Rui Rezende deixa “Nós, que nos Queremos Tão Pouco” de herança para fãs do professor Astromar de “Roque Santeiro”
Foto: Rui Rezende como professor Astromar, na novela “Roque Santeiro”
Por Maria do Rosário Caetano
“Nós, que nos Queremos Tão Pouco”, longa-metragem dirigido pela cineasta gaúcha Lisiane Cohen, é a herança que o ator Rui Rezende, morto no último domingo, 12 de julho, aos 88 anos, deixa para seus fãs.
O filme, baseado em peça teatral escrita pelo próprio Rui, traz impresso em cada palavra o humor amargo-peculiar do ator nascido em Araguari, nas confluências do Triângulo Mineiro com o Alto Paranaíba. O italiano Ettore Scola, mais otimista e esperançoso que o brasileiro, batizou um de seus filmes mais famosos de “Nós que nos Amávamos Tanto”.
Os personagens interpretados pelo ator mineiro, reconhecido nacionalmente depois de encarnar o professor Astromar (“Roque Santeiro”, 1985), sempre fugiram dos mocinhos de bom coração. Nunca foi visto como galã. Nunca protagonizou uma telenovela ou um longa-metragem. Mas soube roubar a cena como coadjuvante, graças ao seu imenso talento. Soube, também, estabelecer parcerias dignas de lembrança. Uma delas, inesquecível, o uniu ao agente funerário Zé do Caixão (vejam, abaixo, testemunho do produtor Paulo Sacramento).
Na telenovela de Dias Gomes e Aguinaldo Silva, um dos maiores êxitos da Rede Globo, o professor Astromar virava lobisomem. E o fazia no embalo de música-tema que marcou época – “Mistérios da meia-noite”, grande sucesso do paraibano Zé Ramalho. Quem não se lembra dos versos “Mistérios da meia-noite/ Que voam longe/ que você nunca/ não sabe nunca/ se vão, se ficam/ quem vai, quem foi”?
O personagem alcançou tamanha repercussão, que o próprio Rui Rezende reconheceria, com seu humor desconcertante, que, “ao morrer, o professor Astromar lhe serviria como garantia de espaço nos obituários dos jornais”. Costumava lembrar, também, que jovens – infantes na época em que a telenovela marcava ibope de 80% – o reconheciam nas ruas e o chamavam não de Rui Rezende, mas de prof. Astromar” (assim o chamava, também, José Mojica Marins, o Zé do Caixão).
Onze anos atrás, em divertida conversa com a Revista de CINEMA, durante a Mostra de Cinema de Tiradentes, o ator relembrou o peso avassalador (embora essencial) em sua carreira do personagem lobisômico. Na cidade histórica mineira, ele apresentava, ao lado de Helvécio Ratton, o longa infanto-juvenil “O Segredo dos Diamantes”. No qual lhe coubera interpretar um personagem com toques obsessivos (ver abaixo testemunho de Ratton).
Rui Rezende participou de muitos filmes ao longo de sua longeva trajetória. E, mesmo que seus personagens fossem coadjuvantes, ele os compunha com imensa dedicação e rigor. Foi assim nos três filmes que realizou com o xará Ruy Guerra (“Kuarup”, “A Bela Palomeira” e “Veneno da Madrugada”), no cativante “Amor & Cia”, de Ratton, em “Dona Flor e seus Dois Maridos”, de Bruno Barreto, “O Casal”, de Daniel Filho, “Barra Pesada”, de Reginaldo Faria, “A Difícil Viagem”, de Geraldo Moraes, e “Tiradentes”, de Oswaldo Caldeira.
Ao obrigatório “Narradores de Javé” (Eliane Caffé, 2002), Rui somou participações em “O Homem que Desafiou o Diabo”, de Moacyr Goes, e “Encarnação do Demônio”, de Mojica Marins, fecho de Trilogia iniciada com “À Meia-Noite Levarei sua Alma” e sequenciada com “Esta Noite Encarnarei no teu Cadáver”.
Predisposto a atuar em projetos alternativos, o intérprete marcou presença num dos episódios de “Insônia” (1982), longa produzido pela efêmera CBC (Cooperativa Brasileira de Cinema) a partir de três contos de Graciliano Ramos. Coube a ele atuar em “A Prisão de J. Carmo Gomes”, de Luiz Paulino. Os outros dois episódios foram dirigidos por Nelson Pereira dos Santos (“Um Ladrão”) e Emmanuel Cavalcanti (“Dois Dedos”).

Rui Rezende foi protagonista absoluto de, pelo menos, um curta-metragem – “Hoje Tem Felicidade”, de Lisiane Cohen. E foi durante as filmagens, realizadas em Porto Alegre, que floresceu a grande amizade que os uniu por mais de duas décadas. E que daria origem ao longa-metragem “Nós, que nos Queremos Tão Pouco”.
