Cora

Por Maria do Rosário Caetano

O longa-metragem “Cora”, de Gustavo Rosa de Moura e Matias Mariani, estreia nessa quinta-feira, 23 de dezembro, nas salas de cinema. O filme, na definição da ficcionista Beatriz Bracher, autora de “Antônio”, sua fonte geradora, deve ser definido “mais como uma resposta ao romance, que como uma adaptação”.

Quem leu o livro e for assistir ao filme verá que os dois cineastas – um deles, Matias Mariani, filho de Beatriz – estabeleceram corpo-a-corpo com “Antônio” para subvertê-lo. A começar pelo título. Quem dá nome à obra cinematográfica é a finlandesa Cora (Charlotte Munck), que narra, de forma subjetiva, o filme. A ela, somam-se personagens interpretados pela veterana Vera Valdez, com passagens inesquecíveis pelo Oficina zecelsiano, André Whoong, Fabio Miguez e Sylvio Zilber.

“Cora” foi concebido para espectadores exigentes. Afinal, trata-se de “ficção baseada em texto literário”, mas na verdade resultou em matéria híbrida, construída sobre materiais de arquivo. E, para tornar o tecido ainda mais complexo, os atores dialogam com a câmera como se prestassem depoimento a um documentário.

A trama – uma distopia – situa-se no futuro (2064). É nesse tempo, razoavelmente distante, que a finlandesa Cora encontra documentário inacabado, no qual Benjamin dos Santos Kremz, seu pai brasileiro, registra investigações familiares (fatos ocorridos 50 anos antes, com seus genitores). No caso, os avós de Cora: Teo, que morreu louco quando Ben ainda era criança, e Elenir, uma mulher misteriosa de quem ele mal ouvira falar.

Em sua investigação, o pai de Cora descobre que sua desconhecida mãe e a figura paterna faziam parte de um intrincado quebra-cabeça familiar, marcado por traumas e tabus, no qual ele começava a se ver como uma das peças principais. O material presente no documentário de Ben é organizado e comentado por sua filha, que tenta compreender o passado perdido de seus ascendentes.

Matias Mariani, diretor de “Cidade Pássaro”, leu na primeira hora o romance da mãe, publicado em 2010 (e finalista aos prêmios Brasil Telecom e Jabuti). Leu e conclui que era “impossível levá-lo ao cinema”. O amigo Gustavo Moura, de “Canção de Volta”, convenceu-o do contrário, desde que se optasse por combinação de “documentário e ficção”. Assumiram, juntos, o desafio.

Quem assistiu – semanas atrás, no Festival de Brasília — a “Ela e Eu”, novo longa ficcional de Gustavo (produzido por sua companheira, a atriz e diretora Marina Person) e vier a compará-lo ao novíssimo “Cora”, levará um susto. Os filmes são totalmente diferentes.

“Ela e Eu”, de narrativa convencional e fincado no desempenho dos atores (Andrea Beltrão e Eduardo Moscovis conquistaram os troféus Candango de interpretação), está muito distante dos experimentos narrativos de “Cora”.

Matias Mariani, Beatriz Bracher e Gustavo Rosa de Moura © Marina Person

Mariani lembra que, ao longo do processo de realização do filme, ele e Gustavo foram, cada vez mais, distanciando-se do livro. E que “a própria Beatriz Bracher, no caso minha mãe, ao assistir ao primeiro corte, sugeriu formulação que adotamos – a de filme-resposta – pois ela entendeu que o filme propunha uma reação ao que o livro narra, e não propriamente a sua simples transposição para outra mídia”.

Os dois diretores gostaram da ideia proposta pela escritora. Ela foi adotada e passou a ditar o rumo da edição final do filme, assinada por Alexandre Wahrhaftig, Bernardo Barcellos e Luísa Marques. “De fato, demos uma resposta ao livro”, constata Mariani.

Os desafios na criação desse “filme-resposta” foram muitos. Gustavo admite que “contar história tão complexa, tão cheia de nomes e viradas, em que muitas camadas de tempo se sobrepõem, sem deixar o espectador confuso (ou entediado) constituiu nosso maior desafio”.

