A Jangada de Welles
© Chico Albuqueque

Por Maria do Rosário Caetano

Depois de dedicar ótimo média-metragem ao jangadeiro Jacaré, a dupla Petrus Cariry e Firmino Holanda resolveu dar rumo internacional à frágil embarcação que vitimou o pescador cearense. No longa documental “A Jangada de Welles” — nos cinemas a partir desta quinta-feira, 23 de junho —, os dois cineastas colocam o jovem prodígio George Orson Welles (1915-1985) no meio da tempestade que cercou as filmagens de “It’s All True”, um dos filmes inacabados do gênio norte-americano. Mas sem perder a mirada nordestina.

Oitenta anos atrás, gozando de prestígio planetário graças ao sucesso de “Cidadão Kane” (1941), Orson Welles entrava no esforço de guerra pela via da cultura. Aceitou dirigir um filme dentro da política da “Boa Vizinhança” que unia os EUA à América Latina. Em 1942, ele desembarcou em Fortaleza para filmar um épico sobre jangadeiros que enfrentavam a fúria do Oceano Atlântico para reivindicar direitos trabalhistas junto ao Presidente Vargas.

Jacaré, um dos jangadeiros, morreria nas águas revoltas da Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro, ao reencenar a épica aventura do ano anterior. Para autoridades brasileiras e norte-americanas, os problemas se acumulavam. Welles, ao invés de filmar as belezas do Brasil, voltava suas câmeras para negros e favelados (tema de outro episódio de “It’s All True” — “Carnaval”) e a situação só piorava. A carreira do menino prodígio nunca mais seria a mesma. Mas sua saga brasileira jamais seria esquecida.

“A Jangada de Welles” navegou por mais de 20 festivais brasileiros e internacionais. Claro que o interesse pela frustrada saga do diretor e protagonista de “Kane” ajudou a incrementar este périplo festivaleiro. Mas os méritos do filme são inegáveis.

Os diretores e roteiristas Firmino Holanda e Petrus Cariry (este também fotógrafo do filme) conhecem em profundidade a história que escolheram para esta segunda revisita. E conhecem, como moradores de Fortaleza, cada locação utilizada durante as filmagens de “Jangadeiros”, o episódio cearense de “It’s All True”. Claro que a praia de Iracema e as dunas do Mucuripe do longínquo ano de 1942 são muito diferentes, passado quase um século. Mas são cativantes os depoimentos da velha senhora que interpretou a adolescente do filme, assim como o do filho de Manoel Jacaré. Ele relembra a saga do pai, empreendida em 1941, ao lado dos jangadeiros Jerônimo, Tatá e Manoel Preto. Fizeram uma primeira (e vitoriosa) travessia que durara 61 dias e os levará ao presidente da República. O feito rendera vibrante reportagem na poderosa revista Time. Foi ao reconstituí-la, para o épico de Welles, que Jacaré morreu afogado.

Além de utilizar imagens fixas realizadas pelo fotógrafo Chico Albuquerque, still do filme inseminado pela “Política da Boa Vizinhança” (e trechos da própria obra wellesiana), Petrus e Firmino trabalham com fragmentos de “Nem Tudo É Verdade”, longa ficcional de Rogério Sganzerla, protagonizado por Arrigo Barnabé. O material foi embalado com saborosa trilha sonora e testemunhos rememorativos de quem, mesmo de calças curtas, viu o desatinado locutor da “Guerra dos Mundos”, aos 27 anos, transformar o Mucuripe e a Praia de Iracema em cenários privilegiados. Este é o caso do futuro crítico de cinema L.G. Miranda. A montagem é precisa, sintética e de ótimo ritmo.

Detalhe importante, que só comprova o quanto Firmino Holanda, também pesquisador e professor universitário, conhece a saga brasileira de Welles, tema de um de seus livros: “Com morte de Manoel Jacaré em 19 de maio de 1942, durante as filmagens no Rio de Janeiro, Welles, que muito o admirava, sentiu-se mais ainda obrigado a concluir seu episódio. Mesmo que os produtores (da RKO) já demonstrassem desinteresse pelo projeto ‘It’s All True’. Por isso, Isidro, irmão do jangadeiro desaparecido, o substituiu discretamente nas imagens feitas no Ceará, a partir de junho de 1942”.

 

A Jangada de Welles
Brasil, 75 minutos., 2019
Direção: Petrus Cariry e Firmino Holanda
Produção: Bárbara Cariry (Iluminura Filmes)
Estreia: 23 de junho, em Fortaleza, Rio de Janeiro, Salvador, Porto Alegre e Manaus. É dia 30: em São Paulo, João Pessoa, Aracaju, Recife, Goiânia e Vitória. Distribuição Sereia Filmes

 

OS REALIZADORES

Firmino Holanda — Professor e pesquisador de Cinema da Universidade Federal do Ceará (UFC), Firmino Holanda é autor de livros como “Orson Welles no Ceará” e “Do Sertão a Saturno – O Ceará no Cinema”. Dirigiu os documentários “Cidadão Jacaré” (2005), em parceria com Petrus Cariry, “Capistrano no Quilo” (2007) e “A Balada do Sr. Watson” (2017). É colaborador de roteiro e montagem dos cinco longas-metragens ficcionais dirigidos por Cariry (“O Grão”, “Mãe e Filha”, “Clarisse ou Alguma Coisa Sobre Nós Dois”, “O Barco” e “A Praia do Fim do Mundo”). Em 2019, lançou a “A Jangada de Welles”, repetindo a parceria na direção com Cariry.

Petrus Cariry (Ceará, 1977) – Realizou nove curtas-metragens entre 2002 e 2010, como “A Velha e o Mar”, “Dos Restos e das Solidões” e “A Montanha Mágica”. Em 2007, dirigiu o drama familiar “O Grão”, seu primeiro longa-metragem que deu início ao que intitulou de Trilogia da Morte, composta também por “Mãe e Filha” (2011) e “Clarisse ou Alguma Coisa Sobre Nós Dois” (2015). Seus primeiros longas ganharam juntos mais de 100 prêmios em festivais de cinemas nacionais e internacionais. Dirigiu “O Barco” (2018), adaptação de conto escrito por Carlos Emílio Corrêa Lima; o documentário “A Jangada de Welles” (2019), ao lado de Firmino Holanda, e “A Praia do Fim do Mundo” (2021) ainda inédito em circuito comercial. Atualmente dedica-se à pós-produção do filme de estrada “Mais Pesado é o Céu” (2022), estrelado por Matheus Nachtergaele.

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(1) Reader Comment

  1. Ante a beleza e o valor histórico e social do documentário, avalio-o como contribuição fundamental ante a necessidade cada dia maior de que o Brasil conheça o Brasil. Meu pai foi praticante de cinema amador na Fortaleza dos anos 40, fez parte de grupos que cultivavam o gosto pela Sétima Arte, promoviam sessões e debates. Como os demais apreciadores de cinema e curiosos, esteve no local das filmagens e fez um pequeno rolo 8 mm com cenas em que Orson Welles aparecia em destaque. Infelizmente, o filme se extraviou e lamento até hoje, profundamente, essa perda. Assistir às Jangadas de Welles suavizou um tanto meu inconformismo para com a perda.

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