Lisiane conta, ainda emocionada com a partida do amigo, que foram necessários 20 anos para que conseguissem realizar, mais uma vez no Rio Grande do Sul, um novo filme, um longa-metragem baseado em peça que ele escrevera, ‘Nós, que nos Queremos Tão Pouco’.
— No set de “Hoje tem Felicidade”, ele me perguntou se eu gostaria de ler o texto. Queria minha opinião sincera. Agora, a peça virou filme. Estamos, pois, prontos para participações em festivais e, se tudo der certo, lançá-lo no primeiro semestre de 2027.
“Nós, que nos Queremos Tão Pouco”, este título de tom tão amargo, fixa-se, pois, naqueles que esperam pouco da vida. Além de fonte do roteiro, Rui interpreta o personagem Constâncio, pai das protagonistas Mara (Julia Lemmertz) e Antônia (Fera Carvalho Leite). Elas são irmãs separadas por um segredo familiar.
O reencontro das duas se dará em momento muito difícil: o da exumação do corpo da mãe, morta em acidente de carro. O fato está sob investigação policial. A reunião com o pai, realizada na cidade onde elas nasceram, ativará memórias vividas, revolverá sentimentos e tensões. E poderá trazer, à tona, revelações inesperadas. Que poderão transformar os rumos de suas vidas.
Mara e Antônia são mulheres realizadas profissionalmente, que somam singularidades e saberes, mas não conseguem conviver mais no lugar que um dia fora o palco de alegrias e cumplicidades infantis. Hoje, porém, tal fraternidade resume-se a hostilidades e aparente falta de afeto.
“O silêncio, as palavras não ditas, a frieza crua das memórias do passado não revelado” – reflete a diretora e roteirista de “Nós, que nos Queremos Tão Pouco” – “funcionam como elo invisível, que aprisiona e castiga os sentimentos desta família”. Para concluir: “ainda há tempo para um reencontro, mas não se sabe se a verdade será capaz de libertar rancores e permitir um novo e difícil recomeço”.

Abaixo, cineastas, diretor de fotografia, uma atriz e um produtor, que trabalharam com Rui Rezende, relembram momentos de sua trajetória em diferentes sets cinematográficos.
PAULO SACRAMENTO (cineasta, montador e produtor) – “Em 2006, Dennison Ramalho e eu trabalhávamos com o genial José Mojica Marins, que finalmente se preparava para fechar (40 anos depois!) a trilogia cinematográfica de seu personagem Zé do Caixão. O filme era o já mítico ‘Encarnação do Demônio’, projeto acalentado por mais de três décadas e jamais realizado. Um dos papéis mais importantes era o do fiel servo Bruno, o corcunda. Nenhum de nós tinha um nome para o papel e essa decisão se impunha. Precisávamos de um ator à altura, já tínhamos fechado com Jece Valadão e Cristina Aché, o padrão era alto… Então, certo dia, o Mojica teve um estalo e falou gritando, como sempre fazia quando se entusiasmava: ‘e o professor Astromar?’ Claro, esse era o célebre personagem de Rui Rezende em ‘Roque Santeiro’. Não havia nenhuma dúvida, ele tinha que ser o nosso Bruno. Imediatamente fizemos o convite, que foi prontamente aceito. Rui chegou a São Paulo para ocupar um lugar que não poderia ser de outra pessoa. Mojica dizia no set que ele (Rui) era o Boris Karloff brasileiro. A química entre os dois foi imediata, Rui prestava atenção a tudo que o mestre falava, com atenção e certa devoção. Estávamos muito felizes de tê-lo conosco, e a recíproca não poderia ser mais verdadeira. Grande Rui Rezende, que saudades deixou em todos nós!”
HELVÉCIO RATTON (cineasta mineiro) – “Sempre gostei da atuação refinada de Rui, com quem trabalhei duas vezes no cinema. A primeira foi em ‘Amor & Cia’, no qual ele interpretou Abílio, o contador da empresa de Alves, o personagem de Marco Nanini. Me lembro que ele ficou surpreso quando o chamei para uma leitura do roteiro e me perguntou se eu ia ler até os pequenos papéis, como o dele. Respondi que sim e que era um prazer trabalhar com ele. A partir daí, tivemos uma ótima relação e filmamos mais tarde ‘O Segredo dos Diamantes’, uma aventura infanto-juvenil, na qual Rui interpretou Silvério, um pintor obcecado em descobrir os diamantes escondidos por um ancestral. Ele criou um personagem misterioso, ao seu jeito, que de repente podia se tornar violento. Filmamos no Serro, em Minas, e ele ficou hospedado comigo, na mesma casa. Dizia que eu e Simone (Magalhães, produtora do filme) o estávamos deixando mal acostumado ao tratá-lo como protagonista. Além de bom ator, Rui era uma figura delicada e ótimo parceiro no set, onde agora vai fazer falta”.
