Paz Encina agradece Prêmio CineBH oferecendo ao público lista de momentos luminosos do cinema latino-americano
Foto © Leo Lara/Universo Produção
Por Maria do Rosário Caetano, de Belo Horizonte (MG)
A vigésima edição da CineBH – Mostra Internacional de Cinema de Belo Horizonte começou com tocante homenagem aos povos e à cultura latino-americanos. Sob a divisa “O que Será?”, inspirada na canção homônima de Chico Buarque, os cantores Augusta Barna e Saulo Soul interpretaram os versos do hit que embalou gerações, intercalados com os “hermetismos pascoais”, de Caetano Veloso (“Podres Poderes”).
Imagens de zapotecas, astecas, quechuas, aimaras e nações indígenas brasileiras se somaram a registros de movimentos rebeldes que sacudiram nossos países, da Revolução Haitiana aos Zapatistas, da Revolução Mexicana às manifestações estudantis chilenas. E novas canções foram apresentadas ao vivo (“Réquiem para Matraga”, de Vandré, “Gracias a La Vida”, de Violeta Parra), compondo envolvente fundo musical para imagens (e frases apresentadas no telão) de Milton Nascimento, Gabriela Mistral, Paulo Freire, dos jogadores Reinaldo e Sócrates, entre muitos outros.
A festa causou funda emoção no público com a simpática condução da atriz Lira Ribas, filha do saudoso cantor Marku Ribas. E começou a primeira homenagem da noite: à cineasta paraguaia Paz Encina. A outra seria endereçada à escritora (e agora atriz) Conceição Evaristo.
Os curadores da CineBH, Ester Marçal Fér e Cleber Eduardo, subiram ao palco para entregar a Paz Encina o Troféu Horizonte Trajetória. Ester saudou a homenageada com belo e consistente texto, lido com entusiasmo: “Há encontros que acontecem antes mesmo de nos conhecermos pessoalmente. O seu cinema foi, para muitos de nós, uma dessas formas de encontro”. Pois “encontramos o Paraguai em seus filmes. E, de repente, aquilo que, apesar de próximo parecia tão distante, se torna verdadeiramente íntimo, por uma maneira muito particular de olhar o mundo”. A curadora lembrou que, “em ‘Hamaca Paraguaya’, você nos ensinou a esperar. A esperar pela chuva, pelo filho, por uma notícia. Mas, sobretudo, nos ensinou a perceber que, às vezes, o que não acontece é justamente aquilo que mais profundamente nos transforma”.
E prosseguiu: “em ‘Ejercicios de Memória’, você nos mostrou que a memória não é um lugar tranquilo. Ela é feita de fragmentos, de vozes, de silêncios, de coisas que conseguimos lembrar e de outras que talvez nunca consigamos recuperar. No filme ‘EAMI’, você nos lembra que perder uma terra pode significar perder uma parte do próprio mundo. Que uma floresta pode ser também uma língua, uma memória, uma casa, uma maneira de existir”.
Cleber Eduardo entregou, então, o troféu, que evoca os horizontes da capital mineira à homenageada. Silenciosa como os camponeses-protagonistas de “Hamaca Paraguaya”, Paz Encina disse apenas “gracias”. E, em seguida, no mais surpreendente (e fertilizador) agradecimento já visto num festival brasileiro, ela enumerou vinte filmes latino-americanos. Filmes importantes, que mobilizaram sua vida de cinéfila e realizadora.
Abaixo a lista que ela anunciou no iluminado palco do Cine Theatro Brasil. Uma lista composta com muitos filmes brasileiros (abrindo generoso espaço para o cinema documental). Outros títulos são mexicanos, argentinos, chilenos, bolivianos, cubanos e uruguaios. Notem que Paz Encina fez questão de destacar duas profissionais brasileiras (a montadora Jordana Berg e a diretora de fotografia Heloísa Passos) em sua enumeração-agradecimento.
Lista de Paz Encina:
. “Terra em Transe”, de Glauber Rocha (Brasil)
. “La Hora de Los Hornos”, de Fernando Solanas (Argentina)
. “La Nación Clandestina”, de Jorge Sanjinés (Bolívia)
. “Camila”, de María Luisa Bemberg (Argentina)
. “El Pueblo”, de Carlos Saguier (Paraguai)
. “La Batalla de Chile”, de Patricio Guzmán (Chile)
. “Edifício Master”, de Eduardo Coutinho – con el montaje de Jordana Berg (Brasil)
. “El Diablo Nunca Duerme”, de Lurdes Portillo (México)
. “Los Rubios”, de Albertina Carri (Argentina)
. “Santiago”, de João Moreira Salles (Brasil)
. “Luz Silenciosa”, de Carlos Reygadas (México)
. “Viajo Porque Preciso Vuelvo Porque te Amo”, de Karim Ainouz e Marcelo Gomes – con la fotografía de Heloísa Passos (Brasil).
