Seis novos longas brasileiros disputam Prêmio dos Exibidores em mostra especial do Panorama Coisa de Cinema da Bahia
Foto: Viviane Ferreira disputa o prêmio de melhor filme com “Afrolatinas: Mulheres Negras em Movimentos” © Milena Palladino
Por Maria do Rosário Caetano, de Salvador (BA)
A vigésima-primeira edição do festival Panorama Coisa de Cinema da Bahia atribuirá, pela segunda vez, o Prêmio dos Exibidores (ou Prêmio AExib, como o chamam os profissionais reunidos na Associação de Pequenos e Médios Exibidores).
Na disputa estão seis longas-metragens que devem chegar aos cinemas nos próximos meses: o carioca-brasiliense “Pequenas Criaturas”, de Anne Pinheiro Guimarães (distribuidora Filmes do Estação), o baiano-paulistano “Família de Sorte”, de Viviane Ferreira (Gullane+), o mineiro-paulista “Aqui Não Entra Luz”, de Karol Maia (Embaúba), o paulista “Cordélicos – A Origem do Cabra da Peste”, de Alê Mchado (Retrato), o pernambucano “Yellow Cake”, de Tiago Melo (Olhar) e o carioca “Querido Mundo”, de Miguel Falabella e Hsu Chien. Quatro são ficções, “Aqui Não Entra Luz” é um documentário e “Cordélicos”, uma animação infanto-juvenil.
O filme escolhido por júri de sete integrantes, todos indicados pela AExib, será apresentado em salas programadas por 55 sócios da associação. Ano passado, o prêmio coube ao longa pernambucano “O Último Azul”, de Gabriel Mascaro, distribuído pela Vitrine Filmes. O filme de Mascaro chegou ao circuito de alguns shoppings centers e, com maior força, ao chamado circuito de arte e ensaio. E ultrapassou a marca de 220 mil espectadores.
O vencedor da segunda edição do Seminário-Mostra dos Exibidores terá espaço garantido por (pelo menos) uma semana nos cinemas da AExib, que podem dispor de uma única sala (caso do CineSesc ou do Cine Theatro São Luiz), de quatro (caso do Cine Glauber Rocha, de Salvador), de treze (Estação Net do Rio), 15 (Moviemax, de Pernambuco), 20 (Cinépolis, do Paraná), 56 (Afacinemas, do Espírito Santos), 60 (MultiCine, de Goiás) ou 72 (Circuito Sercla, de MG e Bahia). E o filme premiado chegará a esse circuito no mesmo dia de seu lançamento nacional.
Boa parte dos 55 exibidores que participam do Panorama Coisa de Cinema assistem aos filmes. E analisam, junto com seus representantes no júri oficial, qual das produções selecionadas fará jus ao Prêmio AExib por oferecer maior qualidade e capacidade de dialogar com o público.
Cada produtor apresenta seu filme aos exibidores, acompanhado da empresa que se encarregará da distribuição. Adriana Rattes, da Filmes do Estação, apresentou o drama feminino e intimista “Pequenas Criaturas”, protagonizado por Carolina Dieckman. Grande vencedor do Troféu Redentor no Festival do Rio, ano passado, o filme será lançado no final de maio ou começo de junho, com 40 cópias.
“Nossa intenção” — detalhou Rattes aos associados da AExib — “é repetir a rica experiência da Filmes do Estação com ‘Malu’, de Pedro Freire, também vencedor do Troféu Redentor. Este longa-metragem centrado em drama familiar e protagonistas femininas, passou dos 30 mil ingressos”.
“Pequenas Criaturas” disporá de R$850 mil para sua campanha de lançamento e já frequenta listas de possíveis indicados a representar o Brasil no Oscar 2027. Sua trama tem Brasília como cenário e se passa em 1986, portanto nos anos pós-ditadura.
Helena (Dieckman), mãe de dois filhos (um adolescente e um menino que está chegando aos oito anos), acaba de mudar-se para a capital federal. O marido viaja para cumprir agenda de trabalho. Na solidão do Planalto Central, ela conhecerá um homem (Caco Ciocler), de passagem pela cidade, que anda num conversível vermelho.
O filho mais velho de Helena busca o primeiro amor. O caçula, com inseparável acessório “emprestado” do blockbuster “O Planeta dos Macacos”, busca novos amigos. Um deles é um senhor estranho e misterioso. Objetos não-identificados pairam no ar (e nas telas do Cine Drive-in). O cinema de aventuras fantasiosas made in Hollywood ocupa, de forma onipresente, os imaginários.
MULHERES AFRO-LATINAS
A cineasta Viviane Ferreira participa em dose dupla do Panorama de Cinema. Ela disputa o prêmio de melhor filme da competição baiana com o longa documental “Afrolatinas: Mulheres Negras em Movimentos”. E concorre ao Prêmio AExib. Nesse caso, com o longa ficcional “Família de Sorte”, produzido pelos Irmãos Gullane.
