Gramado anuncia seis ficções que disputarão o Troféu Kikito e superprodução “Antártida” como atração inaugural

Foto: “Feito Pipa”, de Allan Deberton © JamilleQueiroz

Por Maria do Rosário Caetano

Seis longas-metragens ficcionais, que se somarão a quatro documentários, foram escolhidos (entre 300 filmes inscritos) pela curadoria do Festival de Cinema de Gramado, cuja quinquagésima-quarta edição acontece, na Serra Gaúcha, de 12 a 22 de agosto próximo.

Os escolhidos são “Feito Pipa”, de Allan Deberton, representante do Ceará, “Pele de Rinoceronte”, do carioca Marcello Ludwig Maia, “Nosso Segredo”, da mineira Grace Passô, “Chorão: Só os Loucos Sabem”, dos paulistanos Hugo Prata e Felipe Novaes, “Justino – Nos Bastidores do Reino”, do brasiliense José Eduardo Belmonte, e “Leite em Pó”, do paulista-potiguar-mineiro Carlos Segundo, uma produção que uniu Brasil e França.

O comando de Gramado, liderado por Rosa Helena Volk, da Gramadotur, e a curadoria, formada pelo crítico Marcos Santuário e pelas atrizes Camila Morgado e, estreante na função, Ana Flávia Cavalcanti, anunciará nos próximos dias os quatro longas documentais que disputarão o Troféu Kikito.

Santuário contou que a seleção foi marcada por “exame cuidadoso de todos os filmes” e que a comissão pautou-se “pelo encantamento e pela dissonância”, já que chegar a (apenas) seis títulos de ficção e quatro documentários, num conjunto de 300 filmes, “exige muita discussão” e “a compreensão de que ótimos filmes ficariam de fora”.

Antes de anunciar as produções selecionadas para o mais badalado segmento do festival gaúcho, aquele que lota o Tapete Vermelho do Palácio dos Festivais com nomes famosos, Santuário festejou o filme da noite inaugural, que terá exibição em caráter hors concours (como, em anos recentes, aconteceu com filmes de Kleber Mendonça Filho, como “Aquarius” e “Bacurau”).

Recorreu ao suspense, avisando tratar-se de realização com “tecnologia desafiadora, elenco estelar e maior produção da história da Globo Filmes, em parceria com a Conspiração, liderada por Andrucha Waddington e Leonardo Monteiro de Barros. Distribuição da Paris Filmes”.

O filme se chama “Antártida”. OK, o continente gelado exige produções vultosas. Maiores ainda quando se trata de um longa de ação, gênero basilar da megaindústria hollywoodiana.

O que mais espanta, em “Antártida”, é o nome do diretor que comandou sua realização – o carioca Bruno Safadi, de 46 anos. Um cultor devotado do cinema de invenção de Júlio Bressane, de quem foi assistente ou coprodutor. Pois o rapaz, autor de filmes independentes como “Meu Nome é Dindi”, “Éden”, “Lilith” e “Belair”, foi parar na direção de teledramaturgia da Globo. E cacifou-se para a empreitada “Antártida”, agora definida como a “maior superprodução” da poderosa Globo Filmes.

Que ninguém, entre alternativos empedernidos, se desespere. Safadi deve ter guardado sua criatividade e inquietação para o frio glacial antártico. Quem assistiu à série “A Vida pela Frente”, que ele dirigiu com sua musa Leandra Leal, sabe que ele não capitulou. Não se entregou ao “cinemão”. Aguardemos, pois, sua primeira superprodução.

“Antártida”, de Bruno Safadi

Gramado anunciou muitas outras novidades na primeira de suas três coletivas, a gaúcha. E guardou outras para a coletiva carioca, que acontecerá semana que vem (dia 13) e anunciará os festejados detentores de prêmios badalados como o “Oscarito”. E para a paulistana (dia 16), a que anunciará os longas documentais e os curtas brasileiros.

Quem vai ganhar o Troféu Cidade de Gramado, atribuído pela municipalidade?

O ator e dramaturgo Marcos Caruso.

Quem receberá o Troféu Sirmar Antunes, da Assembleia Legislativa do Rio Grande do Sul, patrona do Gauchão?

O diretor de fotografia Jorge Henrique Boca.

Quem fará jus aos quatro troféus do IeCine (Instituto de Cinema do Rio Grande do Sul)?

A atriz Sílvia Duarte, que receberá o Troféu Leonardo Machado; a produtora Gisela Hilt (IeCine Legado); a dupla Filipe Matzembacher e Márcio Reolon, responsável por “Beira-Mar”, “Tinta Bruta” e “Ato Noturno” (IeCine Inovação), e Tatiana Seger e Renato Dornelles (IeCine Destaque 2026).

Os detentores dos três troféus especiais mais badalados de Gramado – “Oscarito”, de nome sonoro e irônico, o Kikito de Cristal (para personalidades promotoras do diálogo entre o cinema brasileiro e o mundo) e Eduardo Abelin (diretores brasileiros, que engrandeçam o nome do pioneiro gaúcho) – serão conhecidos nos próximos dias. Gramado adora uma homenagem.

