Doris Monteiro brilha na Cinemateca ao receber o Prêmio Leon Cakoff, “o meu Oscar”

Por Maria do Rosário Caetano

A cantora e atriz Doris Monteiro, “88 anos de vida e 72 de carreira”, deu um show de humor e felicidade na Sala Grande Otelo da Cinemateca Brasileira, na noite de sábado, 29 de outubro. Ao receber o Prêmio Leon Cakoff da Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, ela lembrou que fez “oito filmes, o primeiro deles, ‘Agulha no Palheiro’, de Alex Viany, quando tinha 18 ou 19 anos”. E que o assistiria, a seguir, junto com o público.

Prometeu “relembrar quase tudo” que acontecera “juntinho com vocês”, pois “filmamos em 1952, portanto, há exatos 70 anos, e há décadas não vejo o filme”. Mas “me lembro que ele me rendeu muitas alegrias, dois prêmios de melhor atriz e convites para outros filmes. Só não fiz mais cinema, porque os cachês eram muitos reduzidos, não davam para sustentar uma profissional, enquanto a carreira de cantora de rádio pagava bem e me permitiu conhecer o sucesso”.

Bem-humorada e com domínio absoluto do palco, a “cantriz” diria depois, em conversa com Arthur Autran, professor da Universidade Federal de São Carlos, que adora atuar. “Se a Globo me chamar para fazer novela, aceito na hora. E você sabe que não tem esta história de beijo técnico! Não tem não! Beijo é beijo. Fiz um um filme com Cyll Farney, ator e cantor, meu grande amigo. Ele era um galã lindo. Aproveitei. Dizia ao diretor (Carlos Manga): vamos repetir, pode ficar bem melhor! Não sou boba!”

Ao apresentar a atriz e cantora – ao lado de Renata de Almeida, diretora da Mostra –, Carlos Augusto Calil, presidente do Conselho da Cinemateca Brasileira, lembrou que, em 1977, o Laboratório da instituição foi criado. Sua primeira missão era das mais urgentes: resgatar “Agulha no Palheiro” do esquecimento. O filme estava em estado de degradação alarmante.

Alex Viany (1918-1992) ajudou no que pôde. Mas não havia negativos, nem cópia integral em 35 milímetros. O jeito foi recorrer, para cobrir determinados trechos, a uma precária cópia em 16 milímetros. Assim, o método “frankenstein” permitiu salvar o longa-metragem, em meados da década de 1970. O cineasta ficou feliz em ver seu primeiro filme resgatado, mesmo que em condições não ideais. “Em tempo recentes” – explicou Calil –, “com novos recursos digitais, realizamos nova restauração e conseguimos melhorar a qualidade técnica da cópia que vamos assistir na presença de nossa homenageada Doris Monteiro”. Mesmo assim, o público presente à Cinemateca Brasileira —ponderou — notaria a diferença, “principalmente no som, quando o material restaurado fosse proveniente da matriz em 35 milímetros (com melhor qualidade), o mesmo não acontecendo quando viesse do 16 mm”. “Agulha no Palheiro” foi concebido pelo núcleo cinematográfico do Partidão (PCB), que tinha em Alex Viany, Moacyr Fenelon (o produtor), Claudio Santoro (trilha sonora) e nos jovens Nelson Pereira dos Santos (assistente de direção) e Hélio Silva (assistente de fotografia) alguns de seus próceres. Três anos depois, alguns destes nomes (somados a outros, como Guido Araújo) marcariam presença no Coletivo Moacyr Fenelon, que realizaria “Rio 40 Graus” (1955). E, em seguida, “Rio Zona Norte” (1957).

Alex Viany, jornalista, pesquisador e crítico de cinema, escreveu o roteiro de “Agulha no Palheiro” embebido pelas ideias de Cesare Zavattini, o roteirista símbolo do Neo-Realismo italiano. Sua intenção era realizar “uma comédia carioca em chave neorrealista”. Só que o resultado teria se aproximado bem mais de um “melodrama sentimental”.

A história resulta híbrida ao somar humor, drama familiar e musical. Mariana (Fada Santoro, que depois faria a saborosa chanchada “Nem Sansão, nem Dalila”) chega do interior em busca de José da Silva, noivo carioca que prometera casar-se com ela. Só que o rapaz lhe fornecera endereço falso. Ela hospeda-se na casa da tia Adalgisa (Sarah Nobre), mãe do motorista Baiano (Jackson de Souza) e da linda Elisa (Dóris Monteiro), cantora de rádio em fase iniciante. Próximo a eles, vive o jovem motorneiro Eduardo (Roberto Bataglin) e o pianista e compositor Juca (César Cruz).

A família decide ajudar Mariana a encontrar o noivo, uma verdadeira “agulha no palheiro”. Com auxílio de páginas e páginas do catálogo telefônico, saem atrás de centenas e centenas de Josés da Silva. Em vão. Um dia, ficam sabendo que um estróina com tal nome costuma frequentar a boate Baiúca. É lá que Carmélia Alves, o pianista Juca (interpretado por César Cruz, instrumentista e compositor na vida real) e o coletivo Teatro Popular Brasileiro, comandado por Solano Trindade), se apresentava (na ficção).