O primeiro filme rememora as lutas históricas de mulheres afro-latinas, que, em 1992, realizaram na República Dominicana encontro que marcou época. Lá foi criado o Dia da Mulher Afro-Latino-Americana e Caribenha. Viviane registrou vozes de dezenas de mulheres atuantes no Brasil e na América Hispânico-Caribenha para relembrar o encontro dominicano e suas conquistas.
Já “Família de Sorte” se apresenta como uma comédia de curioso enredo. Maicon e Jennifer (Robson Nunes e Micheli Machado) estão casados há 17 anos e vivem num conjunto habitacional paulistano com as filhas Riana, de 16 anos, e Bionci, de 10. Ao perder o emprego e ver a situação financeira se agravar, Maicon decide se inscrever num reality show. Ele, que não será selecionado, descobrirá que a esposa, inscrita secretamente pelo irmão, foi escolhida. Frente ao novo quadro, caberá a ele, durante os três meses de confinamento de Jennifer, assumir todas as responsabilidades do lar. Incluindo, claro, os cuidados com as filhas Riana e Bionci.
Viviane Ferreira, baiana de 40 anos, já dirigiu a Spcine. Finda sua missão à frente da empresa de fomento ao cinema paulista, ela regressou a Salvador. Aqui, implantou o iAMO (Instituto Audiovisual Mulheres de Odum). Trata-se de pequeno centro cultural localizado no Quilombo do Coqueiro Grande, na periferia da capital baiana.
No local, ela mantém uma sala de cinema de 48 lugares, o Cine Lankiana, uma pequena galeria de arte e um café. Advogada por formação e cineasta por vocação, Viviane já soma quatro longas-metragens. “Um Dia com Jerusa” foi o primeiro e teve Léa Garcia como protagonista. Depois, assinou “Ó Pai Ó 2”, produzido por Monique Gardenberg e protagonizado por Lázaro Ramos. Agora, ao longo desse ano, lançará “Afrolatinas” e “Família de Sorte”.
Os exibidores que participam do Panorama Coisa de Cinema passam a maior parte do tempo enfurnados em uma das quatro salas do Cine Glauber Rocha, palco do festival, palestrando ou ouvindo representantes da Ancine (Agência Nacional de Cinema), da SAv-Minc (Secretaria do Audiovisual), das distribuidoras (O2 Play, Vitrine, Embaúba, Estação, Gullane+, Olhar Filmes e Retrato), que apresentam suas experiências e line-ups). E, também, de novos exibidores, que expõem seus planos para suas novas salas.
O relato da exibidora Viviane Ferreira foi um dos mais descolados. Ela contou que conseguiu recursos para implantar o Cine Lankiana (nome de respeitada Mãe de Santo do bairro soteropolitano de Cajazeiras, onde está o Quilombo de Coqueiro Grande) graças a mecanismo de fomento propiciado pela Lei Paulo Gustavo. Implantada a sala, ela e parceiros no iAMO buscaram formas de mobilizar o público. Primeiro, instalaram um café-bar, onde as pessoas pudessem saborear um típico cafezinho baiano. Depois, instalou galeria voltada à arte de criadores da comunidade.
Quanto à programação do Cine Lankiana há que se lembrar que ela se mostra das mais ecléticas: quatro sessões diárias, de terça a domingo, dedicadas a um filme infanto-juvenil, seguido de um filme independente brasileiro, de um blockbuster internacional e de seu correspondente nacional. Como se vê, nenhum preconceito contra os arrasa-quarteirões gerados por grandes produtoras.
Debater os filmes faz parte do cardápio do cineminha programado por Viviane Ferreira. Mas nada de debates-cabeça, tão comuns nos cinemas de arte e ensaio. “Nós criamos”, contou a cineasta-exibidora, “um espaço dedicado ao Cine Fofoca”. Isso mesmo, “um espaço para falar mal dos filmes, para fofocar”. Ao encerrar sua bem-ilustrada e sintética palestra, Viviane deixou no ar uma provocação: “temos que falar mais de desejo, que de dinheiro”.
O CINEMA INDIANO E O DESEJO
E, por falar em desejo, há que se lembrar que, se existe uma cinematografia além da hollywoodiana, capaz de conhecer em profundidade as vontades e prazeres de seu público, ela se situa no país mais populoso do mundo, a Índia.
O Seminário da AExib recebeu um formidável representante dessa indústria, o elétrico e bem-humorado Naveen KL, CEO da Breaking Glass Entertainments e produtor criativo da Arka Media Works.

Naveen KL consumiu 30 horas dentro de um avião (devido ao risco de mísseis no Oriente Médio) para chegar ao Brasil. E trouxe riquíssimo material (gráficos, imagens e trailers) para mostrar o que se passa no imenso país asiático, maior produtor de cinema do mundo.
Em mobilizadora palestra assistida pelos integrantes da Associação Brasileira de Pequenos e Médios Exibidores, ele lembrou que “a Índia detém 90% de seu mercado interno, restando 10% para os blockbusters de Hollywood”. Contou, também, que “Avatar 3”, de James Cameron, não alcançou o sucesso esperado”, mas “nós tínhamos produções indianas de grande apelo para colocar no lugar da fantasia norte-americana”.