Um dos ex-diretores do festival gaúcho, o produtor Ralfe Cardoso, contou, na primeira coletiva de anúncio das atrações gramadenses, que a décima edição do Conexão Gramado 2026 se voltará, mais uma vez, ao diálogo entre a cinematografia brasileira e a ibero-americana, unindo Gramado a Medelín, importante centro de produção da Colômbia. Autoridades audiovisuais do país caribenho, terra natal de Gabriel García Márquez, virão à Serra Gaúcha para estreitar relações com o cinema brasileiro.

E mais: haverá edição, a primeira, do Encontro Internacional de Cidades, conceito estruturado na compreensão de “cidades amigáveis” do audiovisual. Ou seja, aquelas interessadas em estabelecer laços capazes de assegurar novas produções cinematográficas (ou televisivas).

Cardoso finalizou sua intervenção lembrando que “60 jovens, que já trabalham com cinema, serão hospedados pelo Festival de Gramado”, para acompanharem, na condição de ‘visitantes-residentes’, as atividades do Conexão Gramado. E, assim, estabelecerem laços capazes de incrementar suas trajetórias noviças.

“Nosso Segredo”, de Grace Passô

E os seis longa ficcionais selecionados pela trinca curatorial? Representam a força do novo cinema brasileiro?

Só a projeção dos filmes, nas noites de gala do mais badalado festival do país, servirá de tira-teima. Dois deles já contaram com vitrine internacional – ambos em mostras paralelas do Festival de Berlim – “Feito Pipa”, de Allan Deberton, que causou sensação na mostra Generation, destinada a filmes para crianças e/ou adolescentes, e “Nosso Segredo”, da atriz, dramaturga e diretora Grace Passô.

Os outros quatro são 100% inéditos em vitrines internacionais. Em vitrine brasileira — por exigência do regulamento do festival — todos são. Ou seja, terão na Serra Gaúcha suas primeiras projeções pública).

A cinebiografia de Chorão, músico santista, chega recomendada por outra cinebiografia de Hugo Prata – “Elis”, com Andrea Horta iluminada na pele da Pimentinha gaúcha. 

“Justino – Nos Bastidores do Reino” baseia-se em história real (de fiel seguidor de poderosa igreja neopentecostal) e sequencia a carreira do incansável “remador de Ben-Hur” do cinema brasileiro, José Eduardo Belmonte. Ano passado, ele participou do Festival de Brasília com outro filme baseado em história real – “Assalto à Brasileira”, sobre roubo de trupe amadora ao do Banestado paranaense. Em seguida, lançou, nos cinemas, o longa “Quase Deserto”, realizado, com elenco latino-americano e estadunidense, em Detroit, nos EUA.

Pele de Rinoceronte” marca a estreia do produtor Marcelo Ludwig Maia na direção. Outro (quase) estreante no longa-metragem a chegar a Gramado é Carlos Segundo. Diretor de curtas festejadíssimos como “Sideral” e “Big Bang”, ambos em parceria com a França, ele escolheu a mais poderosa e badalada vitrine cinematográfica brasileira para mostrar seu filme (“Leite em Pó”), com Rejane Faria e Antonio Pitanga no elenco. Antes, Segundo dirigiu o longa “Fendas”, que circulou pouco e não teve lançamento comercial. Essa será sua verdadeira prova de fogo no formato estendido.

Confira os selecionados:

Longa ficcional brasileiro

. “Nosso Segredo”, de Grace Passô (MG)
. “Feito Pipa”, de Allan Deberton (CE)
. “Justino – Nos Bastidores do Reino”, de José Eduardo Belmonte (DF)
. “Leite em Pó”, de Carlos Segundo (MG-SP-RN)
. “Pele de Rinoceronte”, de Marcello Ludwig Maia (RJ)
. “Chorão: Só os Loucos Sabem”, de Hugo Prata e Felipe Novaes (SP)

Curta-Metragem Gaúcho

. “Batidão de Botas” (Pelotas), de Camila Santos (Camisla), Daniel Galuppo, Esther Costa, Maria Eduarda Bandeira e Stella Mahle
. “O Acumulador de Memórias” (Pelotas), de Camisla
. “Banho Maria” (Porto Alegre), de Gabriel Faccini
. “Braço Forte” (Pelotas), de Rubens Fabricio Anzolin e João Fernando Chagas
. “Claudete” (Santa Cruz do Sul), de Gabriela Kopp
. “Coisa Ruim” (Porto Alegre), de Lucas Tergolina
. “Drunken Car” (Garibaldi), de Brunella Martina
. “Elisete Tem que Casar!” (Caxias do Sul), de Gaby Buffon
. “Estátuas Também Morrem?” (Brasil-Hungria-Portugal-Bélgica), de Thais Fernandes
. “Grão” (Rio Grande), de Gianluca Cozza e Leonardo da Rosa
. “Manjericão” (Xangri-Lá), de Raphaela Serafim Maciel e Eric Pauli
. “Mizandrika” (Pelotas), de Kali Breder
. “Procura-se Ator” (Imbé/Tramandaí), de Airton Tomazzoni e Laura Lautert
. “Raidinalha” (Porto Alegre), de Marco Arruda
. “O Retorno” (Porto Alegre), de Cesar Meneghetti e Mario Gianni
. “Terra Bruta” (Canoas), de Allan Riggs e Guilherme Suman
. “A Vaidade é a Última Que Morre” (Porto Alegre), de Natália Zambon
. “O Véu” (Porto Alegre), de Gabriel Motta

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