Cinemateca Brasileira coloca a obra de Joaquim Pedro de Andrade em diálogo com o cinema de Federico Fellini
Foto: “Guerra Conjugal”, de Joaquim Pedro de Andrade
Por Maria do Rosário Caetano
A Cinemateca Brasileira, em parceria com Instituto Italiano de Cultura de São Paulo, reúne dois grandes nomes do cinema, o italiano Federico Fellini e o brasileiro Joaquim Pedro de Andrade, em mostra retrospectiva, cuja sessão inaugural (composta com a dobradinha “A Doce Vida” e “Macunaíma) acontecerá nessa quarta-feira, 15 de julho. Ao longo de duas semanas, até o dia 26, serão exibidos 22 longas-metragens e oito curtas (ou episódios) dos dois realizadores.
De Fellini (1920-1993) serão apresentados 16 longas, incluindo suas obras-primas “A Doce Vida” e “8 ½”, somadas aos irresistíveis “Amarcord”, “Os Boas-Vidas”, “Noites de Cabíria”, “Roma” e “A Entrevista”. Apenas três longas do cineasta, nascido em Rimini e romano adotivo, ficaram de fora da maratona – “Casanova”, “Ginger e Fred” e “A Voz da Lua”. Muitos dos títulos programados serão exibidos em cópias restauradas. Alguns na Sala Grande Otelo, com som e imagem de alta qualidade. Outros no Espaço Alberto Cavalcanti, ao ar livre.
A comissão curadora da mostra escolheu, para representar as narrativas curtas do cineasta italiano, o longa “Histórias Extraordinárias”. Neste filme, realizado em 1968, Fellini assina o episódio “Toby Dammit”, baseado em obra de Edgard Allan Poe, fonte matricial também das narrativas dirigidas por Louis Malle (“Willian Wilson”, com Brigitte Bardot e Alain Delon), e Roger Vadin (“Metzengerstein”, com os irmãos Jane e Peter Fonda).
No episódio que lhe coube, Fellini seguiu uma das coordenadas do projeto – escalar nomes estelares para o elenco. O escolhido foi um astro britânico, que causava furor naquela década de 1960, Terence Stamp (devido ao sucesso planetário de “O Colecionador”, de William Wyler, e “Teorema”, de Pasolini).
“Toby Dammit” não causa arrebatamento similar ao melhor dos episódios dirigidos por Fellini – “As Tentações do Senhor Antônio” (“Boccaccio 70”, 1962). Mas a trama que ele retirou (e adaptou) do conto “Nunca Aposte sua Cabeça com o Diabo”, de Poe, é das mais provocantes: Toby Dammit, ator inglês, alcóolatra e decadente, chega a Roma para protagonizar o “primeiro faroeste católico do mundo”.
A obra de Joaquim Pedro (1932-1988) será exibida na íntegra: seis longas-metragens (cinco ficções e um documentário), um episódio (o censuradíssimo e libertário “Vereda Tropical”, de “Contos Eróticos”) e os curtas e médias “Couro de Gato”, “Gilberto Freyre – O Mestre de Apipucos”, “Manuel Bandeira – O Poeta do Castelo”, “O Aleijadinho”, “A Linguagem da Persuasão”, “Brasília, Contradições de uma Cidade” e “Cinema Novo”. Sete títulos obrigatórios.
O filme dedicado ao melancólico Manuel Bandeira é fascinante. “Cinema Novo” resulta em ótimo tributo ao movimento cinematográfico que teve o próprio Joaquim Pedro como um de seus principais artífices. A narrativa foi construída sem personalismo e com a costumeira elegância andradiana.
Das ficções longas de Joaquim Pedro, uma – “Guerra Conjugal” – se faz obrigatória, por sua reduzida presença contemporânea em telas de nossas televisões e cinemas. Quando foi lançada, em 1975, tudo indicava que a parceria do diretor de “Macunaíma” (maior sucesso comercial do cineasta) com o escritor curitibano Dalton Trevisan (1925-2024) seria um estouro.
“Guerra Conjugal” causou sensação no Festival de Brasília e disputou, com “A Rainha Diaba”, de Antonio Carlos da Fontoura, prêmio a prêmio (Candango a Candango). Sagrou-se o melhor filme. “A Diaba” também se saiu muito bem e deu início à gloria cinematográfica de Milton Gonçalves, que somaria, fato inédito, os prêmios mais importantes do país naquela época – além do Candango, o Air France e o Governador do Estado.
Na história de “Guerra Conjugal”, o que mais espanto causou foi a reação de Dalton Trevisan. Ao contrário de dezenas de ficcionistas brasileiros, insatisfeitos com as recriações cinematográficas de suas obras, o recluso escritor curitibano se desdobrou em elogios. Ao assistir à adptação de seus contos, deu seu veredito: “O belíssimo filme de Joaquim Pedro me deslumbrou os olhos, alegrou o coração e edificou a alma. Melhor que o livro é essa fabulosa obra-prima dirigida com garra, humor e consciência crítica”.