O diretor criativo da Arka lembrou que “a indústria indiana depende de histórias criadas em nosso território, em vinte idiomas diferentes, e destinadas a um público potencial de mais de 900 milhões de pessoas a cada novo ano”.
“Para dar vazão a uma média de 1.800 filmes produzidos anualmente (os EUA produzem 600)” — acrescentou KL —, “a Índia dispõe de 19.500 cinemas que vendem, anualmente, mais de 900 milhões de ingressos”. Os espaços de exibição são compostos por imensas salas onde os espectadores cantam e dançam, acompanhando os atores que brilham nas telas. No país de Ghandi, os multiplexes não substituíram as salas de rua. O cinema continua sendo uma experiência popular e coletiva, fluida por plateias que lotam salas de mais de mil lugares.
Naveen KL faz questão de lembrar que o público indiano acompanha, preferencialmente, os cinemas produzidos em suas regiões e línguas maternas. Destacam-se, no grande país asiático, a indústria que fala Hindi (e chamamos Bollywood), a que fala Telugu (língua materna do próprio Naveen e da maior estrela do cinema indiano contemporâneo, S.S. Rajamouli), a Tamil, a Malaiala, a Kannada, a Bengali, a Marathi e a Punjabi.
Historicamente, poucos filmes falados em línguas regionais conseguiam ultrapassar fronteiras. O exemplo mais vistoso é o do longa-metragem “Sholai” (1975), maior bilheteria da história do país. Ano passado, esse épico completou 50 anos e, por isso, foi restaurado e exibido em festivais mundo afora. No Brasil, “Sholai” foi exibido na Mostra Internacional de Cinema de SP.
Um cineasta, o festejadíssimo S.S. Rajamouli, de 52 anos, viu uma das canções de seu filme mais famoso (“RRR Revolta, Rebelião e Revolução”, 2022, disponível na Netflix) conquistar o Globo de Ouro e o Oscar. A repercussão de tais prêmios em seu país de origem foi imensa. E serviu para dar visibilidade ao projeto do diretor de língua Telegu: realizar filmes que consigam romper fronteiras internas. E, por que não?, fronteiras externas.
Naveen KL contou que, em 2012, Rajamouli iniciou sua odisseia de conquista de gigantescas plateias superando a “barreira da língua”. Ele colocou uma pergunta aos integrantes da indústria cinematográfica indiana: “E se fizéssemos um filme capaz de estimular o espectador deixar o idioma em segundo plano?”
Com esta premissa, ele engendrou “Mosca” (“Eega”), a alucinada história de um herói que reencarna numa mosca doméstica para vingar seu próprio assassinato. O filme, uma superprodução de muitos efeitos especiais, evoca, à moda indiana, vingança paroxística similar à do Conde de Monte Cristo, temperada com ingredientes kafkiano-cronenberguianos, cenas de ação, catástrofe e muito humor. E, claro, sem esquecer o romantismo (presente num amor indestrutível) e números de musicais e de dança (neste caso, usado de forma comedida).
O resultado alucinou o público de todos os cantos da Índia. Dali em diante, o diretor de 12 longas-metragens (o próximo “Váranási, será lançado em abril de 2027), pôde aprofundar seu propósito de romper fronteiras. Afinal, acumularia mais dois sucessos retumbantes — “Baahubi: O Início”, seguido de “Baahubali: A Conclusão”.
Hoje, Rajamouli é o cineasta mais bem pago da Índia. Os espectadores baianos foram os primeiros brasileiros a assistir, eufóricos, ao pré-trailer de “Váranási”. Que se propõe a causar furor semelhante ao provocado por seu melhor filme, “RRR”, o épico histórico ambientado em tempos de luta pela independência indiana do jugo do Império Britânico. Com a Netflix na retaguarda, este épico arrebatador conseguiu conquistar plateias planetárias. E derrotar canções norte-americanas no Globo de Ouro e no Oscar (com a irresistível Naatu Naatu).
“No Japão” — contou Naveen KL —, “RRR permaneceu em cartaz por 561 dias consecutivos”. Nos EUA, “tivemos sessão abarrotada no Chinese Theatre, em Los Angeles, com a plateia subindo ao palco e ocupando as laterais do cineteatro para cantar e dançar”.
A palestra de Naveen KL no Seminário da AExib, que se fez acompanhar de sessão do filme “Mosca”, foi fruto de entendimentos entre Cláudio Marques, diretor do Panorama, com José Eduardo Ferrão, CEO brasileiro da empresa Auwe, especializada em gerenciamento digital de 6 mil salas (400 delas no Brasil).
Marques e Ferrão estão dispostos a somar forças na difusão do cinema indiano em território brasileiro. Ao apresentar a sessão do exuberante “Mosca”, no Cine Glauber Rocha, Marques avisou: “esse cinema é a casa do cinema brasileiro na Bahia e, de agora em diante, vai tornar-se, também, a casa do cinema indiano”.
Para arrematar: “realizaremos trabalho obstinado de formação de público para os filmes da Índia e promoveremos novas sessões da ‘mosca vingadora’ aqui em Salvador”. E, quem sabe, em outras localidades brasileiras.
