O Pai da Rita

Por Maria do Rosário Caetano

A Rita, aquela que levou o sorriso de Chico Buarque no sorriso dela, deixando-lhe mudo o violão, virou filme. Um delicioso longa-metragem, o sexto de Joel Zito Araújo, o “Spike Lee brasileiro”.

“O Pai da Rita” estreia nos cinemas, nesta quinta-feira, 19 de maio, com elenco encabeçado pelo trio Ailton Graça, Wilson Rabello e Jéssica Barbosa e, em papéis também importantes, Léa Garcia, Elisa Lucinda, Nathalia Ernesto, Sidney Santiago, Paulo Betti e Francisco Gaspar.

Na retaguarda, a deputada Erica Malunguinho e a Velha Guarda da Escola de Samba Vai-Vai.

Um filme cheio de balanço, samba e ‘suinguera’, pleno de vida e alegria. Com fotografia vibrante de Lauro Escorel. Ninguém espere deparar-se com uma São Paulo cinzenta e fria. A Pauliceia do mineiro Joel Zito Araújo é um mix de Salvador com o Rio de Janeiro suburbano, plena de energia e sons, corpos humildes, mas cobertos com roupas cortadas segundo design africano, como se fossem emprestadas pela turma do Pelourinho ou de Fela Kuti, aliás, personagem central do delicioso “Meu Amigo Fela”, longa documental que correu mundos.

Ninguém pense que “O Pai da Rita” é filme saudosista, ambientado num Bixiga idealizado, embalado por composição de um Chico Buarque dos anos 60, jovem estudante de Arquitetura da USP, morador de cidade menos vertical e violenta. Joel Zito Araújo, do seminal “A Negação do Brasil”, faz um filme plugado em seu tempo. E seu tempo, como diria Elza Soares, é NOW. O letrista Roque (o mineiro Wilson Rabello, o professor de “Bacurau”) vai a uma noitada de suinguera com a jovem Gracinha (Nathalia Ernesto), vestido como se fosse um Ismael Silva. Chiquérrimo. O malandro Pudim (Ailton Graça), mesmo sem ser convidado, vai atrás, faz cara feia, mas acaba gostando da novidade. É tudo, afinal, música de preto.

O filme tem um fiapo de história: dois amigos ‘durangos’ dividem uma kitinete no Bixiga — o arrumadinho Roque e o barrigudo e desleixado Pudim. São parceiros. O primeiro faz letras, o segundo melodias. No passado, amaram uma mesma mulher, passista da Escola de Samba Vai-Vai, que desaparecera. Descobrem que ela tivera uma filha de um deles. Quem seria o pai?

A moça, bela e trabalhadora, ao ver os dois se desentendendo, indo às vias de fato, insinua que pode ser filha de Chico Buarque, que conhecera a mãe-passista e a ela dedicara o samba “A Rita”. Ao saber que o compositor fazia temporada em São Paulo, com o show “Caravana”, Pudim resolve “dar ruim no galego”. E trama um plano…

O que interessa a Joel Zito é construir um canto de amor aos sambistas e moradores da Bela Vista, a seus corpos e ritmos, a seus batuques e virações, às suas gírias e falares. Para tanto, contou com roteiro esperto de Di Moretti, com diálogos curtos e certeiros, sem nenhum didatismo, nem pregação ou lição de moral. Tudo flui no ritmo da vida cotidiana. Há uma sequência de antologia no filme. O descolado Pudim encontra-se com a prostituta Neide, vestida como uma rainha da Etiópia, versão Olodum. Ela está fazendo ponto, junto com várias colegas. Ou seja, esperando cliente. E ele duro que só. A convida para um programa. Ela rejeita. Ele insiste. E faz o apelo final: vamos fumar um “beck”. Ela gargalha e aceita o “beck com cerveja”. Ele não tem dinheiro nem para a erva. Ela retira uma, da boa, do seio farto, e eles a queimam, felizes, com um papo recheado de gírias improvisadas. Justificam o ingresso.

O filme tem muito de improviso, da linguagem das ruas, do calor que emana de cada imagem de Lauro Escorel, de cada som da trilha sonora, que vai da “Rita” (na voz de Chico Buarque), a sambas do Bixiga, de Geraldo Filme (“Vai no Bixiga Prá Ver” e “Vai Cuidar da Sua Vida”), “Vai Vai Brasil” (Zé Carlinhos, Zeca do Cavaco e Naio Denay), passando por “Suinguetto”, de Danna Lisboa, “Cabaré Globalizado” (Patativa do Assaré), “O Calor da Palavra” (Da Chama"), “Estrela Guia” (Ademir da Silva e Nandão) e “A Música Venceu” (Zeca do Cavaco, Afonsinho BV, Fábio Enrique e Ronaldinho FDQ). Tudo com alta qualidade técnica, sem “mambembice”, sem precariedade.

“O Pai da Rita” é diversão garantida. É um canto de amor à negritude. São 90 e poucos minutos de contato com um Brasil profundo. Se Vinícius de Moraes tivesse assistido a esse longa-metragem, teria mudado de ideia. Nunca mais diria que São Paulo é o “túmulo do samba”. Aqui tem carcamanos como o Sauro, de Paulo Betti, o black Padre Chiquinho, de Eduardo Silva, a japa Sook de Adriana Tanikawa, o nordestino Macaxeira, tão puritano, de Francisco Gaspar…E tem os sambistas da Vai-Vai… Teve Adoniran Barbosa, Geraldo Filme, Paulo Vanzolini, viu crescer e ‘adolescer’ o carioca Francisco Buarque de Hollanda, filho de pai paulista e avô pernambucano. Não percam “O Pai da Rita”. É diversão garantida ou seu dinheiro de volta.

 

O Pai da Rita
Brasil, 97 minutos, 2022
Inspirado livremente nas composições “A Rita” e “Samba de um Grande Amor”, ambas de Chico Buarque
Direção: Joel Zito Araújo
Elenco: Ailton Graça, Wilson Rabello, Jéssica Barbosa, Léa Garcia, Elisa Lucinda, Nathalia Ernesto, Sidney Santiago, Paulo Betti, Francisco Gaspar, Erica Malunguinho, Oswaldinho da Cuíca
Fotografia: Lauro Escorel
Produção: Casa de Criação Cinema, em coprodução com Globo Filmes e Canal Brasil
Distribuição: O2 Play

 

FILMOGRAFIA
Joel Zito Araújo (Nanuque/MG, novembro de 1954)

2000 – “A Negação do Brasil – O Negro na Telenovela Brasileira” (doc)
2005 – “As Filhas do Vento” (ficção)
2009 – “Cinderelas, Lobos e um Príncipe Encantado” (doc)
2012 – “Raça” (doc, codireção de Meg Mylan)
2019 – “Meu Amigo Fela” (doc)
2022 – “O Pai da Rita” (ficção)

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