Tudo caminhava muito bem. O cineasta, que em 1969/70, assistira ao imenso sucesso popular de “Macunaíma” (mais de 2 milhões de ingressos), realizaria, em seguida, um filme para a TV italiana (e cinemas brasileiros) – “Os Inconfidentes”. Que teria desempenho modesto junto ao público, mas importância histórica e artística notável. Joaquim Pedro recuperaria o fôlego em seu diálogo com o público, ao lançar “Guerra Conjugal” (700 mil espectadores). Bem mais que “A Rainha Diaba” (250 mil). E seguiria com outro sucesso, “Contos Eróticos” (770 mil ingressos).
Na década de 1970, a pornochanchada lotava nossas salas de cinema. Não com “a família brasileira”, mas com público majoritariamente masculino. Tal hegemonia se consolidaria até 1982, quando chegou — com “Coisas Eróticas” (não confundir com “Contos Eróticos”) — a produção de sexo explícito (o filme vendeu 4,7 milhões de ingressos). E assim caminhariam nossas bilheterias até a chegada do cansaço pelo excesso de filmes dessa vertente (comédias eróticas e/ou de sexo explícito).
“Guerra Conjugal”, realizado no meio da década de 1970, transformar-se-ia na “ovelha negra da pornochanchada”. Em brilhante estudo publicado no livro “Cinema Brasileiro: Três Olhares” (EdUFF, 1997), o pesquisador Sérgio Botelho do Amaral analisou o diálogo (crítico, corrosivo) do filme de Joaquim Pedro com fato que marcara a vida brasileira naqueles inícios da década de 1970 – as visitas, ao Brasil, da Imagem Peregrina de Nossa Senhora de Fátima. Eventos que encheram de júbilo os adeptos da TFP (Tradição, Família e Propriedade), movimento religioso fincado em ideias retrógradas e ligadas ao pensamento de extrema-direita.
Quem ler o texto de Sérgio Botelho do Amaral (1958-2020), antes de assistir ao filme de Joaquim e Dalton na Sala Grande Otelo (quarta-feira, 22 de julho), terá seu imaginário fertilizado por instigantes provocações.
Joaquim Pedro de Andrade – demonstrará o ensaísta – escreveu o roteiro de “Guerra Conjugal” a partir da soma de 14 contos de Dalton Trevisan, naquele exato momento em que o país sofria o impacto religioso advindo das duas visitas da imagem Peregrina de Fátima.
A comoção entre fiéis ganharia imenso relevo nos meios de comunicação. Por isso, naqueles anos em que o senador Nelson Carneiro lutava pela aprovação da Lei do Divórcio, a TFP reafirmaria, sem descanso, que “o casamento em nossa terra é indissolúvel”. O cineasta-roteirista, com seu olhar atento e crítico, não deixou o acontecimento da cristandade conservadora passar em branco.
O rosto da virginal Neusinha (personagem de Cristina Aché em “Guerra Conjugal”) – mostra Amaral – assemelha-se ao semblante da imagem da santa, trazida de New Orleans, para uma peregrinação pelo Brasil, primeiro em maio de 1973 (Governo Médici) e, depois, em julho de 1974 (Governo Geisel).
O tempo passou e “Guerra Conjugal” deixou de figurar na linha de frente da obra de Joaquim Pedro. Hoje, “A Rainha Diaba” vive glorioso (e merecido) processo de redescoberta. Depois de restaurado em 4K, renasceu e circulou por dezenas de festivais brasileiros, seguidos por festivais internacionais espalhados pelos cinco continentes. Foi, inclusive, lançado em blu-ray nos EUA. As novas gerações redescobrem o filme de Fontoura e, com ele, mantêm ótimo diálogo. O mesmo (ainda) não aconteceu com “Guerra Conjugal”. Por que?

Realismo fantástico
A Retrospectiva Fellini-Joaquim Pedro tem seu eixo curatorial estruturado sobre possível “aproximação entre as obras dos dois realizadores, explorando afinidades em torno do realismo fantástico e de suas distintas buscas por uma identidade nacional, tanto no plano político quanto no poético”. Por isso, “a programação reúne os filmes dos dois cineastas que, em contextos históricos e culturais distintos, transformaram o cinema em campo de reflexão sobre a imaginação, a memória e a construção das identidades coletivas”.
“Partindo do neorrealismo e suas colaborações com Roberto Rossellini” – prossegue o texto da curadoria –, “Fellini desloca progressivamente esse paradigma em direção a uma poética própria, na qual o gesto autobiográfico funciona menos como confissão e mais como estratégia formal”.
Filmes como “Os Boas Vidas”, “A Estrada da Vida”, “Noites de Cabíria”, “A Doce Vida”, “8 ½”, “Amarcord” e “Julieta dos Espíritos” servem como exemplos da “reinvenção do realismo ao fazer do sonho, da memória e do espetáculo dimensões inseparáveis da experiência humana”. Nesse deslocamento, “o que se convencionou chamar de realismo fantástico não aparece como fuga do real, mas como um modo de torná-lo mais legível em sua instabilidade constitutiva: a realidade não é negada, mas revelada como montagem, como delírio partilhado e como encenação contínua do vivido”.
