Christopher Nolan recria a “Odisseia” homérica como épico realista movido pela fúria mítica dos deuses

Foto © Melinda Sue Gordon/Universal Pictures

Por Maria do Rosário Caetano

Um guerreiro grego é visto de costas, com capacete arrematado por crista de crina e prolongado por luminoso rabicho. Detalhe em dourado evoca ossos da coluna vertebral humana.

Esta imagem está presente em boa parte do material de divulgação do épico “A Odisseia”, escrito e dirigido por Christopher Nolan, estreia dessa quinta-feira, 16 de julho, em centenas de cinemas brasileiros.

Quem porta o capacete arrematado pelo rabicho banhado em ouro é Agamemnon, rei e comandante supremo das forças gregas na guerra contra os troianos. Guerra que veremos como pano de fundo da “Odisseia” recriada por Nolan a partir de narrativas escritas em verso pelo rapsodo Homero.

A base principal do roteirista é, claro, “A Odisseia”. Mas o cineasta recorrerá, também, à “Ilíada”. Duas obras seminais que serviram de matriz a centenas de filmes e séries. Nenhum deles com o poder de sedução – e as qualidades – desta, que agora chega aos cinemas, escorada em dados de dimensão realmente homérica: orçamento de 250 milhões de dólares (bem mais que 1 bilhão de reais), elenco estelar, filmagens em seis países (Grécia, Marrocos, Saara Ocidental, Itália, Escócia, Islândia e Malta), entre outras características que, decerto, farão dele um blockbuster planetário.

Para justificar os US$250 milhões consumidos na produção do filme, Nolan (também produtor junto com sua companheira Emma Thomas), tomou todos os cuidados.

Primeiro, construiu o personagem Odisseu (Matt Damon), protagonista absoluto do filme, como um super-herói moderno, dilacerado pela ira dos deuses, que lhe impõem provações inimagináveis. Impossível não nos interessarmos por seu destino, marcado por tantos e tão avassaladores desafios.

Em fina sintonia com o mundo contemporâneo, Nolan cercou Odisseu, sua esposa Penélope (Anne Hathaway) e o filho de ambos, Telêmaco (Tom Holland), de intérpretes de origem africana – Lupita Nyong’o, em papel duplo como Helena de Tróia e sua irmã Clitemnestra, e o rapper Travis Scott, como um bardo – latinos (John Leguizamo, Jimmy Gonzales) e asiáticos (Will Yun Lee). A tripulação do navio que conduz Odisseu em sua longa caminhada até Ítaca (e aos braços de Penélope) assemelha-se aos rostos vistos numa assembleia geral da ONU.

No elenco destacam-se nomes de grande notoriedade e apelo como Zendaya (Atena), Robert Pattinson (Antinous), Charlize Theron (Calipso) e Samantha Norton (Circe). Até a neta da atriz Maria Gladys, a britânico-brasileira Mia Goth, tem seu destaque como Melantho, criada traiçoeira da rainha Penélope. Rainha, que, aflita, espera pelo regresso do marido, ocupando-se, no tear, da confecção da mortalha do sogro, pai de Odisseu. De dia, ela tece. De noite, desmancha o já tecido.

Christopher Nolan, de 55 anos, tem em seu currículo (composto com 13 longas-metragens) realizações centradas em super-heróis oriundos dos quadrinhos. Mas, depois dos épicos históricos “Dunkirk” e “Oppenheimer”, premiadíssimos mergulhos na tragédia da Segunda Guerra Mundial, ele parece cada vez mais interessado em obras destinadas, também, a públicos mais exigentes. Sem, no entanto, esquecer aqueles que buscam apenas entrenimento. A estes, ofertará, no novo filme, sequência de ação de tirar o fôlego. Aquela que se seguirá ao Teste do Arco, exigido pela Rainha Penélope. Ela só desposará o pretendente que conseguir encordoar o arco, e – proeza ainda mais desafiadora – atirar flecha que deverá passar pelo orifício de 12 machados enfileirados uniformentente. Vencido este desafio, Odisseu enfrentará sozinho (com pequena ajuda de Telêmaco) uma centena de pretendentes de Penélope. Como um super-herói de quadrinho. Um só homem contra todos.

