Festival de Cinema Latino-Americano faz sua maior edição

Por Maria do Rosário Caetano

Ao invés de assombrar-se com a crise econômica e o momento de dificuldades políticas e econômicas enfrentados pelo país, o comando do Festival de Cinema Latino-Americano de São Paulo resolveu ousar e transformou sua 14ª edição na maior de todas já realizadas.

Desta quarta-feira, 24 de julho, até a outra quarta, 31, serão exibidos 148 filmes, oriundos de 16 países das Américas Hispânica e Lusitana, em diversas salas paulistanas (destaque para o Memorial da América Latina e CineSesc) e uma campineira (Instituto CPFL). Uma série de debates, encontros e oficinas se somarão a quatro homenagens a importantes nomes do audiovisual do subcontinente, os atores Léa Garcia e Patrício Contreras e as diretoras Tata Amaral e Cláudia Priscilla.

Para a noite inaugural, no gigantesco Auditório Simon Bolívar, do Memorial da América Latina, foi convidado o inédito “Fakir”, sétimo longa-metragem da atriz e diretora Helena Ignez. A Janete Jane de “O Bandido da Luz Vermelha” e “A Mulher de Todos” registra, em clima de ensaio poético, a atividade de faquires e faquiresas, estes seres estranhos, que se impõem desafios como dormir em camas forradas de pregos, engolir espadas ou caminhar sobre brasas.

A cineasta lembra, no vibrante trailer do filme, que houve um tempo – em especial na década de 1950 – que a França e o Brasil tornaram-se o paraíso destes seres que tiveram em dervixes-sufis-eremitas seus ancestrais. Nestes dois países, vicejou o “faquirismo como espetáculo”, numa soma de campeonatos mundiais de jejuns, suplícios e torturas.

Helena estará nas telas do festival com outro filme – “A Mulher de Luz Própria” – sua nada convencional cinebiografia, construída por sua filha, a cineasta Sinai Sganzerla.

Na noite de encerramento da festa latina, que acontecerá no CineSesc, será prestado tributo a Antunes Filho (1929-2019), diretor teatral e autor de um único longa-metragem, o instigante “Compasso de Espera” (1973). No elenco do filme, protagonizado por Zózimo Bulbul (1937-2013) e Renée de Vielmont, está a atriz Léa Garcia, uma das homenageadas deste ano. Antunes escolheu como tema de seu único projeto cinematográfico (fotografado com ousados enquadramentos por Jorge Bodanzky), o racismo da sociedade brasileira. E o fez a partir de uma complicada história de amor: a do publicitário negro interpretado por Bulbul com a jovem branca (Renée de Vielmont).

Léa Garcia, de 86 anos, iniciou sua carreira no TEP (Teatro Experimental do Negro), coletivo cênico criado por Abdias Nascimento, de quem seria esposa (e mãe de dois de seus filhos). Em seis décadas de trabalho ativo e festejado, a atriz dedicou-se, também, ao cinema e à TV. Ao citar alguns de seus principais filmes, não se pode esquecer de “Orfeu Negro”, “Ganga Zumba”, “Compasso de Espera”, “A Deusa Negra” e “Filhas do Vento”. Nem das telenovelas que a tiveram em seus elencos, como “A Escrava Isaura”, “Tocaia Grande”, “Xica da Silva”, “Pacto de Sangue” e “Abolição”. Ninguém pense que, por estar aproximando-se dos 90 anos, Léa aposentou-se. De forma alguma. Ela tem feito participações especiais em projetos como as séries “Carcereiros”, “Sob Pressão” (e adorou participar de “Mister Brau”).

Para representar a América de expressão espanhola, o festival prestará homenagem a Patrício Contreras, 71 anos, um ator de duas pátrias. Nascido no Chile, o grande intérprete, apelidado de “El Negro”, exilou-se na Argentina em 1973, quando do triunfo do golpe militar que derrubou o Governo Allende, ao qual dedicava grande fervor. Inscreveu seu nome na história tanto do cinema argentino, quanto do chileno. Interpretou o Prof. Benitez no oscarizado “A História Oficial” (Luiz Puenzo, 1985), trabalhou com Jane Fonda e Gregory Peck, em “Gringo Viejo” (também de Puenzo), com Miguel Littín, no exílio (“Sandino”), e foi premiado no Festival de Havana por seu trabalho em “Made in Argentina”, de Juan José Jusid (1986).

