Franz Kafka de Agnieszka Holland é visto como escritor genial transformado em atração turística e mercadoria
Por Maria do Rosário Caetano
Em 2024, o mundo lembrou o centenário da morte do escritor Franz Kafka. A Alemanha homenageou o filho literário – nascido em Praga – com notável série em seis capítulos. Sob nome sintético, “Kafka”, acompanhamos a complexa vida pessoal do escritor, seus relacionamentos amorosos, a difícil relação com o pai e a profunda amizade com o escritor Max Brod.
David Schalko, o criador da série, fez questão de captar faceta pouco explorada do ficcionista. Aquela marcada pelo humor e pelo tragicômico. Assim agindo, ele mostraria aos espectadores que a vida de Kafka não fora composta apenas por angústias geradoras de obras sombrias. A biografia escrita por Reiner Stach lhe serviu de base. A série é notável, imperdível, mas infelizmente está fora do streaming brasileiro.
Um ano depois da trama seriada germânica, a polonesa Agnieszka Holland lançou, na Europa, “Franz”, longa-metragem agora disponível no circuito de arte brasileiro. Ao contrário de Schalko, que pautou-se pela contenção e profundidade, a diretora de “Colheita Amarga” e “Filhos da Guerra” optou pela realização de filme híbrido, sustentado em quatro procedimentos.
Primeiro, o registro da biografia (da infância à maturidade e morte prematura) somada à encenação de trechos de algumas das obras literárias do escritor, à quebra da quarta parede (personagens falam para a câmara) e ao diálogo com o tempo presente.
A biografia de Kafka vai centrar-se, em essência, no período em que o autor de “A Metamorfose” e “O Processo” dividia-se, sob o domínio de pai autoritário, entre o trabalho burocrático e entediante, amores difíceis e escritura de contos, novelas e cartas. Franz era um missivista compulsivo. Ele, que triturava a comida com metódicos 40 movimentos mastigatórios, seria vítima da tuberculose, doença que abreviaria sua vida.
O filme explora bem as complexas relações de Franz com o pai, o Sr. Hermann Kafka (1852-1931), rigoroso e exigente comerciante judeu. Ele manteve o filho sob controle da primeira infância até a morte. O escritor imortalizaria sua relação com a figura paterna em “Carta ao Pai”, publicada postumamente (Franz morreu sete anos antes do Sr. Hermann).
No momento mais tocante da narrativa, veremos cruel passagem da infância de Franz Kafka. O menino, pede, no meio da noite e aos prantos, um copo d’água. Irritado, o pai o colocará fora da casa, isolando-o numa varanda fria. E o deixará lá, de castigo.
A quebra da quarta parede, recurso brechtiano por excelência, permitirá a participantes da trama ficcional de Holland falar para a câmara (o espectador no caso). Entre eles, o amigo Max Brod, salvador e editor da obra do escritor, e o Sr. Hermann Kafka.
A busca de diálogo com nosso tempo dará a “Franz” um tom de comédia absurda. Agnieszka Holland nos mostrará como a sociedade do espetáculo e do consumo desenfreado lida com a herança do grande escritor. Veremos Kafka e sua obra como temas de exóticos museus, transformados em souvenir e, até, hamburger. Logo ele, que era vegetariano. Seria, mais tarde, obrigado pelos médicos a comer carne. Um sacrifício perturbador. Isto, quando a tuberculose, que o mataria aos 40 anos, já minara seu organismo.
A recriação de algumas das obras do sofisticado escritor se fará ao longo dos 127 minutos da narrativa da realizadora polonesa. Sempre que se pergunta a escritores (ou leitores) quais são as mais belas aberturas de narrativas literárias, duas se fazem recorrentes: a de “A Metamorfose” (que mostra seu protagonista Gregor Samsa, ao acordar, transformado em inseto), e a de “Cem Anos de Solidão”, de Gabriel García Márquez (o Coronel Aureliano Buendía recordando o dia em que seu pai o levara para conhecer o gelo).
Em “Franz”, Agnieszka Holland reduz o inseto a uma cena de almoço familiar. Reconstituirá, com mais ênfase, outros escritos de Kafka, em especial “A Colônia Penal”. Sua opção acabará resultando no momento mais desagradável do filme, pois tornada explícita em demasia.