O realismo dá a tônica do filme, embora o poder dos deuses nada tenha de realista. Afinal, a feiticeira Circe é capaz de transformar homens em porcos. O gigante Polifeno, filho de Poseidon, devora homens inteiros com sua fome voraz. As sereias encantam os que ouvem seus cantos, levando-os para o fundo do mar. Os monstros Cila (de muitos e terríveis braços) e Caribdis (um redemoinho) são desafios descomunais. E há a descida aos infernos (ao reino de Hades).

O diretor e roteirista de “A Odisseia” contou, em entrevista ao jornal The New York Times, que inspirou-se em dois épicos cinematográficos – o soviético “Andrei Rublev” (Tarkovski, 1966) e o japonês “Ran” (Kurosawa, 1985) – para compor sua releitura do poema de Homero. E lembrou a importância da “hospitalidade como regra de ouro da Lei de Zeus”. Ou seja, “tratar os outros como gostaria de ser tratado”.

Na mesma entrevista, Nolan explicou a representação dada por ele ao Cavalo de Troia, que povoava seu imaginário – junto com o gigante ciclope, devorador de homens, e as sereias – desde sua infância na Grã-Bretanha. Guardara, na memória, a imagem de “um cavalo prestes a ser arrastado pela maré, meio inclinado”. Por isso, não quis reproduzir aquele tipo de cavalo, que rompia a muralha que cercava Troia, como se estivesse “sobre patins”. Para Nolan, “em termos realistas”, se representado daquele jeito, “aquilo não funcionaria”. O público verá, em “A Odisseia”, um Cavalo de Troia diferente de tudo que já foi mostrado no cinema.

Quem assistiu ao filme “Ulisses” (Mario Camerini, 1964), superprodução ítalo-estadunidense protagonizada por Kirk Douglas e Silvana Mangano, desfrutou de espetáculo de matriz hollywoodiano-delirante (e superficial). Os figurinos, desenhados por Giulio Coltellacci, causavam estranhamento. E chegavam ao paroxismo quando Penélope (Silvana Mangano, mulher do produtor Dino De Laurentiis) entrava em cena. Vestida pela estilista francesa Madame Grès, a rainha da pequena ilha de Ítaca parecia estar vivendo num conto das “Mil e Uma Noites”. Ou numa passarela. Envolta em tecidos finíssimos e esvoaçantes, em tudo opostos aos figurinos rústicos trajados por todos os personagens do épico de Nolan (muito bem e discretamente desenhados por Ellen Mirojnick).

Outro cineasta italiano, Uberto Pasolini, realizou recentemente um belo filme (“O Retorno”, 2024, disponível no Prime Video) sobre o regresso de Odisseu a Ítaca. Com Ralph Fiennes no papel do herói que passou 20 anos fora de casa (dez na Guerra de Troia e dez tentando regressar ao lar), e Juliette Binoche (como Penélope).

Pasolini optou por narrativa realista e sóbria. E vestiu seus personagens (protagonistas e coadjuvantes) com roupas rústicas. Sua sequência do “Teste do Arco” é notável, inesquecível. Mesmo assim, o filme italiano atingiu público reduzido até para os padrões do cinema de arte. Vale notar que “O Retorno” e “A Odisseia” mantêm significativas semelhanças (apesar de diferenças abissais e orçamentos díspares). O filme do italiano custou US$20 milhões. E não recorreu a efeitos especiais de ponta, como os que veremos no épico britânico-estadunidense.