A Baiúca será pretexto para o filme dar ao público o que ele mais amava na época: música popular brasileira. Doris Monteiro, que já ensaiara (com César Cruz ao piano) a composição (dele e de Vargas Jr) “Perdão” cantará mais tarde “Agulha no Palheiro” (da mesma dupla). E Carmélia Alves reinará soberana. Inclusive com um baião de Humberto Teixeira. E os Trigêmios Vocalistas, decerto coreografados por Solano Trindade (com arranjo do Maestro Claudio Santoro?) transformarão uma “Macumba” em peça quase erudita.

O filme soma frases que parecem saídas de uma cartilha do Partidão (por sorte, são poucas), trama que prende a atenção do espectador e muito humor. Em especial, tudo que sai da boca da espevitada personagem de Doris Monteiro e do mano Baiano. Elisa chega a roubar o protagonismo de Fada Santoro (roubo efetivado na prática, pois a “cantriz” ganhou dois prêmios de melhor atriz). O divertido motorista de Jackson de Souza (embora pareça velho demais para ser filho de Sarah Nobre) também brilha no filme.

Se “Agulha no Palheiro” necessita, às vezes, de uma muleta (um narrador em off), se alguns atores claudicam (caso do pianista Juca, ótimo em seu ofício, mas pouco experiente) e se atravanca demais a paixão de Eduardo por Mariana, o filme propõe avanço moral dos mais encorajadores. Uma moça grávida chega ao seio de família pequeno-burguesa e isto não causa nenhum transtorno (registre-se que estamos no Brasil do começo dos anos 1950). O galã evita declarar seu imenso amor não por ela estar grávida de outro, mas sim por razão de classe: ele é pobre, um reles motorneiro de bonde. Já o estróina-sedutor é rico, muito rico. Além do nome José Silva, ele dispõe de assinaturas de alta ressonância. Interpretado por Hélio Souto, com bigodinho cafajeste e beleza magnetizante, o José enriquece o desfecho da narrativa.

A paixão de Alex Viany pelo Neo-Realismo era tão grande, que ele criou personagem italiana para um solo no filme (a atriz Renée Bell, mais tarde Estelita Bell??). Ela evoca a experiência da Segunda Guerra Mundial em solo europeu, a fome, o relacionamento com soldado norte-americano, que lhe rendeu um filho “sem pai” e sua mudança para o Brasil.

Ao final da sessão de “Agulha no Palheiro”, Doris Monteiro, que dentro de dois anos tornar-se-á nonagenária, era só felicidade. Tirou fotos com fãs e, quando lhe ofereceram uma cadeira de rodas para se locomover, agradeceu. Quis caminhar pela Cinemateca, garbosa e feliz. Dirigiu-se até Carlos Augusto Calil e agradeceu pelo prazer de rever o filme e de levar para casa o Troféu Leon Cakoff.

Afinal, no palco da Sala Grande Otelo, na conversa com Arthur Autran, ela fizera questão de relembrar os seus “oito filmes”. Enumerou: “depois de ‘Agulha no Palheiro’, fiz outro filme com Alex Viany, ‘Rua sem Sol’, no qual interpretei uma cega. Com Mazzaroppi fiz o delicioso ‘A Carrocinha’. Trabalhei com Tônia Carrero numa coprodução Itália-Brasil, ‘Copacabana Palace’. Com o querido Carlos Manga, fiz ‘De Vento em Popa’. Aquele dos beijos nada técnicos com o galã Cyll Farney, meu grande amigo. O maravilhoso Oscarito estava no filme”.

A “cantriz” muda de assunto e conta que fez o Programa do Bial, na Globo. E que a história do “beijo técnico” rendeu. “Nos anos 50, eu participei daquele programa do John Herbert com a Eva Wilma. Como era mesmo o nome? “Alô Doçura!” Isso mesmo! Eu também tive meu programa de TV. Se chamava ‘Encontro com Doris’. Eu estava no auge. Mas um dia, me esqueci da letra de ‘Se É por Falta de Adeus’, de Tom Jobim e Dolores Duran’, e fiquei mexendo os lábios, fingindo que cantava. Todo mundo xingando a TV Tupi, pensando que era problema de som da emissora. Fui punida com três dias de suspensão (ri gostosamente). Sabem que estou muito feliz por estar em São Paulo. E repito que estou muito feliz com o Prêmio Leon Cakoff. É o meu Oscar”.

Avisa que já não se lembra de tudo e pede que consultemos sua lista de oito (ou nove) filmes nas fontes da Cinemateca (ou na internet). Ei-la, pois:

FILMOGRAFIA
Doris Monteiro (Rio de Janeiro/RJ, 23 de outubro de 1934)

1953 – “Agulha no Palheiro (Alex Viany)
1953 – “Com o Diabo no Corpo” (Mario del Río)
1954 – “Rua sem Sol” (Alex Viany)
1954 – “Carnaval em Caxias” (Paulo Wanderley)
1955 – “A Carrocinha” (Agostinho Martins Pereira)
1957 – “De Vento em Popa” (Carlos Manga)
1958 – “E o Espetáculo Continua” (Cajado Filho)
1962 – “Copacabana Palace” (Steno -Stefano Vanzina)
1963 – “Sol sob a Lama” (Alex Viany)

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