Retrato social de um Brasil grande

A década de 1970 passa à história como a época do Brasil grande, do milagre econômico, de slogans como “Brasil: ame-o ou deixe-o”, de afirmação de orgulho nacional com conquistas no futebol, na Fórmula 1, no boxe, de obras faraônicas como a Usina Hidrelétrica de Itaipu e a Rodovia Transamazônica. Década em que o regime militar se impôs com firmeza e forte repressão aos movimentos de resistências, as artes e o cinema em especial foram cerceadas, quando muito serviram de propaganda para o regime.

Exemplo sintomático foi “Independência ou Morte” (1972), de Carlos Coimbra, maior bilheteria do ano em que a ditadura se aproveitou do sesquicentenário da independência para catalisar sentimentos ufanistas, fazendo de D. Pedro I uma figura heroica, quase mítica, que conduziu a emancipação do país. Mas a ditadura militar no Brasil, principalmente, nos chamados “anos de chumbo”, foi um período mais complexo do que as aparências revelam.

No mesmo ano de “Independência ou Morte”, Joaquim Pedro de Andrade fez “Os Inconfidentes”, justamente, uma espécie de contraponto ao filme de Coimbra. No clima de euforia dos temas patrióticos, Joaquim Pedro fez uso da metáfora dos inconfidentes para mostrar o descontentamento com o regime e a de existência de movimentos subterrâneos de resistência. Ou seja, aquele foi um período de realizações subservientes, tanto quanto de incursões arriscadas, no meio fio, que punham em xeque o otimismo nacionalista da ditadura.

Neste último caso, se insere “Iracema, uma Transa Amazônica” (1976), dirigido por Jorge Bodanzky e Orlando Senna, com lançamento em DVD pela Videofilmes. Considerado o período e as circunstâncias de realização, ao contrário de “Os Inconfidentes”, que jogou com elementos de sarcasmo e burlou a censura, a fita de Bodanzky/Senna foi proibida de circulação e somente lançada no circuito em 1981, quando a abertura praticamente não impunha restrições. Certo, no ano que foi realizado “Iracema…”, dificilmente passaria pelos censores, pois se trata de uma das películas mais corrosivas sobre o otimismo do regime militar na época do Brasil grande.

Praticamente, sem meios tons – vale dizer: figuras de efeito como metáforas –, Bodanzky/Senna tomam a câmara e exibem os contrapesos à realidade social de populações no interior da selva, sob o impacto da construção da rodovia gigante que cruzaria a floresta. Por meio de uma narrativa em estilo semidocumental, à margem da estrada, “Iracema…” traz à cena questões incômodas, pouco vistas no cinema brasileiro de então, como a grilagem de terras, o desmatamento, as queimadas e a prostituição adolescente.

No cerne da narrativa, o encontro entre o caminhoneiro Tião Brasil Grande e Iracema, uma adolescente de quinze anos. O filme começa com a chegada de barco da família de Iracema a Belém, para a festa do Círio de Nazaré. Na cidade, ela passa a conviver com prostitutas que a ensinam a ganhar dinheiro com a venda do corpo. Entre os clientes que surgem no cabaré em que se prostitui, ela conhece Tião, que ganha dinheiro num caminhão traficando madeiras. Ela se engraça com o jeito desbundado dele e acaba seguindo-o nas viagens.

Mas Tião queria Iracema apenas para coitos ocasionais; depois de algumas transas, ele se enjoa dela e a deixa num prostíbulo de beira de estrada. A história segue, cada um toma seu rumo, o filme em seu ritmo, e eles voltam a se encontrar no fim da narrativa. Tião, então, havia passado de traficante de madeira a de gado, enquanto Iracema sobrevivia em condições de miséria, sem qualquer perspectiva. Na cena final, cada um toma seu rumo…

Premiado como melhor filme no Festival de Brasília de 1980, “Iracema…” hoje talvez tenha seu efeito atenuado, em razão de uma realidade social conhecida de quem quer que tenha informações mínimas sobre as condições de vida no norte do país. Mas isso não diminui sua importância, pelo contrário. Trata-se de um filme que inova em seu momento de realização, tanto quanto se expõe a riscos que devem ser sempre lembrados. A coragem de Bodanzky/Senna para concebê-lo naquelas circunstâncias é um gesto “quase heroico”, de quem coloca arte e política acima do jogo de conveniência do mercado.

Ainda, passada a ditadura, e a provocação de um filme que joga com um ícone da força simbólica do regime – a construção da Transamazônica –, impressiona e estarrece como hoje “Iracema…” é atual. Fosse mudada a data de realização, abstraídos os condicionantes políticos do período, as imagens captadas pelas lentes de Bodanzky/Senna exibiriam as mesmas situações; ou seja, grilagem de terras, desmatamentos, prostituição, miséria. Não houvesse qualquer outra razão, “Iracema, uma Transa Amazônica” deve ser visto para que se reflita sobre o que há de triste e endêmico no interior desse país gigantesco.

 

Por Humberto Pereira da Silva, professor de ética e crítica de arte na FAAP (Fundação Armando Álvares Penteado)

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