“A obra de Joaquim Pedro” – pondera a curadoria – “se insere no contexto do Cinema Novo, movimento que buscava pensar o país a partir de suas contradições sociais, históricas e culturais”. O cineasta “herda também uma tradição intelectual voltada à construção crítica da identidade nacional. Sua obra atravessa diferentes gêneros do cinema brasileiro – do documentário à ficção ensaística, da antropologia à sátira – em filmes como “Couro de Gato”, “Garrincha, Alegria do Povo”, “Cinema Novo”, “O Padre e a Moça”, “Macunaíma”, “Os Inconfidentes”, “Guerra Conjugal”, “Vereda Tropical”, “O Aleijadinho” e “O Homem do Pau-Brasil”. Em todos eles, “o Brasil aparece menos como tema fixo do que como problema em construção: uma identidade atravessada por tensões entre modernidade e tradição, erudição e cultura popular, mito e história”.
“Entre Fellini e Joaquim Pedro” – registra a curadoria – “as aproximações não se dão por influência direta, mas por afinidades estruturais. Ambos tensionam os limites do realismo cinematográfico, transformando o visível em matéria maleável, permeada por fantasia, alegoria e crítica cultural”.
Nos filmes impregnados por tais características, “o realismo fantástico pode ser compreendido menos como gênero do que como procedimento: uma forma de tornar visível aquilo que o realismo estrito não consegue conter: o excesso, o sonho, a memória deformada, a história em estado de ficção permanente. O que parece documento se contamina de invenção; o que parece invenção revela uma dimensão histórica concreta. Se Fellini dissolve o neorrealismo em uma poética do imaginário autobiográfico e coletivo, Joaquim Pedro desloca o impulso programático do Cinema Novo para uma reflexão mais ambígua e crítica sobre as imagens do Brasil, onde o popular, o erudito e o histórico convivem em constante fricção”.
No que diz respeito à identidade nacional, o contato se mostra decisivo “na maneira como ambos trabalham tal ideia”. Em Fellini, “a Itália se apresenta como um teatro de excessos: provinciana e cosmopolita, devota e profana, monumental e grotesca”. Em Joaquim Pedro, “o Brasil surge como narrativa em disputa, marcada por projetos modernistas, pelo barroco mineiro, pela antropofagia e pelas promessas e fracassos da modernização”. Em ambos os casos, “a identidade nacional não é essência, mas construção instável, frequentemente irônica e sempre contraditória”.
Confira a programação da mostra:
Quarta-feira, 15 de julho
17h30 – “Macunaíma” (35 mm) – Na Sala Grande Otelo
19h00 – “A Doce Vida” (restaurado) – No Espaço Alberto Cavalcanti
Quinta-feira, 16 de julho
15h00 – “A Trapaça” – Sala Grande Otelo
17h30 – “Os Palhaços” (35 mm) – Sala Grande Otelo
20h00 – “Roma de Fellini” (restaurado) – Espaço Alberto Cavalcanti
Sexta-feira, 17 de julho
15h00 – “Abismo de um Sonho” – Sala Grande Otelo
17h30 – “O Homem do Pau Brasil” – Sala Grande Otelo
20h00 – “Amarcord” – Espaço Alberto Cavalcanti
Sábado, 18 de julho
17h30 – “A Estrada da Vida” – Sala Grande Otelo
20h00 – “8 1/2”(restaurado) – Espaço Alberto Cavalcanti
Quarta-feira, 22 de julho
17h30 – “Guerra Conjugal” – Sala Grande Otelo
20h00 – “Satyricon de Fellini” (restaurado) – Espaço Alberto Cavalcanti
Quinta-feira, 23 de julho
15h00 – “Ensaio de Orquestra” – Sala Grande Otelo
17h30 – “Os Inconfidentes” – Sala Grande Otelo
20h00 – “Noites de Cabíria” – Espaço Alberto Cavalcanti
Sexta-feira, 24 de julho
15h00 – “Entrevista” – Sala Grande Otelo
17h30 – “O Padre e a Moça” – Sala Grande Otelo
20h00 – “Os Boas Vidas” (restaurado) – Espaço Alberto Cavalcanti
Sábado, 25 de julho
15h00 – “Cidade das Mulheres” (restaurado) – Sala Grande Otelo
18h00 – “O Poeta do Castelo”, “O Mestre dos Apipucos”, “O Aleijadinho”, “Couro de Gato” e “Vereda Tropical” – Espaço Alberto Cavalcanti
20h00 – “Julieta dos Espíritos” (restaurado) – Espaço Alberto Cavalcanti
Domingo, 26 de julho
15h00 – “Histórias Extraordinárias” – Sala Grande Otelo
17h30 – “A Linguagem da Persuasão”, “Brasília, Contradições de uma Cidade”, “Cinema Novo” e “Garrincha, Alegria do Povo” – Sala Grande Otelo
20h00 – “E La Nave Va” (restaurado) – Espaço Alberto Cavalcanti

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