O protagonista escolhido por Holland, o ator alemão Idan Weis, é notável. Ele compõe um Kafka dos mais envolventes. Atormentado pelo pai e mais próximo da irmã e da mãe, inseguro em suas relações amorosas, metódico não só no ato cotidiano da mastigação. Advogado, prestaria serviços como funcionário de seguradora, frequentaria amigos cultos como ele (e devotados à literatura) e publicaria alguns trabalhos. Quando a doença avançou e seus dias se anunciavam cada vez mais breves, Kafka pediria a Max Brod que queimasse seus originais ainda inéditos.
Por sorte, o amigo não satisfez a estranha vontade do escritor. Agindo assim, permitiu que a posteridade conhecesse a íntegra dos contos, novelas e cartas de Franz Kafka (1883-1924). Tanto a série alemã quanto o filme de Agnieszka Holland mostrarão com esmero que Kafka era tomado por espírito epistolar compulsivo. Decerto para extravasar em sua correspondência seu temperamento introvertido.
Esteta da língua alemã, o autor tcheco-germânico marcaria, profundamente, a obra de muitos escritores. Como o francês Jean-Paul Sartre, o argelino Albert Camus, o colombiano Gabriel García Márquez (e não esqueçamos do cineasta Orson Welles e sua impressionante recriação de “O Processo”). Entre os brasileiros, Clarice Lispector, Drummond, Lygia Fagundes Telles, Murilo Rubião e José J. Veiga.
O “Franz” de Holland, por sua opção fragmentada e híbrida, pode não agradar aos que se encantaram com a elegante contenção da série de David Schalko. Mesmo assim, vale arriscar. Até porque poucos (dos muitos) filmes da cineasta polonesa chegaram ao Brasil. Depois de promissora fase de descoberta – com “Colheita Amarga” e, principalmente, “Filhos da Guerra” (“Europa, Europa”) – ela foi trabalhar nos EUA. Acabaria regressando em definitivo à Europa.
Hoje, aos 77 anos, Agnieszca Holland tem feito filmes que chegam (no máximo) a festivais brasileiros, como a Mostra Internacional de São Paulo, que, em 2020, exibiu “O Charlatão” (são raros as realizações dela disponibilizadas no streaming).
Nenhum dos novos filmes da cineasta causou arrebatamento. Nem “Franz”. Aliás, nem Steven Sorderberg realizou filme memorável sobre o escritor (“Kafka”, EUA, 1991). Falado em inglês e com elenco estelar (Jeremey Irons, Theresa Russell, Ian Holm, Armin Mueller-Stahl e Alec Guiness), o longa obteve discreta presença nos nossos cinemas.
Se o filme de Holland fosse tão bom quanto seu cartaz (o rosto do ator Idan Weiss cortado em três partes), vê-lo seria uma bela e apaixonante aventura. Que aproveitemos o lançamento de “Franz” para vivê-la.
Franz
República Tcheca, Polônia, Alemanha, França e Turquia, 2025, 127 minutos
Direção: Agnieszka Holland
Roteiro: Marek Epstein e Agnieszka Holland
Elenco: Idan Weiss (Kafka), Peter Kurth (Hermann Kafka), Carol Schuller, Jenovéfa Boková, Ivan Trojan, Sebastian Schwarz, Katarina Stark e Aaron Friesz
Fotografia: Tomasz Naumiuk
Trilha sonora: Mary Komasa e Antoni Lazarkiewicz
Distribuição: A2 Filmes
FILMOGRAFIA
Agnieszka Holland
Cineasta e roteirista nascida em Varsóvia, na Polônia, em 28/11/1948. Estudou Cinema em Praga, na Tchecoslováquia, e iniciou sua carreira como roteirista de Andrej Wajda. Foi assistente de direção de Krzystof Zanussi e colaborou com Kieslowski no projeto “Três Cores: Bleu-Blanc-Rouge”.
2020 – “O Charlatão”
2019 – “Mr. Jones” (“A Sombra de Stálin”)
2017 – “Spoor”
2013 – “Burning Bush”
2011 – “In Darkness”
2006 – “O Segredo de Beethoven”
2001 – “Julie Walkin Home”
2001 – “Shoot in the Heart”
1999 – “The Third Miracle”
1997 – “Washington Suqare”
1995 – “Total Eclipse”
1993 – “Jardim Secreto”
1992 – “Olivier, Olivier”
1990 – “Filhos da Guerra”
1988 – “Complô Contra a Liberdade”
1984 – “Colheita Amarga”
1981 – “The Lonely Woman”
1980- “Fever”
1978 – “Provincial Actors”