Quem quiser enriquecer a experiência estético-sensorial da “Odisseia” de Nolan com outros materiais audiovisuais, deve acessar, o mais rápido possível, a série franco-alemã de mesmo nome (“A Odisseia”), parte de projeto intitulado “Grandes Mitos Gregos” (disponível no Canal Curta!, em dez capítulos de 27 minutos cada).

Realizada com as mais diversas técnicas de animação, “A Odisseia” (criação de François Busnel) não nega sua origem fincada no racionalismo francês. Um narrador de voz aliciante nos conta a história de Odisseu em sua luta para regressar ao lar e reencontrar a esposa Penélope e o filho Telêmaco, apenas um bebê quando o guerreiro partiu para a Guerra de Troia.

Busnel e seus colaboradores construirão sua narrativa homérica sobre hipótese contemporânea: destroçado pela Guerra de Troia, o grego Odisseu teria perdido a fé nos deuses. Tornara-se, portanto, um praticante do ateísmo. Temerosos que ele servisse de exemplo a outros humanos, os deuses resolveram transformar sua viagem de regresso a Ítaca em dolorosa provação. A premissa da série animada é, convenhamos, das mais instigantes e  provocadoras.

O épico de Christopher Nolan prefere desenhar painel desolador sobre as guerras e suas trágicas consequências. O que acontecera em Troia fora inútil. Odisseu, grande estrategista militar e arqueiro privilegiado, fôra o artífice do Cavalo de Troia. O engenhoso invento definira o desfecho do conflito. Mas ele perdera amigos muito próximos. Milhares de guerreiros tombaram nos campos de batalha. Para que? Que ganhos resultaram da bélica conquista?

No épico de Nolan, a história será contada por Odisseu à ninfa Calipso, interpretada pela belíssima Charlize Theron (atriz sul-africana de 50 anos). Apaixonada pelo guerreiro, ela o manterá em sua ilha por longos sete anos. Tempo mais que elástico para que Odisseu possa relembrar seus feitos no campo de batalha e no enfrentamento da fúria dos deuses.

O roteirista Nolan, por sua vez, terá liberdade para buscar na “Ilíada” as memórias troianas. E para seguir pelos 24 cantos da “Odisseia”.

Quem for ao cinema, em especial a uma sala IMAX (o filme foi captado em 70 milímetros, com a mais alta tecnologia existente), desfrutará de imagens capazes de proporcionar entretenimento e reflexão. Desde “Dunkirk”, passando pelo sólido “Oppenheimer”, o britânico Christopher Nolan tornou-se integrante, devidamente oscarizado, do primeiro time de Hollywood.

Embora a internet defina “A Odisseia” como “um filme de ação e fantasia”, há que se lembrar que ele é, em essência, o que os franceses definem como “um épico intimista”. Um mergulho no poema do rapsodo Homero, semente geradora da melhor literatura universal. Tanto que encanta leitores há séculos e séculos. E aos espectadores, desde os primórdios do cinema.

A Odisseia | The Odyssey
EUA-Reino Unido, 2026, 2h53, 14 anos
Direção e roteiroChristopher Nolan
Elenco: Matt Damon (Odisseu), Anne Hathaway (Penélope), Tom Holland (Telêmaco), Charlize Theron (Calipso), Lupita Nyong’o (Helena de Tróia e sua irmã Clitemnestra), Robert Pattinson (Antinous), Samantha Norton (Circe), Zendaya (Atena), Bennie Safdie (Agamenon), Mia Goth (Melantho), Travis Scott (Bardo), Jon Bernthal (Menelau), João Leguizamo (o pastor cego Eumeu), James Remar (Tiresias, profeta cego), Jimmy Gonzales (Cefeu), Elliot Page (Sinon), Bill Irwin (Polifemo), Himesh Patel (Euríloco), Corey Hawkins (Polybus), Will Yun Lee (da tripulação do barco de Odisseu)
Fotografia: Hoyte van Hoytema
Música: Ludwig Göransson
Montagem: Jennifer Lame
Distribuição: Universal Pictures

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