Mariani, depois de lembrar que “Cora” se passa “num tempo futuro, no qual o Brasil nem existe mais”, uma nova dificuldade se fez presente: “tivemos que imaginar qual seria esse futuro a partir do qual o filme fala para o espectador. Ao mesmo tempo que achava importante manter vaga a descrição desse futuro no filme, era importante, para o construirmos, termos uma imagem clara, mesmo que esta não aparecesse para o espectador”.

O filme, que foi selecionado para a principal competição do Festival do Rio (a Première Brasil), vale-se de pesquisa arqueológica no próprio mundo das imagens. Em gavetas e arquivos da família, Cora encontrará filmes em Super-8 – com sua textura característica –que dão à narrativa a liberdade que marca a videoarte. Um projeto, no mínimo, intrigante.

A relação cinema e literatura é das mais complexas. Guimarães Rosa ficou profundamente decepcionado com o resultado do “Grande Sertão: Veredas”, dos irmãos Santos Pereira (1964). A crítica (e um crítico, no caso Sérgio Augusto) disse que ao invés de realizar “um épico”, os mineiros realizaram “um hípico”. Depois, Rosa ficou muito satisfeito com “A Hora e Vez de Augusto Matraga”, de Roberto Santos (1965). João Antônio renegou “O Jogo da Vida” (1977), que Maurice Capovilla realizou a partir de “Malagueta, Perus e Bacanaço”. Jorge Amado vendia os direitos de seus livros para TV ou cinema e fazia questão de se desapagar, para não se decepcionar.

Beatriz Bracher teve fairplay. Até formulou um conceito – “um filme-resposta” – para o que dois diretores aprontaram com seu “Antônio”. Como ela é uma das autoras do belíssimo e sutil roteiro de “Os Inquilinos”, o melhor filme de Sérgio Bianchi, vale ir ao cinema conferir a transmutação de “Antônio” em “Cora”.

 

Cora
Brasil, Dinamarca, 81 minutos, 2021
A partir do romance “Antônio”, de Beatriz Bracher
Direção: Gustavo Rosa de Moura e Matias Mariani
Desenho de som: Peter Albrechtsen
Elenco: Vera Valdez, Fabio Marques Miguez, Sylvio Ziber, Andre Whoong, Charlote Munk. Edição: Alexandre Wahrhaftig, Bernardo Barcellos e Luísa Marques

 

FILMOGRAFIA

Beatriz Bracher (São Paulo/SP, 1961)

2021 – “Cora” (baseado no romance “Antônio”)
2017 – “Que Língua Você Fala?”, de Elisa Bracher (corroteirista)
2012 – “O que Traduz Boris?”, média-metragem de Daniel e Jorge Grispum (roteirista)
2011 – “Abismo Prateado”, de Karim Ainouz (corroteirista)
2009 – “Os Inquilinos”, de Sérgio Bianchi (corroteirista)
2000 – “Cronicamente Inviável”, de Sérgio Bianchi (argumentista)

Gustavo Rosa de Moura (São Paulo/SP, 1976)

2022 – “Ela e Eu” (ficção)
2021 – “Cora” (codireção de Matias Mariani)
2016 – “Canção da Volta” (ficção)
2015 – “Piadeiros” (doc)
2010 – “Cildo” (doc)
2017 – “Guarnieri” (doc), de Francisco Guarnieri (produtor)
2016 – “Precisamos Falar do Assédio” (doc), de Paula Sachetta (produtor)
2015 – “Califórnia” (ficção), de Marina Person (produtor)

Matias Mariani ( São Paulo/SP, 1979)

2021 – Cora” (codireção de Gustavo R. De Moura)
2020 – “Cidade Pássaro” (híbrido)
2014 – “A Vida Privada dos Hipopótamos” (doc, codireção de Maíra Bühler)
2010 – “Ela Sonhou que Eu Morri” (doc, codireção de Maíra Bühler)
2007 – “Elevado 3.5”, doc de Sodré, Bühler e Pastorelo (produtor)
2006 – “Sonhos de Peixe”, ficção de Kyrill Mikhanovsky (coprodutor)

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