ELIANE CAFFÉ (cineasta paulista) – “Rui Rezende foi fundamental no processo de criação do filme ‘Narradores de Javé’. Sua generosidade na imersão com as pessoas do povoado Gameleira da Lapa permitiu que o pessoal de lá estivesse muito à vontade no set. A forma como ele teceu a comicidade de modo a integrar-se com o repertório de gestos e falas regionais foi de um grande ator e ser humano. Querido e amado Rui Resende!!!!”
OSWALDO CALDEIRA (cineasta mineiro, radicado no Rio) – “Rui Rezende interpretou, no meu filme ‘Tiradentes’, o papel de Coronel Malheiro (Basílio de Brito Malheiro do Lago). O Coronel foi, na história da Inconfidência Mineira, um delator do movimento. Inicialmente, Malheiro participou ativamente das articulações e reuniões que planejavam o fim do domínio português. Temendo as punições da Coroa Portuguesa, ele se juntou a outros conspiradores, como Joaquim Silvério dos Reis e Inácio Correia Pamplona, e entregou os planos ao Visconde de Barbacena. Durante os interrogatórios e devassas, o Coronel Malheiro não apenas delatou seus companheiros, como também registrou conversas e planos que ajudaram a embasar o processo contra os líderes da conjuração, fornecendo detalhes logísticos e conversas que ouviu e conseguiu escapar da pena capital. Rui Rezende, um ótimo ator, desempenhou magnificamente esta ambiguidade do traidor, com seu carisma e ao mesmo tempo um tom sinistro como um Humphrey Bogart mineiro. O ‘Lobisomem da Inconfidência Mineira’. Sempre empenhado, sério, e ao mesmo tempo bem-humorado, um grande ator e uma ótima pessoa. Um querido”.
MURILO SALLES (cineasta carioca) – “Conheci Rui Rezende no set de ‘Dona Flor e seus Dois Maridos’, filme de Bruno Barreto do qual fui diretor de fotografia. Que grande figura humana! Mas o melhor era o extra-set. Aí ele virava um figuraça, sempre com histórias e um humor muito próprio. Pena que, passados 50 anos do lançamento de ‘Dona Flor’, constato que nossos destinos não voltaram a se cruzar. Mas ele fica na memória e no coração dos que o conheceram. Sabe que no set de ‘Dona Flor’ eu notei que ele vivia super-na-dele. E super na-do-outro!”.
LISIANE COHEN (diretora do último filme de Rui Rezende) – “Sempre admirei o Rui. Gostava, além do talento, da figura fora dos padrões. Ele sempre teve uma imagem marcante. Quando escrevi o roteiro do curta ‘Hoje Tem Felicidade’, com minha amiga Caroline Drehmer, já sabia que seriam, ele e Thelma Reston, os intérpretes dos protagonistas. Tanto que as personagens se chamavam Rui e Thelma. Nessa época ele morava no interior de Minas. Chegou a Porto Alegre uma semana antes das filmagens, pois havia uma cena musical que exigia muito ensaio. Ele ‘tocaria’ um dos ‘instrumentos’. Aquela semana foi de uma riqueza imensa para mim. Almoçávamos e jantávamos juntos, tínhamos longas conversas sobre o filme, a personagem, o cinema, a vida. Isso aconteceu em 2004. Depois que as filmagens acabaram, Rui e eu mantivemos contato através de cartas enviadas pelo correio. O filme foi lançado em 2005 e nos reencontramos no Festival de Curtas de SP. Ele gostou muito do resultado. E me entregou texto teatral, que havia escrito e gostaria de saber minha opinião. Nascia ali o filme (“Nós, que nos Queremos Tão Pouco”) que ele não teve tempo de ver na tela de um cinema. Vou me lembrar sempre do ator maravilhoso, técnico e muito inteligente que ele foi. E do humor ácido que cultivava. Vou sentir muitas saudades dele. Perguntei pra Julia Lemmertz: como vou assistir ao filme agora, sem ele? Ela respondeu: de mãos dadas, vamos assistir de mãos dadas e honrar o trabalho dele”.
JULIA LEMMERTZ, atriz gaúcho-carioca, colega de elenco de Rui Rezende em “Nós, que nos Queremos Tão Pouco”, escreveu, na internet – “Querido Rui, foi um enorme prazer conviver um pouco contigo, te conhecer melhor e dividir esse teu último set de filmagem. Você estava tão feliz. Obrigada por compartilhar teus escritos, as histórias todas, esse filme adaptado de uma peça que você escreveu, enfim…. Essa vida aqui acaba, eventualmente, mas o que fica é infinito, porque dentro da gente cabe muita coisa, a sua memória vai ficar preservada conosco, até que tudo vire poeira de estrela de novo. Agora que você se encantou, aproveite a viagem, meu amigo. Adorava quando você me chamava de ‘garota’”.