. “La Ciénaga”, de Lucrecia Martel (Argentina)
. “La Tempestad”, de Tatiana Huezo (México)
. “Whisky”, de Juan Pablo Rebella y Pablo Stoll (Uruguai)
. “ El Tiempo Perdido”, de María Álvarez (Argentina)
. “Mix tape La Pampa”, de Andrés Di Tella (Argentina)
. “Memórias del Subdesarrollo”, de Tomás Gutiérrez Alea (Cuba)
. “La Libertad del Diablo”, de Everardo Gonzalez (México)
. “El Gran Movimiento”, de Kiro Russo (Bolívia)
FLASHES BELO-HORIZONTINOS
CURTAS, LONGAS E INSTALAÇÕES — Ester Marçal Fér, ao saudar Paz Encina, lembrou também o trabalho da artista paraguaia como artista visual e performer. “Seu trabalho, dos curtas aos longas, e passando pelas instalações” — analisou —, “nos lembra que a América Latina é também feita dessas histórias que resistem ao esquecimento. De povos, línguas, territórios e memórias que continuam buscando um lugar para existir e para serem ouvidos”. Por isso, “Paz, receber você aqui na Mostra CineBH é mais do que celebrar uma grande cineasta. Agradecemos por fazer do Paraguai não apenas um lugar que vemos na tela, mas um lugar que passamos a carregar conosco”. Queremos “agradecer por um cinema que nos convida a olhar e sustentar esse olhar. A escutar as ausências que nos constituem. A lembrar, como diz María José Merino, que ‘permanecer e avançar não são movimentos opostos. Que podemos habitar o passado sem deixar de imaginar o futuro’”.
CONCEIÇÃO EVARISTO, ESCRIVÊNCIAS E FILME — Em sua noite inaugural, com belo tributo aos povos e cultura da América Latina, o festival mineiro prestou homenagem a Conceição Evaristo, escritora e, agora, atriz, que depois seria vista na telona do Cine Theatro Brasil, como uma das protagonistas de “Se Eu Fosse Vivo… Vivia”, filme de André Novais Oliveira. A escritora participou da homenagem por via digital, pois acabava de regressar de Nova York. Foi aplaudida com ardor por seus conterrâneos. Ela é mineira de BH. E este ano irá comemorar seus bem vividos 80 anos.
NO EMBALO DE SACUDIDA TRILHA SONORA — As canções que embalam o “filme de plástico” mineiro “Se Eu Fosse Vivo… Vivia” levantaram a galera que lotou o imenso Cine Theatro Brasil. Hits como “Primavera” (Vai Chover), de Cassiano, “Mandamentos Black”, de Gerson King Combo, “As Dores do Mundo”, de Hyldon, e “Você Abusou”, de Antônio Carlos e Jocafi, se somam a “People Get up Drive your Funk”, do afro-estadunidense James Brown. Para transformar-se em “detonadores” de profundas memórias afetivas. Os espectadores não resistiram às canções do maior time de astros da black music brasileira. Nem ao humor saboroso do roteirista André Novais Oliveira, que domina o prólogo (ambientado na década de 1970) e a parte contemporânea. Mas o público, que teve participação ativa nas duas primeiras partes do filme, quedou-se, digamos, perplexo com a terceira parte, que se constrói como ficção científica. Os aplausos se fizeram ouvir, mas sem a apoteose esperada à première mineira do quarto longa de Novais.
APENAS 43 FILMES LATINO-AMERICANOS — Durante o seminário “Cinema Latino-Americano: o que Será?”, que uniu os curadores da CineBH Cleber Eduardo e Esther Marçal Fér aos hispano-americanos Marisol Aquila, do Chile, Clarissa Navas e Álvaro Arroba, da Argentina, um dado desesperador foi apresentado: de 2020 até hoje, apenas 43 filmes hispano-americano foram lançados, em pequenos circuitos, no mercado brasileiro. Só um, o terror argentino “O Mal que nos Habita”, fez bilheteria significativa, mesmo que modesta se comparada com blockbusters norte-americanos. Os outros 42 títulos não ultrapassaram 3 mil espectadores (cada). Outro tema levantado no seminário foi “a domesticação” do cinema da região pelo streaming, por residências artísticas ou por laboratórios que formatam (“padronizam?”) projetos.
