, uma ficção ambientada nas cidades de Recife e Olinda, dialoga com o cinema documental ao contar a história do jovem Thiago (interpretado pelo rapper Okado do Canal), que sente fortes dores nas costas e foi exímio praticante de break dance. Ele trabalha numa casa de jogos eletrônicos, está separado da mulher e da filha pequena, e contraiu dívidas com quem não devia.

Um dia, Thiago é procurado por Helena (Tássia Cavalcanti), moça branca, que diz a ele: tudo indica que sejam “irmãos, por parte de pai”. Encerra o encontro convidando-o para almoço na casa da família. O rapaz é recebido pelas três irmãs (além de Helena, Laura-Nash Laila e Catarina – Amanda Gabriel) e pelo marido (e filhos) de uma delas.

Fellipe Fernandes, que foi assistente de Kleber Mendonça, Renata Pinheiro e Tavinho Teixeira, constroi sua narrativa com sutileza e apego à paisagem do grande conglomerado urbano formado por Recife e Olinda. A fotografia de Pedro Sotero, de “Bacurau”, capta com força tanto os planos familiares, de maior (ou menor) intimidade, quanto os do espaço metropolitano. Destaque para sequência em que Thiago, em sua motocicleta, atravessa avenida tumultuada pelo processo de poda de galhos de grandes árvores. A cidade pulsa nas imagens. Destaque, também, para balançante Festa Reggae, com centenas de participantes e música aliciante.

“Rio Doce”, cujo título homenageia o bairro mais popular de Olinda, situa-se no tempo presente e traz evocações do passado (ou sonhos) dos personagens. Um desses momentos evocativos dialoga de forma fugaz com o cinema de horror.

A convivência entre negros (caso de Thiago), vindos das classes populares, e a família de classe média (e branca) do Recife é mostrada com sutileza e complexidade. O racismo de uma das três irmãs se dá em pequenos gestos, que a câmera capta de forma insinuante, sem panfletarismo.

O principal prêmio do Olhar de Cinema a esta instigante estreia de Fellipe Fernandes é mais que merecido. Um realizador em quem se deve prestar muita atenção.

O festival curitibano mostrou fina sintonia com filmes de temática social. Tanto que os documentários “Rolê – Histórias dos Rolezinhos”, de Vladimir Seixas, e “O Sonho do Inútil”, de José Marques de Carvalho Jr, ambos do Rio de Janeiro, foram também premiados. O primeiro mostra os rolês promovidos por populações periféricas, a maioria negra, em shoppings centers cariocas, paulistas e mineiros frequentados por classes abastadas. E a vigilância (e rejeição) imposta a esse segmento da população brasileira.

“Inútil” acompanha grupo de cinco amigos (incluindo o diretor) que, na adolescência, sem dinheiro e opções de lazer, resolvera gravar “vídeos insanos” para se divertir e chamar atenção. Se, no início, o documentário parece reduzir-se à inconsequência e porralouquice juvenil, com o passar do tempo, vai crescendo e desenhando retrato doce-amargo dos suburbanos nascidos e criados em bairros sem grife da Zona Norte carioca. O filme cresce e ganha fôlego. Vale ficar atento, também, aos próximos passos de Carvalho Jr.

O reconhecimento (uma menção honrosa) para os “Inúteis” veio da Crítica (Júri Abraccine). O colegiado entregou seu prêmio principal ao ótimo longa documental argentino “Estilhaços”, feito de registros domésticos da vida em família da jovem diretora Natalia Garayalde. Seria mais um filme com arquivos privados, se a cidade de Rio Tercero, na província de Córdoba, não fosse a sede de indústria de armamentos militares. E, fator agravante, palco de graves e danosas explosões, fonte de transtornos que marcariam, pelos anos seguintes, a vida dos munícipes. O trágico acidente ocorreu durante o Governo de Carlos Ménem (1989-1999), mais tarde suspeito (e condenado a sete anos de prisão) por tráfico de armas para a Croácia e Equador.

Confira os premiados:

Longa-metragem

. “Rio Doce”, de Fellipe Fernandes (PE) – Prêmio Olhar de melhor filme, Prêmio de melhor longa brasileiro de todas as mostras competitivas (Olhar, Outros Olhares e Novos Olhares)

. “Rolê – Histórias dos Rolezinhos”, de Vladimir Seixas (RJ) – Prêmio Especial do Júri, melhor filme pelo Júri Popular

. “Sonhos de Damasco” (Damasco Dreams), de Emilie Serri (Canadá) – Prêmio de Contribuição Artística

. “Estilhaços” (Esquirlas), de Natalia Garayalde (Argentina) – Prêmio da Crítica (Abraccine – Associação Brasileira de Críticos de Cinema)

. “O Sonho do Inútil”, de José Marques de Carvalho Jr. (RJ) – Menção honrosa do Júri Abraccine

. “Crime Culposo” (Careless Crime), de Shahram Mokri (Irã) – melhor filme da mostra Novos Olhares

. “Rumo ao Norte” (North de Current), de Angelo Madsen Minax (EUA) – melhor filme da mostra Outros Olhares

. “Apenas o Sol” (Nothing But The Sun), de Arami Ullon (Suíça-Paraguai) – menção honrosa do Júri

. “A Cidade dos Abismos”, de Priscyla Bettim e Renato Coelho (SP) – menção honrosa (Novos Olhares)

. “Mirador”, de Bruno Costa – Prêmio AVEC-Paraná – melhor longa paranaense

. “Perto de você”, de Cássio Kelm – menção honrosa do Júri AVEC-Paraná

Curtas-metragens

. “Vikken”, de Dounia Sichov (França) – Prêmio Olhar de melhor filme

. “Ouça a Batida das Nossas Imagens”, de Maxime e Audrey Jean-Baptiste (Bélgica) – menção honrosa

. “Uma Paciência Selvagem Me Trouxe Até Aqui”, de Érica Sarmet – melhor curta brasileiro (das mostras Olhar e Outros Olhares)

. “Chão De Fábrica”, de Nina Kopko – menção honrosa (curta brasileiro)

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(1) Reader Comment

  1. Estou procurando um roteirista que tenha a gentileza de ler uma história que escrevi. Quem sabe não dá um filme?

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