“A Mão de Deus”, de Sorrentino, e “Ennio”, de Tornatore, triunfam na Noite dos prêmios Donatello
A Mão de Deus

Por Maria do Rosário Caetano

A passagem de Diego Maradona pelo Napoli continua rendendo glórias em solo italiano. O filme “A Mão de Deus”, que Paolo Sorrentino dedicou ao craque argentino, sagrou-se o grande vencedor da sexagésima-sétima cerimônia de entrega dos prêmios David di Donatello, o Oscar peninsular.

O longa-metragem, que recebera 16 indicações, conquistou cinco, sendo duas as mais disputadas – melhor filme e melhor diretor. Recebeu ainda o Donatello de melhor fotografia (para Daria D’Antonio), atriz coadjuvante (Teresa Saponangelo), que interpreta a mãe do protagonista, adolescente que torce pelo time de Maradona e sonha ser cineasta. E o Donatello Jovem.

Paolo Sorrentino, que ganhou o Oscar de melhor filme estrangeiro com “A Grande Beleza”, foi muito aplaudido na noite dos David di Donatello. Mas quem acabou ovacionado, para valer, foi seu mentor, o cineasta Antonio Capuano, de 82 anos.

Aqueles que assistiram ao festejado “A Mão de Deus” nos cinemas (ou na Netflix) lembram-se dele. Afinal, Capuano é visto, representado por um ator, na obra ficcional sorrentiniana, no final da década de 80, quando fazia filmes populares na sua Nápoles natal. E acabou servindo como orientador do jovem aspirante a cineasta. Ao receber um Donatello especial das mãos do discípulo Sorrentino, Capuano levou a plateia ao delírio.

Outro filme festejadíssimo pela Academia Italiana de Cinema foi “Ennio”, longa documental (mais de duas horas), de Giuseppe Tornatore. O diretor de “Cinema Paradiso” narrou a trajetória do compositor, arranjador e maestro Ennio Morricone (1928-2020) e recebeu seis indicações ao David di Donatello. Inclusive a de melhor filme. Perdeu, nessa categoria, para o favoritíssimo “A Mão de Deus”, finalista ao Oscar hollywoodiano, mas venceu como melhor documentário, melhor montagem (Annalisa Schillaci e Massimo Quaglia) e melhor som (Fabio Venturini, Francesco Vallocchia e Gilberto Martinelli). Nada mal para um filme não-ficcional. E mais que compreensível, pois Morricone, morto em julho de 2020, é uma instituição do cinema peninsular e mundial. Suas trilhas para o western spaghetti e realizações de Bertolucci, Sérgio Leone, Montaldo, Bolognini, Argento, Polanski, Oliver Stone e Tarantino marcaram época.

Registre-se que Tornatore enfrentou concorrência fortíssima: o documentário “Marx Pode Esperar”, de Marco Bellocchio, exibido ano passado na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. O diretor de “Vincere” e “O Traidor” empreende denso mergulho na vida familiar para refletir sobre o suicídio de seu irmão gêmeo, Camilo Bellocchio, aos 29 anos de idade. E num ano-chave para a geração do cineasta: 1968. Um filme tão impactante quanto “No Intenso Agora”, de João Moreira Salles.

Havia, ainda, outro grande nome do cinema italiano contemporâneo na disputa pelo Donatello de melhor documentário – o de Alice Rohrwacher, com “Futuro”.

“Freak Out”, de Gabriele Mainetti, também recebeu vários Donatello, mas todos na área técnica. Partiu na frente, com o mesmo número de indicações de “A Mão de Deus”, 16. Sua proposta de narrar, com muitos efeitos especiais, a história de quatro personagens, dedicados ao circo e atingidos pelos acontecimentos da Segunda Guerra Mundial, resultou em cinco estatuetas: melhor fotografia (Michele D’Attanasio, dividido com “A Mão de Deus”), design de produção (Massimiliano Sturiale e Ilara Fallacara), maquiagem (Davide De Luca, Emanuele De Luca e Diego Prestopino), efeitos visuais (Stefano Leoni), e cabelos (Marco Perna).

Registre-se o merecido prêmio de melhor ator para Silvio Orlandi. O veterano intérprete brilha em “Ariaferma”, de Leonardo di Costanzo. O filme, exibido ano passado em Festival de Cinema Italiano no Brasil, mostra um pequeno grupo de prisioneiros em cárcere que está para ser desativado. O roteiro original, dramático e tenso, rendeu a seus autores (Leonardo di Costanzo, Bruno Oliviero e Valia Santella) o David di Donatello.

“Il Fratelli De Filippo” (Os Irmãos De Filippo), dirigido pelo ator Sergio Rubini, conta a história de importante família artística italiana, entre eles Eduardo De Filippo (1900-1984), dramaturgo, ator e cineasta. O filme, produzido pela RAI, só ganhou um Donatello – o de melhor trilha sonora, para Nicola Piovani, de 75 anos, outra lenda da cinematográfica peninsular.

A guerra na Ucrânia tem abalado tantos os europeus, que levou os italianos a cometerem um desatino: escolher como melhor filme estrangeiro o apenas simpático “Belfast”, de Kenneth Branagh, deixando de lado o magnífico “Drive my Car”, de Ryûsuke Hamaguchi.

Confira os premiados:

. “A Mão de Deus”, de Paolo Sorrentino – melhor filme, diretor, atriz coadjuvante (Teresa Saponangelo), fotografia (Daria D’Antonio), Prêmio Donatello Jovem

. “Ennio”, de Giuseppe Tornatore – melhor documentário, montagem (Annalisa Schillaci e Massimo Quaglia), som (Fabio Venturini, Francesco Vallocchia e Gilberto Martinelli)

. “Freak Out”, de Gabriele Mainetti – melhor fotografia (Michele D’Attanasio, dividido com “A Mão de Deus”), design de produção (Massimiliano Sturiale e Ilara Fallacara), maquiagem (Davide De Luca, Emanuele De Luca e Diego Prestopino), efeitos visuais (Stefano Leoni), cabelos (Marco Perna)

. “Ariaferma”, de Leonardo di Costanzo – melhor ator (Silvio Orlandi), melhor roteiro original (Leonardo di Costanzo, Bruno Oliviero e Valia Santella)

. “A Chiara”, de Jonas Carpignano – melhor atriz (Swamy Rotolo)

. “O Rei do Riso”, de Mario Martone – melhor ator coadjuvante (Eduardo Scarpetta), figurino (Ursula Patzak)

. “Piccolo Corpo” (Small Body) – melhor filme de diretor estreante (Laura Samani)

. “L’Arminuta”, de Giuseppe Bonito – melhor roteiro adaptado (Monica Zapelli, Donatella Di Pietrantonio)

. “Il Fratelli De Filippo”, de Sergio Rubini – melhor trilha sonora (Nicola Piovani)

. “Diabolik”, de Manetti Bros – melhor canção (La Profondità degli Abissi, de Manuel Agnelli)

. Donatello Especial para Giovanni Ralli (70 anos de carreira), para Sabrina Ferilli e para Antonio Capuano

. “Belfast”, de Kenneth Branagh (Irlanda/Inglaterra) – melhor filme estrangeiro

. Melhor produtor – Andrea Occhipinti, Stefano Massinzi, Gabrielli Minetti , Mattia Guerre – RAI Cinema

.”Me Conto Te – A Vingança do Senhor S”, de Gianluca Leuzzi – Júri Popular

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