Com o fim da ditadura Pinochet, Contreras voltou a trabalhar em seu país de origem.  Sob a direção de Ricardo Larraín (1957-2016), protagonizou “A Fronteira”, filme que teve boa aceitação no Festival de Gramado. Atuou em mais uma produção internacional (“De Amor e de Sombras”, de Betty Kaplan, a partir do romance de Isabel Allende). O festival latino vai homenageá-lo com mostra de quatro filmes. Além de “A Fronteira”: “A Paixão de Michelangelo”, de Estebán Larraín, “Cachimba”, de Sílvio Caiozzi, e “Calzones Rasgados”, do ítalo-chileno Arnaldo Valsecchi.

Tata Amaral, paulistana de 58 anos, é diretora de vários curtas (entre eles “Viver a Vida”) e de seis longas-metragens, sendo dois de imenso vigor (“Um Céu de Estrelas”, de 1996, e “Hoje”, de 2011 – este lhe rendeu o Troféu Candango de melhor filme no Festival de Brasília). Seus outros trabalhos – “Através da Janela”, “Antônia”, “Trago Comigo” e “Sequestro Relâmpago” – se não são potentes como os dois mais festejados, mostram o quanto a cineasta segue antenada com questões prementes da história social brasileira. Destes, há que se destacar “Antônia”, protagonizado por jovens da periferia paulistana. A repercussão do filme o levou a transformar-se em série exibida pela Rede Globo, em horário nobre.

Cláudia Priscilla, de 46 anos, é diretora e parceira de vida e trabalho do cineasta Kiko Goifman. Ela ajuda o companheiro a escrever e a produzir seus filmes e, juntos, assinaram os ousados “Olhe pra Mim de Novo” (2011) e “Bixa Travesty” (2019). Sozinha, Cláudia dirigiu o sensível documentário “Leite e Ferro” e, com Pedro Marques, construiu “A Destruição de Bernardet”. O acervo da Paleotv, empresa que une Cláudia e Goifman, constitui-se no mais expressivo do país no que se refere às novas constituições de gênero e afetos brasileiros. Séries de TV, curtas e longas documentais (ou híbridos) somam-se para oferecer, aos interessados, material de imensa riqueza e complexidade.

Léa Garcia, Tata Amaral e Cláudia Priscilla participarão de encontro especial, com moderação da atriz e cineasta Marina Person. Em pauta, a presença das “Mulheres do Cinema” (dia 31, às 14h30, no Centro Cultural São Paulo).

A programação da 14ª edição do Latino SP é das mais variadas. Além de “Fakir”, outros longas brasileiros, escolheram o festival como primeira vitrine nacional. Caso de “No Coração do Mundo”, dos mineiros Maurílio e Gabriel Martins, nova produção do coletivo Filmes de Plástico, oriundo de Contagem, na Grande BH. Mesmo caso de “Eldorado, Mengele Vivo ou Morto?”, de Marcelo Felipe Sampaio, e “Ensaio sobre o Fracasso”, de Cristiano Burlan, autor do vigoroso “Mataram meu Irmão”, vencedor do Festival É Tudo Verdade.

Todos os filmes programados pela mostra “Contemporâneos – Filmes da América Hispânica” são inéditos no território brasileiro. A curadoria do festival, liderada por Francisco César Filho, destaca o cubano “A Música das Esferas”, de Marcel Beltrán, e o argentino “Eu Menina”, de Natural Arpajou, produções que trarão seus realizadores a São Paulo, para conversar com o público. Outros destaques da curadoria, neste segmento: o venezuelano “Eu Impossível”, de Patricia Ortega, o uruguaio “Pornô para Iniciantes”, de Carlos Ameglio, o colombiano “Menina Errante”, de Rubén Mendoza, o paraguaio “3-1= 2 Rodando”, de José Alcazar, e o mexicano “Asfixia”, de Kenya Márquez.

O Chile tem sido, dos países hispano-americanos, o que mais tem colaborado com o Latino SP. Este ano, pela terceira vez, o paulistano poderá assistir à mostra “Foco Chile”, com quatro produções (“A Mulher de Lama”, “Iglu”, “O Guru” e “O Pacto de Adriana”), que se somarão aos títulos da Homenagem a Patricio Contreras. E, ainda, desfrutar da oficina “Atuação para Audiovisual”, com o próprio Contreras (terça-feira, 30, na Biblioteca do Memorial, 20h30).

