Governo do DF recua e promete bancar 59ª edição do Festival de Brasília, o mais tradicional do país

Por Maria do Rosário Caetano

A governadora do Distrito Federal Celina Leão recuou de sua decisão de não bancar a realização da quinquagésima-nona edição do Festival de Brasília do Cinema Brasileiro, o mais antigo do país, programado para acontecer no mês que vem (de 11 a 19 de setembro). Duas razões teriam motivado o cancelamento (revisto via mensagem digital): “o custo financeiro” (R$3 milhões) e o “caráter não prioritário” do evento, criado há 61 anos e transformado no mais resistente e duradouro projeto artístico-cultural da capital brasileira.

Em nota no X (o antigo Twitter), Celina Leão escreveu: “Está confirmada a realização da 59ª edição do Festival de Cinema de Brasília, evento marcado para 11 a 19 de setembro. Já determinei que a Secretaria de Economia providencie os recursos necessários para o evento”.

A reação ao cancelamento do festival candango foi grande e ruidosa. Cineastas e entidades culturais manifestaram-se com veemência contra nova interrupção do evento (criado em 1965 por Paulo Emilio Salles Gomes e equipe). E prometeram seguir adiante, promovendo novos protestos. Até o Ministério da Cultura soltou nota oficial.

Celina Leão, que é candidata a governadora do DF (ela assumiu o cargo com a renúncia de Ibaneis Rocha, de quem ela era vice), parece ter percebido que o desgaste seria grande. E que o Governo Federal poderia, via MinC e Petrobras, bancar o evento sem a participação de seu governo. Confiram a nota do MinC:

O Ministério da Cultura considera extremamente grave a possibilidade de cancelamento da 59ª edição do Festival de Brasília do Cinema Brasileiro. O Governo Federal já apoia a realização do festival por meio da Lei Rouanet, com patrocínio da Petrobras, histórica apoiadora do evento, e não permitirá que um festival dessa importância para a cultura brasileira deixe de acontecer. O MinC está mobilizado para assegurar a realização desta edição e a continuidade do mais longevo festival de cinema em atividade no Brasil. Criado em 1965, o Festival de Brasília é um dos mais importantes e tradicionais eventos do audiovisual nacional”.

E mais: “Ao longo de seis décadas, (o festival) teve sua continuidade interrompida apenas durante a ditadura militar. Mesmo durante a pandemia, sua realização foi preservada por meio de edições virtuais. Sua trajetória se confunde com a própria história do cinema brasileiro e faz do festival um espaço fundamental de liberdade de criação, formação de público, revelação de talentos e reconhecimento da produção audiovisual brasileira”.

Por isso: “O Ministério manifesta solidariedade aos artistas, realizadores, produtores, técnicos, demais profissionais do audiovisual e ao público que, há seis décadas, constroem e acompanham o festival. O cancelamento representaria um grave desprestígio à cultura e ao audiovisual brasileiro, especialmente em um momento em que o cinema nacional alcança reconhecimento internacional e projeta a imagem do Brasil para o mundo. O setor também gera trabalho, renda, desenvolvimento econômico e oportunidades para milhares de profissionais. Nesse contexto, cancelar um festival com a relevância histórica e cultural do Festival de Brasília significaria caminhar na contramão do momento vivido pelo cinema brasileiro e desperdiçar uma oportunidade de fortalecer, no próprio Distrito Federal, uma cadeia produtiva que projeta o Brasil para o mundo. É importante lembrar que o Distrito Federal também conta com recursos federais para o fortalecimento da cultura. Somente por meio da Política Nacional Aldir Blanc (PNAB), o DF recebeu mais de R$ 69,1 milhões nos dois primeiros ciclos da política, recursos transferidos pela União para o fomento à cultura no Distrito Federal”.

Para arrematar: “O Ministério da Cultura considera que uma iniciativa com a relevância histórica e cultural do Festival de Brasília não pode ser tratada como secundária. O cancelamento de uma edição seria uma perda para o setor audiovisual, para a cultura e para o público brasileiro. O MinC acompanha os desdobramentos e reafirma que o Governo Federal, que já apoia o festival por meio da Lei Rouanet, com patrocínio da Petrobras, trabalhará para assegurar sua realização e continuidade”.

Na noite do último domingo, Celina Leão (PP) participou do Debate Band (com candidatos ao Governo do DF) ao lado de cinco outros concorrentes (José Roberto Arruda, do PSD, Leandro Grass – PT, Ricardo Cappelli – PSD, Paula Belmonte – PSDB e Kiko Caputo – Novo). Segundo registro do Estadão dessa terça-feira, 11/08/2026, “Arruda, atualmente no PSD, e o candidato do PT, Leandro Grass, atuaram em dobradinha no debate, com perguntas que atacavam a atual governadora, Celina Leão (PP), do caso Master à educação. O ex-governador considera ter o petista no palanque num eventual segundo turno”.

Para colocar mais fogo na fogueira, o portal Brasil 247 publicou matéria de Tereza Cruvinel intitulada “Governo Celina vai torrar R$3,5 milhões de emendas numa Bienal do Livro improvisada”.

Vale lembrar que, durante décadas, o GDF se responsabilizou por Encontro Literário que culminava, a cada nova edição, com a entrega do Prêmio Brasília de Literatura. O evento sofreu solução de continuidade e,  ao contrário do resistente Festival de Brasília do Cinema Brasileiro, não conseguiu se reerguer. Ficou pelo caminho.

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