O Festival de Cinema Latino-Americano, em sintonia fina com as novíssimas gerações de realizadores, promove, a cada nova edição, a mostra competitiva Escolas de Cinema Ciba-Cilect. Competem curtas-metragens de estudantes de cinema.

Outra mostra destaca filmes do DocTV Latinoamérica, primeiro programa de fomento à produção e teledifusão do documentário latino-americano, fruto de parceria entre produtores independentes e emissoras públicas de televisão.

Historicamente, o Latino SP promove debates, encontros e oficinas, voltados à reflexão estética e ao intercâmbio entre produtores e realizadores brasileiros e hispano-americanos. Nesta quinta-feira, dia 25 (19h00), no Centro Cultural São Paulo, serão analisadas as múltiplas atividades artísticas e reflexivas do professor, cineasta, ator, escritor e crítico de cinema Jean-Claude Bernardet. Caberá à montadora Vânia Debs, também professora da USP, e aos diretores Kiko Goifman e Cristiano Burlan refletir sobre o trabalho criativo e acadêmico do autor de “Cineastas e Imagens do Povo” e ator de “Filmefobia” e “Antes do Fim”.

A cineasta argentina Natural Arpajou, que é também produtora e roteirista, ministrará a oficina “Realização Audiovisual” (no sábado, 27, às 10h30, na Biblioteca do Memorial). Com esta oficina, ela se propõe a “partilhar ferramentas, recursos e experiências com aqueles que pretendem escrever roteiro profissional, sempre sob a perspectiva do autor”. Ninguém, pois, deve se inscrever (inscrições abertas no site do festival), se estiver pensando em curso com ensinamentos e macetes a la Syd Field.

Gabriela Sandoval, programadora, gestora cultural e diretora da Storyboard Media, conversará com o público sobre “Os Caminhos Atuais do Pensar Festivais Audiovisuais”, também no sábado, 27, na Sala Paulo Emílio do CCSP-Vergueiro (às 15h00).

Para refletir sobre exibição audiovisual nos mais diferentes suportes e vitrines, foi montada mesa que debaterá tema de grande relevância: “Circuitos Tradicionais e Alternativos de Difusão. Foram convocados distribuidores, players e representantes de salas de cinema, como Jimmy Leroy, diretor criativo da Viacom Networks, Henry Galsky, do Canal Brasil, Agustina Lumi, diretora de Cine.ar, projeto do Incaa (Instituto Nacional do Cinema Argentino), Laís Bodanzky, presidente da Spcine, e Igor Kupstas, da distribuídora O2 Play. Na mediação, Francisco César Filho, diretor e curador do festival de Cinema Latino-Americano de São Paulo. Os interessados devem anotar em suas agendas: terça-feira, 30, às 16h00, na Biblioteca Mário de Andrade, no centro de São Paulo. E chegar com antecedência para conseguir senha de acesso (gratuito).

Ainda na terça-feira,30, no final da tarde (18h00) e no mesmo local (a Biblioteca Mário de Andrade), ocorrerá Encontro de Cineastas e Produtores Latino-Americanos. Estarão presentes, além dos realizadores, Luciana Calcagno, curadora, produtora e distribuidora da empresa CineTren (Argentina) e Gabriela Sandoval, diretora da Storyboard Media e criadora dos festivais de cinema Sanfic e Amor Festival LGBT+.

Um “Cinema da Vela Especial” acontecerá no charmoso hall-bar do CineSesc, na mesma (e agitada) terça-feira, para refletir sobre o tema ‘Cinema Visceral’. Os convidados são o roteirista Fernando Bonassi e o cineasta Marcelo Felipe Sampaio, ambos do filme “Eldorado, Mengele Vivo ou Morto?”.

Por fim, na manhã de quarta-feira, 31, o Festival promoverá encontro que discutirá a formação audiovisual na América Latina (11h00, no CCSP Vergueiro), com o mexicano Raúl López Echeverría, o cubano Marcel Beltrán e a brasileira Maria Dora Mourão, da ECA-USP.

XIV FESTIVAL DE CINEMA LATINO-AMERICANO DE SÃO PAULO
Data: 24 a 31 de julho
Local: Memorial da América Latina, CineSesc, Spcine Olido, Spcine Paulo Emílio do CCSP-Vergueiro, Auditório da Biblioteca Mário de Andrade (todas em São Paulo) e Sala Umuarama do Instituto CPFL (em Campinas)
Entrada gratuita (em alguns espaços) ou a preços acessíveis (R$5,00 a R$12,00)
Mais informações: www.festlatinosp.com.br

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